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Review: 10 anos do “Teenage Dream” da Katy Perry

Há uma década, Katy Perry nos levava a um incrível mundo dos doces e nos entregava “Teenage Dream”, uma das obras mais icônicas da história da música pop

Hoje faz uma década que “Teenage Dream” de Katy Perry começou a tocar nos nossos rádios e players com os downloads (muitas vezes piratas), enquanto assistíamos os clipes icônicos dessa era no Top 10 MTV. Há poucos dias do lançamento de “Smile”, seu novo álbum, vale a pena viajarmos no tempo e relembrarmos o disco que consolidou o nome da cantora de uma vez por todas como uma A-list, liderou charts, entregou visuais marcantes, deu sua fama de “doceira” e ficou gravado com uma das joias da música pop.

Tudo começou com um tweet em maio de 2010, com o slogan (que foi utilizado no seu site e em todas as redes): “o verão começa agora”! Era o anúncio do primeiro single, ‘California Gurls’, uma parceria com Snoop Dogg, e que já nos entregava como iria ser a viagem pelo novo universo de sonhos adolescentes:

Tweet de lançamento de ‘California Gurls’

Após ganhar notoriedade e ter realizado um trabalho muito bem sucedido com “One of The Boys” (2008), em que entregou hits históricos como ‘Hot’N’Cold’, ‘I Kissed a Girl’ e outros, chegando até mesmo a ter suas músicas em novelas brasileiras, Katy tinha um grande desafio: mostrar que ainda tinha muito mais a entregar!

Já falamos um pouco como 2010 foi um época e tanto para música pop. E o segundo álbum de um artista, principalmente uma cantora pop, era o que determinava se, de fato, a carreira iria continuar ou não. Era uma época onde os charts de vendas de discos dominavam as mentes de quem ouvia pop.

As “fórmulas de sucesso” ditavam o que era tendência: o eletropop que Britney Spears tornou mais popular e que se firmou com a chegada de Lady Gaga à indústria era praticamente obrigatório em um disco pop. Músicas extremamente dançantes falando de festas e de autoaceitação estavam em quase todas as tracklists. Era isso ou no mínimo fazer uma balada incrivelmente poderosa (sobre autoaceitação de preferência). Podemos considerar essa época um verdadeiro cultural reset, até porque foi nesse período que o pop mainstream começou a ficar, diríamos, mais politizado. Foi a faísca para que grandes artistas pop tomassem consciência do alcance de suas vozes e mudassem os rumos das “músicas de balada” que tocariam nas rádios futuramente.

Ainda em 2010, onde grandes hinos e farofas que são idolatrados até hoje surgiram, tínhamos alguns nomes que estavam na “cartilha de como fazer um hit”: o polêmico e cancelado Dr. Luke, Max Martin e Benny Blanco estavam no checklist de obrigações quando o assunto era a produção de canções de sucesso. E junto com compositoras como Bonnie McKee (responsável por ‘Dynamite’ de Taio Cruz, smash hit da época, além de escrever para Christina Aguilera, Kylie Minogue, Britney Spears, entre outras), não tinha como Katy Perry não fazer um álbum que seria o ícone do começo de uma nova década.

Um fator interessante é, que mesmo cercada de um time gigantesco, a cantora mesmo assim manteve sua essência como compositora. Chegou até mesmo a fazer a concepção de parte do material em Santa Barbara, sua cidade natal. E isso foi crucial para um grande dilema: ela precisava provar que era uma artista que iria continuar bombando na indústria fonográfica, porém, não podia perder a sua personalidade, um tanto que polêmica, e que a fez chegar onde chegou.

O trabalho foi um verdadeiro sucesso, vendendo milhões de cópias, sendo um dos álbuns mais vendidos da história. Cercada de críticas divididas, muito se falou naquele ano de sua genialidade como uma artista pop, mas também muitas cobranças por “vocais melhores” vinham, por exemplo.

Sem sombras de dúvidas, ela foi perspicaz o suficiente para unir dois fatores que são suas especialidades: canções poderosas e um apelo visual altamente marcante!

Chega a ser impensável falar do “Teenage Dream” sem associar a esse apelo visual, algumas vezes relembrando a estética pin-up muito utilizada no começo de sua carreira, e toda a atmosfera exaltando o mundo dos doces, e que influenciaram desde a concepção da capa icônica, até as estratégias comerciais.

Uma delas foi disponibilizar um limitado número de edições físicas do disco que foram encharcadas em uma essência de algodão doce, explorando toda sinestesia de misturar músicas (audição), ao contexto estético (visual) e ao olfato. O responsável pela capa, que foi o símbolo de uma era, foi Will Cotton, que pintou Perry nua no meio de nuvens de algodão doce.

Image

Dois fatores também foram muito importantes para o rumo da história desse projeto. O primeiro deles, e que talvez veio como uma consequência da hype que a cantora tinha, é a ambição por quebrar o recorde de Michael Jackson de artista com mais #1 consecutivos de um único álbum na Billboard Hot 100. O que proporcionou seis single, porém com o último não conseguindo o posto e não batendo o recorde. O segundo, foi o casamento com o comediante Russell Brand, que foi o “muso inspirador” de boa parte das músicas do álbum. Começamos então a mergulhar nos “sonhos adolescentes” de Katy.

As guitarras rápidas da faixa-título, ‘Teenage Dream’ e o clima de “aventuras na estrada” começam a nos guiar para uma sensação estonteante e emocionante de um amor adolescente. Apesar de extremamente comercial, essa canção soa como uma evolução do estilo de Perry comparado ao seu disco anterior. A guitarra e baterias bem marcantes contagiam nessa que, com certeza, é uma música destinada às rádios.

‘Last Friday Night (T.G.I.F.)’ é uma ode à festas pesadas e loucas. As guitarras e baterias continuam marcando muito os compassos, chegando a compor até mesmo um pop mais oitentista, com a adição de um saxofone super ousado. O que chama atenção é o estilo de composição de letra, uma narrativa divertida e com elementos característicos da cantora. É inegável que esse foi um dos grandes hits eternizados que o legado de Katy irá deixar, tocando até hoje nas baladas. A época pedia músicas de festas e a artista entregou algo nessa temática, mas totalmente diferente do que tocava nas rádios. Foi o quinto single do disco, e foi com ela que Perry alcançou o quinto #1 consecutivo do álbum na Billboard Hot 100, sendo a primeira mulher a realizar esse feito. No clipe, super divertido, temos a aparição especial de Rebecca Black, conhecida pela canção ‘Friday’, que viralizou na internet e mundo Tumblr em 2011.

‘California Gurls’, um featuring com o rapper Snoop Dogg, sem dúvidas é um dos maiores símbolos desse álbum, desde o tema, melodia e principalmente estética. O carro-chefe do trabalho conta com uma letra que faz uma alusão à ‘California Girls’ (1965) dos Beach Boys. Chegando a ser comparada com o smash hit ‘TiK ToK’ (2009) de Kesha, também produzido por Dr. Luke, a música mostra uma Katy Perry disposta a ousar nos sintetizadores e autotune para emplacar um hit. É quase impossível não associar a faixa à estética, que juntas nos levam a um bubblegum pop caloroso e muito doce. Além, claro, da icônica cena dos sutiãs que soltam chantilly!

A quarta faixa, e terceiro single oficial, ‘Firework’ é uma poderosa balada que participou da consolidação dos hinos de amor próprio na música pop da época. Liricamente, é uma mensagem muito profunda e que rendeu a eternizada frase: “Você já se sentiu como um saco plástico, movendo-se no vento, querendo começar de novo?”. Novamente vemos uma canção não tão óbvia, e que ninguém esperava que pudesse vir dela. Está entre seus grandes sucessos, e talvez, seja o maior deles.

‘Peacock’ é daquele tipo de faixa que tem o “selo Katy Perry”: batida marcante, um clima retrô, alto humor e muito, mais muito, duplo sentido. É onde temos a maior herança de trabalhos anteriores como “One of The Boys” e até mesmo o EP “Ur So Gay” (2007). Em uma vibe Gwen Stefani, com um pop retrô, a cantora faz um trocadilho do pavão com o órgão genital. Apesar de ser uma das canções mais pedidas a serem single, a repetição de “peacock-cock-cock” até fez surgirem algumas versões censuradas, mas que nunca chegaram a ver a luz do dia nas rádios.

E por falar no estilo da cantora, ele atinge imensas proporções em ‘Circle The Drain’, onde toda acidez e perspicácia lírica estão presentes de um modo gigante. Na letra, completamente agressiva, Perry canta para seu ex-namorado, o rapper Travie McCoy, criticando o uso de drogas e como isso afetou o relacionamento deles. Mesmo não tendo “cara de hit”, é aqui onde grande carga de experimentações do álbum está, com guitarras e sintetizadores formando um synthpop com eletro rock com uma alta carga emocional e genialidade, o auge do disco.

O clima ainda continua agitado em ‘The One That Got Away’, o sexto single oficial e única que não foi #1 na Billboard. É uma música com uma certa essência pop-rock que poderia facilmente estar em qualquer trabalho da cantora. Cantando sobre seu relacionamento com o música Josh Groban, não é novidade que a letra é muito bem trabalhada.

‘E.T.’ é uma faixa única em vários sentidos: fez um incrível sucesso mesmo sendo vazada vários meses antes do lançamento do álbum e a sonoridade é totalmente desconexa de todas as outras músicas presentes no projeto. Em uma abordagem incrivelmente eletropop e futurista, com sintetizadores incisivos, temos, junto com a canção seguinte, os únicos pontos de versatilidade sonora no todo. Conhecemos um estilo que até então nunca havia sido explorado por parte de Katy. Soa como um refresco, uma surpresa agradável e que ganhou também um remix com o rapper Kanye West para o clipe.

Trazendo um pouco mais de influências eletropop e synthpop, ‘Who Am I Living For?’ faz o casamento perfeito com a faixa anterior, chegando a transformar a atmosfera solar e doce do disco em algo mais obscuro e reflexivo. Temos fortes misturas de imagens religiosas, principalmente com a história bíblica de Ester, enquanto mantém o tema geral da luta entre viver para o mundo e viver para Deus, remetendo às suas origens como cantora gospel. Um grande auge de sua maturidade lírica e sonora.

A tímida ‘Pearl’ não tem grande destaque na tracklist, apesar de sua letra incrivelmente pessoal e feminista, características que Perry explorou mais profundamente nos trabalhos posteriores. Ela é seguida pela contagiante ‘Hummingbird Heartbeat’, que talvez deslocada para a parte errada do álbum, resgata o espírito intenso de uma grande paixão que ‘Teenage Dream’ tinha mostrado. É um pop-rock que soa como seu início de carreira e inspirações como Alanis Morissette.

A faixa escolhida para encerrar o trabalho, ‘Not Like the Movies’, é a única amostra de uma balada de piano que temos em todo o disco. É aqui que o clima fica lento e temos um final triunfante e cinematográfico.Se assemelha mais com os créditos finais de um filme, de um modo extremamente melancólico e dramático. Funcionando exatamente para um encerramento perfeito.

Desde a sua concisão por escolher apenas 12 faixas para a versão standard, até a produção e o modo como foi trabalhado comercialmente, vemos um disco realmente criado para fazer sucesso. Ao longo da tracklist temos exemplos bem claros de que praticamente todas as músicas foram feitas com a intenção de tocar nas rádios.

Porém, ao contrário de muitos que já pecaram pelo exagero e perderam a mão, Katy criou um projeto que, mesmo com alguns pontos que soam genéricos, tem a sua marca e traz várias vezes um frescor próprio.

Temos aqui a prova de que a personalidade de um artista influencia e muito em um trabalho. Apostando em sua mensagem, Perry criou um verdadeiro “pop perfection” que foi eternizado como um dos grandes sucessos de toda história da música pop. E não foi a toa que além de se consolidar no mercado, vimos que a artista só cresceu e provou que podia fazer até mais.

Nota do autor: 93/100

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