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Revisitando “Bete Balanço” | Barão Vermelho e estética pop inovaram o cinema nacional em 1984

Filme com trilha sonora do Barão Vermelho usou pop-art e videoclipes para contar a história de uma jovem em busca do sucesso

Pode seguir a tua estrela, o teu brinquedo de star. A canção Bete Balanço – composta por Cazuza em parceria com Roberto Frejat – fecha o álbum Maior Abandonado, lançado em 1984. A música, que se tornou um símbolo do pop-rock nacional, foi feita especialmente para o filme de mesmo nome e lançado no mesmo ano. Dirigido por Lael Rodrigues e estrelado por Debora Bloch e Lauro Corona, Bete Balanço é um dos pioneiros da pop-art e da estética eletrônica e urbana no cinema brasileiro. 

Em 1984, o cinema nacional lançava filmes autorais e compostos por uma estética própria e independente de formatos industrializados. É o caso dos clássicos Cabra Marcado Para Morrer, de Eduardo Coutinho, e Memórias do Cárcere de Nelson Pereira dos Santos. Bete Balanço é o contraponto dessas estruturas, uma vez que replica os estilos e ideais norte-americanos. O filme renega a interioridade em troca da juventude burguesa dos grandes centros e aposta em elementos visuais que, embora tentem ser inovadores, estão totalmente inseridos nas estética propostas pelo mundo pós-globalizado. 

Mais do que uma narrativa cinematográfica estruturada, o objetivo de Bete Balanço era entregar para os jovens da época um conjunto de videoclipes que sintetizassem toda a efervescência cultural de uma sociedade prestes a abandonar uma ditadura militar. O regime abafava as liberdades individuais dos jovens brasileiros há exatos 20 anos. Levar para o cinema uma história que alternava o diálogo cinematográfico com os vídeo-clipes era uma estratégia que sanava a carência do público para esse tipo de conteúdo. Essa demanda só seria resolvida por completo 6 anos depois, com a chegada da MTV no Brasil.

O filme se concentra na figura de Bete (Debora Bloch), uma jovem que decide abandonar a cidade mineira de Governador Valadares para lançar sua carreira de cantora no Rio de Janeiro. Uma réplica da já conhecida jornada da menina do interior que joga todas as suas fichas na esperança de alcançar o sucesso e a felicidade na cidade grande. Como sempre, essa esperança é abalada cedo. Logo Bete percebe que o cenário musical é formado por empresários burocráticos e que os caminhos que levam até a fama podem ser complicados.

Cazuza e o Barão Vermelho

A banda Barão Vermelho surgiu em 1981 no Rio de Janeiro. Em pouco tempo, o grupo formado  por Cazuza, Frejat, , Guto e Maurício se tornou um fenômeno nacional. Os primeiros álbuns do Barão, produzidos por Ezequiel Neves, foram um sucesso. A banda se tornava cada vez mais relevante no cenário nacional e era sintetizada na figura de Cazuza. O filme Bete Balanço surfou no sucesso crescente do conjunto carioca e contou com duas músicas feitas especialmente para a sua trilha sonora. Além daquela que nomeia ao filme, a canção Amor, amor também foi feita para ser tocada no longa.

Entretanto, mais importante do que a participação do Barão Vermelho na trilha sonora do filme, foi a sua participação em cena. Cazuza e o resto do grupo estão em uma das cenas do longa e interagem com a protagonista durante sua busca voraz pela fama na carreira musical. Não é a toa que hoje, mais de 30 anos depois do seu lançamento, muitos conhecem Bete Balanço como “o filme do Barão Vermelho“.

A brasilidade e os primeiros passos de um novo estilo de vida

Bete Balanço brinca com cores e com composições. Os diálogos se entrelaçam na trilha sonora e os atores estão totalmente imersos nesse experimentalismo que, embora comum no norte do continente, era inovador em terras brasileiras. Entretanto se engana quem pensa que Bete Balanço poderia se passar totalmente por um filme norte-americano. Os roteiristas incluem elementos próprios da brasilidade na construção do roteiro. Além da insatisfação com o regime autoritário, que estava com os dias contados, o filme aborda a violência urbana do centro do Rio de Janeiro. Em uma das cenas, a personagem principal vivencia um assalto que, depois, é abordado com mais detalhes ao longo da narrativa.

Por mais que existam grupos que romantizam a década de 80 em certos aspectos, é inegável que o povo brasileiro era ainda mais conservador e reacionário do que é hoje. Bete Balanço, assim como o próprio Barão Vermelho, e grande parte dos artistas e das produções jovens da época, tentavam protestar contra o moralismo e os preconceitos da sociedade. Além de discussões que demonstravam um novo estilo de vida, liberal e progressista, foi gravada uma cena de sexo entre Debora Bloch e Maria Zilda que teve que ser cortada na versão final do longa. As alegações da produção, segundo reportagem do UOL, é que os cortes foram feitos por razões comercias para que a classificação indicativa do filme não fosse para maiores de 18 anos. 

Lauro Corona e o vírus do HIV no Brasil

A AIDS assombrou a década de 80. O vírus do HIV ataca as estruturas de defesa do corpo humano e, na época, faltava informações e tratamentos no Brasil e no mundo. Diversos filmes e séries de TV contaram a história dessa pandemia global e entre elas a recém lançada It’s a Sin

Muitos artistas brasileiros foram acometidos pelo HIV. O mais notório e um dos primeiros a falar publicamente sobre o tema foi Cazuza. Lauro Corona, protagonista do filme e um dos galãs da teledramaturgia e do cinema nacional da época, morreu um ano antes do cantor e cinco anos após o lançamento de Bete Balanço. Corona foi uma das primeiros celebridades nacionais a perder a vida devido as complicações do vírus.

Divulgação/Embrafilme (1984)

Corona morreu jovem, com apenas 32 anos. Mesmo assim, foi e ainda é considerado um dos grandes atores brasileiros, presente também no filme O Sonho Não Acabou e em novelas como Dancin’ Days e Vida Nova. O filme Bete Balanço se torna ainda mais importante se olharmos na perspectiva de que é um dos grandes trabalhos do autor, que deixou registrado para sempre a sua atuação leve e romântica no filme de Lael Rodrigues.  

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