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Review: 10 anos do “Who You Are” da Jessie J

Um verdadeiro exemplo de estreia bem sucedida (e possivelmente seu ato mais icônico), “Who You Are” de Jessie J mostra que há 10 anos estamos diante de uma artista completa

Em um ato arriscado para uma novata, com “Who You Are” Jessie J traz um refresco para a música pop em seu disco de estreia, chegando com muito estilo, voz e com a proposta de “fazer o mundo dançar”. Se o ano de 2010 havia sido de muitos hinos de pistas de dança, pirotecnias e quanto mais artifícios melhor, 2011 era uma época dominada pelo pop insistentemente genérico. Apesar de Adele estar fazendo um sucesso absurdo com seu vozerão com o aclamado “21”, o que dominava eram as distorções vocais em batidas repetitivamente eletrônicas.

Com críticas sociais e à indústria musical bem articuladas e uma cartela de dilemas da vida pessoal, a britânica conseguiu fazer com o seu sucesso no Reino Unido explodisse mundialmente em instantes e batesse diversos recordes.

Era muita a expectativa de ver a compositora do smash hit ‘Party In The USA’ de Miley Cyrus e que já escreveu até mesmo para Chris Brown cantar suas próprias canções, junto com o sucesso instantâneo de suas primeiras músicas solos. Com material desde sua infância e um longo tempo de produção (2005 a 2011), a obra conta com alguns produtores renomados. Todo esse tempo com certeza é refletido no trabalho: que simplesmente não apresenta sequer alguma aresta ou algo fora do lugar.

Okay, Coconut Man, Moonhead and Pea. You ready?

É com esta frase, aparentemente sem sentido algum, que começa um dos hits daquele ano: ‘Price Tag’, uma parceria com o rapper B.o.B, que estava muito em alta na época inclusive. Em uma crítica bem direta à indústria musical que se importa apenas com o dinheiro, a artista traz uma canção “retrô” daquelas “gostosas de ouvir em qualquer lugar”. Com baixos contagiantes e uma melodia viciante, não é à toa que seja eternizada até hoje como um de seus maiores sucessos. Aqui a cantora mostra que é possível fazer música porque quer e assim vemos o quanto o resto do álbum é extremamente coeso.

“Não é sobre dinheiro, dinheiro, dinheiro
Nós não precisamos do seu dinheiro, dinheiro, dinheiro
Nós só queremos fazer o mundo dançar
Esqueça sobre a etiqueta de preço”

‘Price Tag’ – Jessie J

O clima fica um pouco mais intenso com ‘Nobody’s Perfect’, mais um dos grandes destaques do projeto. Com baterias bem marcadas e um ar um pouco mais agressivo e sombrio, a cantora começa a mostrar mais de seu potencial vocal e capacidade de escrever faixas com letras viciantes.

Em uma junção dos elementos anteriores, na calma ‘Abracadabra’ o R&B e o funk americano correm soltos e soam como se Katy Perry resolvesse pegar esses elementos. Ficando em um clima ainda mais calmo com apenas poucos acordes de violão, ‘Big White Room’ se destaca por ser uma das canções mais poderosas “com menos”. Talvez seja o momento em que mais mostra seu potencial vocal em todo o trabalho, e, por ser a gravação de uma live, deixa a música ainda mais crua e impecável, mostrando que não precisa de camadas e mais camadas em sua voz. Destaca ainda mais suas “firulas vocais” icônicas.

‘Casualty Of Love’ não necessariamente é “O momento”, e mesmo assim conquista pela sua vibe ideal para os amantes de um bom R&B. Com um refrão bem marcado, a faixa consegue fazer um esforço e se sustentar sem parecer uma filler.

A moda das músicas de autoajuda da época simplesmente parece a coisa mais júnior e fútil em relação ao “Who You Are”

A diferença entre cantar “quem você é” para ser um hit da época (claro, não generalizando grandes obras como ‘Firework’ de Katy Perry e outros atos icônicos) e Jessie J cantando “quem você é” chega ser hiper discrepante. O que mais destaca a britânica é a total entrega, trabalho duro e presença perceptíveis em seu disco. 

Isso faz com que mesmo cantando por quase todas as canções presentes com uma vibe autoajuda, não soe superficial. Qualquer um, mesmo sem conhecer a trajetória da cantora, consegue se identificar com as letras e trazer isso para sua própria vida. E isso só é possível quando se é uma artista completa.

E mostra também como consegue fundir desde elementos de hip hop à resgatar o melhor dos anos 2000 em ‘Rainbow’, que se destaca e nos prepara para um momento mais intenso do disco. É aí que vem então a animada ‘Who’s Laughing Now’, que continua soando como um ótimo flashback da época em que o pop ainda era mais instrumental, mas trazendo a sonoridade para o contemporâneo. Talvez seja um dos poucos momentos em que a cantora cede um pouco e se aproxima com o que tocava de fato nas rádios.

J-J-J-J-Jessie J

Com o ápice da atitude em seu jeito de cantar, ‘Do It Like a Dude’ é sem dúvidas um hino feminista sob influências de uma mistura louca de ácidas guitarras e uma música mais urban. Aqui vemos o clímax de um trabalho sólido, porém, com um “a mais” do cunho social, se transformando em algo extremamente vendável, com espírito de rebeldia e agressividade de uma forma ímpar. A produção do The Invisible Man, trio responsável por ‘Fancy’ da Iggy Azalea e outras produções para nomes como Britney Spears, Bebe Rexha, Coldplay e outros também ajuda a consolidar a faixa com o grande destaque do álbum, além de sua letra.

“Eu consigo fazer isso como um brother, fazer isso como um cara
Pegar minha virilha, usar meu chapéu baixo como você”

‘Do It Like a Dude’ – Jessie J

A virada que ‘Mamma Knows Best’ traz chega a ser chocante. Em questão de 1 segundo saímos de um urban, para um frenético jazz de primeira qualidade, ousado, mas um insight perspicaz. Não chega a ser o melhor momento, porém, traz o tempero para que ritmos totalmente ditos “cultos e eruditas” sejam mastigados para um público que está acostumado ao mais puro pop.

A volta ao R&B da retrô ‘L.O.V.E.’ soa como se Destiny’s Child diminuíssem um pouco o ritmo e focassem em acapelas com notas altíssimas. No meio de um álbum com tantas questões pessoais e letras fortes, essa canção traz uma curiosa estrutura de alguém que apenas está com vontade de falar sobre amor por um instante.

“Eu disse que nunca iria escrever uma canção sobre o amor
Mas quando se é tão bom, uma música se encaixa como uma luva”

‘L.O.V.E.’ – Jessie J

‘Stand Up’ e ‘I Need This’ continuam a “sessão anos 2000”, mas de um modo um pouco mais teen pop rock, digamos assim. Temos um guitarra estridente querendo surgir, violão, piano e muita bateria. Faixas que se encaixariam nostalgicamente em algum filme adolescente da Disney.

‘Who You Are’, uma das favoritas assumidas dela, é também uma das mais poderosas emocionalmente. A faixa-título, assim como quase toda a obra, trazem uma mensagem inspiracional de que não há problema em ficar triste às vezes, o importante é ser quem é. E essa experiência fica mais intensa com os vocais extremamente altos e um violão.

Para honrar as músicas da edição deluxe, que merecem ser destacadas como a extensão de equilíbrio tremendo que Jessie encontrou entre seu estilo e o que é puramente comercial, a também adolescente nostálgica ‘My Shadow’ e os hits ‘Domino’ e ‘LaserLight’ com David Guetta até soam como que ela tenha “se vendido”. Apesar disso, temos grandes hinos que fizeram um sucesso absurdo e que consagraram a artista de uma vez também no universo das pistas de dança.

Em seu todo, é uma obra quase impecável e ímpar,  que por uma surpresa veio de uma novata

“Who You Are” continua sendo até hoje um álbum que conseguiu juntar todos os ingredientes para ser um sucesso eternizado: composições de fácil identificação e com atitude, influências diversas com muita coesão, produção fora de modismos e mesmo assim vendável, muita voz (e coloca voz nisso) e uma parte estética e conceitual como o tempero que fez todo o diferencial.

Não é à toa que vimos que, mesmo após 10 anos, Jessie J se mostrou consolidada e até mesmo adquiriu o posto de uma das maiores intérpretes vocais da atualidade. Desde “Who You Are” já era possível ver que estávamos diante de uma artista completa que ainda tem muito a oferecer.

Nota do autor: 90/100

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