A história do álbum “El Mal Querer” da Rosalía

Inspirado em “Romance da Flamenca”, Rosalía traz “El Mal Querer” como uma forma de recontar a história na visão feminina
Rosalía
(Créditos/divulgação Columbia Records)

Servindo de base para o El Mal Querer, álbum de Rosalía, o Romance de Flamenca é um romance datado do século 13, e o autor até hoje é marcado como desconhecido. O livro foi originalmente escrito em occitano, língua românica falada no sul da França. Ele conta a história de um triângulo amoroso em que a mulher é fatalmente a vítima e, como a maioria dos livros da era medieval, a história não tem um fim.

Incorporando a obra, Rosalía conta uma história de amor e tragédias, em que prevê o seu próprio destino e embarca em uma jornada de autoconhecimento, necessitando retomar seu poder para si própria. Por isso mesmo, o experimento em El Mal Querer vai do pop ao flamenco e flui entre os gêneros da forma mais fiel que possa retratar os sentimentos conflituosos de sua protagonista. Definindo-se e redefinindo-se, em uma brincadeira com muitas palmas e as cordas agitadas de um violão.

Do trabalho de faculdade ao Álbum do Ano

El Mal Querer nasceu como trabalho de conclusão do curso de flamenco de Rosalía na Escola Superior de Música da Catalunha (ESMUC), em Barcelona, onde ela teve como mestre o cantaor Chiqui de La Línea. Ao Efe Eme, a cantora contou que definiu o título e os 11 capítulos antes mesmo de compor as músicas. O arco narrativo foi montado com Ferran Echegaray, a partir de Flamenca, o romance da mulher trancada numa torre pelo marido ciumento.

O disco foi gravado no apartamento de El Guincho (Pablo Díaz-Reixa), em Barcelona, com equipamento mínimo e financiado pela própria Rosalía. C. Tangana assina a composição de boa parte das faixas. À Time Out Madrid, ela explicou que buscava “inspiração flamenca”, e não um disco purista. A capa e todo o universo visual são do artista Filip Ćustić, que ela conheceu pelo Instagram. Os primeiros clipes saíram da produtora CANADA.

Lançado em 2 de novembro de 2018 pela Columbia Records, o álbum venceu Álbum do Ano no Grammy Latino de 2019. Com isso, Rosalía se tornou a segunda mulher solo a levar o prêmio, a primeira desde Shakira, em 2006, segundo a Rolling Stone. No ano seguinte, ganhou o Grammy de Melhor Álbum de Rock Latino, Urbano ou Alternativo e entrou na lista dos 500 melhores discos de todos os tempos da Rolling Stone. A turnê El Mal Querer Tour teve 41 shows em 2019, com passagens por Coachella, Glastonbury e Primavera Sound, onde reuniu cerca de 63 mil pessoas, o maior público da turnê.

MALAMENTE (Cap. 1: Augurio)

Tem como tema principal a descoberta da mulher, através de uma cigana, de que o seu casamento marcado tinha grandes chances de terminar em desgraça. Logo nos primeiros versos se revela o destino da personagem principal [Esse vidro estilhaçado/ Percebi como rangia/ Antes de cair ao chão/ Já sabia que se quebrava…] — uma metáfora ao possível mal que vai acontecer após o casamento.

Para Rosalía, a música fala daquela sensação de que algo ruim vai acontecer e, mesmo assim, você segue em frente, como ela contou à Paper. Primeiro single do projeto, lançado em 30 de maio de 2018, “Malamente” mistura palmas e jaleos flamencos com batidas de trap. Ganhou dois prêmios no Grammy Latino daquele ano, Melhor Canção Alternativa e Melhor Fusão/Interpretação Urbana, antes mesmo de o álbum sair, e a cantora apresentou a faixa na cerimônia, em Las Vegas.

O clipe, dirigido por Nicolás Méndez, da CANADA, usa a tourada como metáfora de uma relação danosa: uma moto faz o papel do touro, e um nazareno aparece de skate. Méndez contou ao Jot Down que Rosalía chegou com um dossiê de referências, da fotógrafa Cristina García Rodero ao cineasta Bigas Luna. O vídeo também abriu a primeira polêmica da era: um dia após o lançamento, a ativista cigana Noelia Cortés acusou a produção de usar símbolos ciganos como adorno estético, sem envolver pessoas ciganas. O debate sobre apropriação cultural acompanharia a cantora dali em diante.

QUE NO SALGA LA LUNA (Cap. 2: Boda)

Temos a visão completa do casamento, uma boda rica, cheia de diamantes, amores prometidos, o desejo e o amor virginal. O noivo, eu lírico, pela própria voz da Rosalía, canta [O dia que a encontrei/ Tenho sinalado a ponta de navalha/ Prima, sobre a parede/ Tenho sinalado a ponta de navalha]. A ameaça e os objetos afiados se misturam às promessas de amor [Se há alguém aqui que se opõe/ Que não levante a voz/ Que a noiva não o escute/ Que a Lua não saia que não tem para que]. O noivo é capaz de ameaçar até as próprias forças naturais para manter a mulher como objeto.

É a bulería do disco e seu elo mais tradicional. A faixa parte de “Mi Cante por Bulerías”, de La Paquera de Jerez, com violão de Manuel Moreno e palmas e jaleos de Los Mellis, Las Negris e Lin e Nani Cortés. Ainda assim, Rosalía a construiu com lógica de música eletrônica: um loop hipnótico em que filtros ora escondem, ora destacam o violão, criando mudanças de espaço quase cinematográficas, segundo o Jenesaispop.

É a faixa mais longa do álbum. Mesmo sem ter sido single nem ganhado clipe, foi chamada pelo Jenesaispop de a “obra-prima não tão óbvia” de El Mal Querer, ofuscada pelos hits.

PIENSO EN TU MIRÁ (Cap. 3: Celos)

O marido, eu lírico pela própria voz da Rosalía, canta sobre sua mulher [Fico com medo quando você sai/ Sorrindo para a rua/ Porque todo mundo pode ver/ Suas pequenas covinhas que saem].

A partir de então começa um canto obsessivo sobre relacionamento abusivo. Ele sente ciúmes da água que toca nos lábios da noiva e do ar que passa pelos cabelos da mulher.

Segundo single, lançado em 24 de julho de 2018, a música chegou ao 5º lugar na parada espanhola e foi indicada a Melhor Canção Pop no Grammy Latino de 2019. O ciúme ganha forma sonora em palmas, eletrônica, harmonias vocais e efeitos que imitam impactos de bala.

O clipe foi gravado junto com o de “Malamente”, em cinco dias, também com direção de Nicolás Méndez. À W Magazine, ele explicou as escolhas: os caminhoneiros entraram por causa do costume de escrever o nome da esposa no caminhão, um símbolo de posse, e o sangue que atravessa as camisas vem da mesma ideia. Para o diretor, vampiros são a forma extrema de posse e de amor. A música ainda ganhou versões ao vivo no programa Later… with Jools Holland, da BBC, e no show gratuito na Plaza de Colón, em Madri.

DE AQUÍ NO SALES (Cap. 4: Disputa)

Na quarta faixa temos as primeiras ameaças: o homem começa a mostrar sua verdadeira face [Dói mais em mim/ Do que te magoa/ Não se equivoque comigo]. Depois disso, as primeiras agressões físicas [Com as costas da mão/ Deixo muito claro para você]. A voz da Rosalía para, e começam as palmas, representando a agressão física, e os gemidos de dor da mulher.

À Paper, Rosalía chamou esta de a música mais opressiva do disco. É uma seguiriya sem violão espanhol, em que o compasso é marcado por roncos de motor, freadas e sirenes. Por cima, uma tempestade de coros da própria cantora, sampleados e distorcidos.

Último single do álbum, a faixa ganhou clipe em janeiro de 2019, dirigido por Diana Kunst e Mau Morgó, com coreografia de Charm La’Donna. Entre motos, gasolina e um moinho em chamas, o vídeo acompanha uma mulher agredida que se fortalece e vai embora pilotando, deixando o homem para trás no fogo. Ao vivo, contou a cantora, o momento ficava ainda mais forte pela atitude das dançarinas.

RENIEGO (Cap. 5: Lamento)

A voz da Rosalía dá abertura para o lamento de uma mulher agredida [Eu rio por fora/ E choro por dentro]. Ela renega o amor obsessivo.

O lamento vem em forma de seguiriya, um dos palos mais graves e dramáticos do flamenco. As cordas são da Orquestra Sinfônica de Bratislava, com arranjo de Jesús “Bola”, o mesmo de “Soy Gitano”, clássico de Camarón de la Isla. Ao Efe Eme, Rosalía contou que quis uma seguiriya com orquestra justamente por amor ao trabalho orquestral de Camarón, e que se arrepiava só de falar do arranjador.

Segundo o Jenesaispop, a faixa parte de um pregão, o canto dos vendedores ambulantes, de Gabriel Macandé, e o arranjo remete às gravações de copla dos anos 1940 e 1950.

PRESO (Cap. 6: Clausura)

Um pequeno relato de uma mulher que “desceu ao inferno” (um relacionamento abusivo) e saiu com “dois anjos” (dois filhos). No fim, ela reflete [Te prende sem você perceber/ Você percebe quando você sai/ Você pensa, como eu cheguei aqui?]. A mulher já está presa em meio a um relacionamento abusivo.

A voz desse relato é da atriz Rossy de Palma, musa de Pedro Almodóvar. O interlúdio falado segue a tradição da declamação no flamenco, a mesma de Lola Flores e da mestra dela, Gabriela Ortega. Na narrativa do álbum, é o ponto de virada, ligado ao trecho de Flamenca em que a mulher é trancada pelo marido ciumento, como Rosalía explicou ao Efe Eme.

BAGDAD (Cap. 7: Liturgia)

Começa com um sample de “Cry Me a River”, do Justin Timberlake, e só por aí você sabe para onde a música vai. Bagdad é nome de cidade santa, mas também da maior boate de strip da Espanha. O eu lírico canta [E vai queimar, se continuar assim/ As chamas vão para o céu para morrer/ Não há mais ninguém lá fora/ Não há mais ninguém, batendo palmas]. Não há salvação a não ser sair da situação sozinha. E a mulher, de mãos juntas, cantando o flamenco, parece rezar aos céus para sair dessa situação.

O empréstimo teve aval do próprio Timberlake: em entrevista à Beats 1, Rosalía contou que ele ouviu a música e liberou o uso, algo que quase nunca faz, como registrou o Grammy.com. O nome vem do Bagdad, casa de shows eróticos no bairro do Raval, em Barcelona. O contraste com o sagrado está no arranjo: a faixa tem vozes do coro do Orfeó Català, arranjadas por Joan Albert Amargós, que já trabalhou com Camarón. A cantora a descreveu como a mais espiritual do disco, algo que “suena a catedral”.

Quarto single, lançado em 4 de dezembro de 2018, a música ganhou clipe do francês Helmi. Nele, Rosalía aparece de peruca loira e macacão de látex vermelho como dançarina de uma casa noturna. Depois se tranca num banheiro, que inunda com as próprias lágrimas, numa dedicatória a quem se afogou na própria tristeza.

DI MI NOMBRE (Cap. 8: Éxtasis)

Rosalía se vê atada a esse inferno conjugal, atada à cama do seu marido abusivo. Ela pede para ele dizer seu nome em meio ao sexo, pois é só nesse momento que ela se sente valorizada.

Lançada em 30 de outubro de 2018, dias antes do álbum, “Di Mi Nombre” estreou em 1º lugar na parada espanhola, o primeiro número 1 da cantora no país. A base vem dos tangos de La Repompa de Málaga, com autotune nos vocalizes, jaleos usados como ad-libs de hip-hop e teclados minimalistas. O título, segundo Rosalía, também acena para “Say My Name”, do Destiny’s Child.

O clipe, do britânico Henry Scholfield (diretor de “New Rules”, de Dua Lipa), é um plano-sequência num quarto. Rosalía abre e fecha o vídeo na pose de La Maja Vestida, de Goya, e no meio se entrega a movimentos frenéticos que lembram um exorcismo. Em 2019, ela levou a música ao palco do MTV EMA, em Sevilha.

NANA (Cap. 9: Concepción)

Ela percebe que está grávida do seu marido abusivo e lamenta ter que conceber um filho em meio a esse relacionamento. Ao meu ver, a música fala sobre abortar esse filho de forma consciente, para evitar que ele sofra [Na porta do céu eles vendem sapatos/ Para os anjinhos que estão descalços].

É uma nana, a canção de ninar do repertório flamenco e popular espanhol, que retoma versos de “Duérmete Niño Chico”, de Encarnación Marín. Ao Efe Eme, Rosalía descreveu a produção como “muy vacía, muy desnuda” (muito vazia, muito nua), com um harmonizer que tira a melodia do contexto original. No disco, só se ouve a voz dela. Para o Jenesaispop, é o melhor exemplo do clima espectral e espiritual do álbum, e uma das raras faixas tocadas ao vivo antes mesmo do lançamento.

MALDICIÓN (Cap. 10: Cordura)

A mulher toma consciência de seu estado, e entra o título do álbum, o “mal querer”. O amor que leva à morte, à loucura, à dor [Ah, o amor/ Em um momento eu desejo/ Estar louca e não amar/ Porque o amor causa dor/ Dor que não tem fim/ E os loucos vivem sem ela].

A mulher decide fugir desse relacionamento [Me disseram que não há saída/ Por esta rua estou indo/ Me disseram que não há saída/ Eu tenho que encontra-la/ Mesmo que isso me custe minha vida/ Ou mesmo se eu tiver que matar].

E ela cumpre sua promessa: em meio a barulhos de facas e carne sendo cortada, ela mata o homem [Eu deixei uma trilha/ De sangue pelo chão].

Uma trilha que leva ao primeiro dia, ao vidro quebrado, como vaticínio desse amor fracassado.

A virada do disco é construída sobre um sample de “Answers Me”, do violoncelista Arthur Russell, nome cultuado da música experimental americana. A Billboard chamou a faixa de “balada flamenca inquietante”, e o Jenesaispop destacou os sintetizadores de clima medieval, colocando a música entre as melhores do álbum. Já no palco do Sónar, meses antes do lançamento, ela fazia parte do repertório, e depois virou presença fixa na turnê.

A NINGÚN HOMBRE (Cap. 11: Poder)

Rosalía enfim se liberta e grita um manifesto [Para nenhum homem eu consinto/ Que ele emita minha sentença/ Só Deus pode me julgar/ Só para Ele eu devo obediência]. E declara que o amor era lindo, até se tornar uma ameaça [Até você ser o carcereiro/ Eu era sua, companheiro/ Até você ser o carcereiro]. Mas promete nunca esquecer desse amor, que marcou ela de tantas formas negativas e cujas consequências ela vai carregar pelo resto da vida “como uma tatuagem na pele”.

A música que fecha o disco foi a primeira que Rosalía e El Guincho criaram juntos, segundo a Rockdelux. O produtor contou que se impressionou com a voz dela de perto e que nem sabia que ela também compunha. Quase à capela, com pouco mais de um minuto e meio, a faixa encerra a história em aberto. Como disse a cantora à Time Out, a protagonista ganha maturidade e força, mas o final fica para cada ouvinte.

Mesmo sem ser single, “A Ningún Hombre” ultrapassou o disco: em 2019, versos da música apareceram em cartazes nas marchas feministas do 8 de março na Espanha. A cantora também a levou ao palco do VMA de 2019.

O legado de El Mal Querer

Se consolidando em meio a grandes nomes da música pop atual, Rosalía segue criando uma linha criativa autoral. Ela conclui toda a narrativa proposta em El Mal Querer com maestria vista apenas em grandes nomes da música, provando, sem nem ao menos precisar, ser uma cantora que consegue traduzir ritmos diversos ao seu som do flamenco.

Depois dele, Rosalía fez questão de nunca repetir a fórmula. Em Motomami (2022), trocou o conceito medieval por reggaeton, experimentação e autobiografia, mas guardou uma lembrança do passado: “Sakura” usa gravações do público da El Mal Querer Tour. Em LUX (2025), gravou com a London Symphony Orchestra e cantou em 13 idiomas, como contou à NPR. Nos cinco anos do álbum, em 2023, ela resumiu no Instagram: “EMQ, por siempre en mi corazón”.

Related Posts

Total
0
Share