Não dá para colocar um carro cenográfico gigante no meio do palco, instalar uma bateria completa em cima dele e não prometer um show cinematográfico. Quando as luzes do Suhai Music Hall se apagaram na última sexta-feira (18), o 5 Seconds of Summer tinha uma promessa a cumprir.
Antes disso, porém, a sensação era de que o show já havia começado havia algumas horas. Faltando quase duas para a apresentação, a casa já estava tomada, o merchandising oficial esgotava peças e, no meio da muvuca, era possível acompanhar quase 15 anos de história apenas olhando para as roupas do público.
As camisas xadrez ainda estavam lá, uma sombra do neo-grunge que dominou o Tumblr e a estética da banda no início da década passada, agora misturada às tantas outras versões que o 5SOS assumiu desde então. Assim como quem os acompanha, aquela identidade cresceu: o pop-punk adolescente passou pelo pop, rock, new wave e synthpop sem que a banda precisasse abandonar completamente nenhuma dessas versões anteriores.
Por esse e outros detalhes, chega a ser difícil separar a história do 5SOS da história das fãs que cresceram com eles. E a EVERYONE’S A STAR! World Tour entende perfeitamente isso. Luke Hemmings, Michael Clifford, Calum Hood e Ashton Irwin não simplesmente entram no palco: surgem como personagens da própria história.
O show é construído como um mockumentary que olha para o 5 Seconds of Summer a partir de um futuro fictício. Personagens relembram uma antiga “boyband” como um fenômeno há muito ultrapassado, imagens dos quatro adolescentes aparecem como registros de arquivo e a trajetória é dividida em atos, como se estivéssemos prestes a assistir à última performance do grupo.
É uma escolha particularmente engraçada para uma banda que passou boa parte do início da carreira tentando convencer as pessoas de que não era uma boyband.
A proximidade com o One Direction ajudou a projetá-los mundialmente e também colocou os quatro na mesma categoria, embora o 5SOS fosse, de fato, uma banda: quatro amigos tocando seus próprios instrumentos, com forte influência do pop-punk. Na época, eles, e principalmente os fãs, fizeram questão de marcar essa diferença. Mais de uma década depois, decidiram entrar na piada. “Boyband” agora é título de música e parte do conceito do álbum.
Existe algo muito inteligente nessa disposição de olhar para trás sem tentar reescrever a própria história. O 5SOS não apaga aquilo que já não combina com sua imagem atual: exagera. Na fantasia de serem propositalmente pouco descolados, conseguiram ficar mais descolados do que quando pareciam se esforçar para provar o contrário.
É aí que EVERYONE’S A STAR! funciona tão bem. Há personagens, premiações fictícias, capítulos, esquetes e piadas recorrentes. Em uma das melhores sequências, os quatro descobrem pela mídia que a própria banda acabou, referência à pausa e aos projetos individuais que alimentaram especulações sobre o futuro do grupo.
No palco, Luke e Michael se revezam em solos de guitarra; Ashton, no alto daquele carro gigante, toca bateria com a força de quem parece querer justificar sozinho o tamanho da cenografia; e Calum funciona como uma espécie de coração da equipe. Depois de tantos anos, a química entre eles continua sendo uma das partes mais convincentes da apresentação.
E motivos para essa química ter se desgastado não faltaram. O 5SOS enfrentou praticamente tudo o que costuma separar grupos formados muito jovens: exposição mundial imediata, turnês gigantescas ainda na adolescência, mudanças de sonoridade, críticas, pausa e carreiras solo. Em São Paulo, porém, não havia a impressão de quatro pessoas tentando recriar à força uma dinâmica de dez anos atrás. Eles ainda parecem gostar muito de estar em uma banda, coisa cada vez mais difícil de encontrar depois de tanto tempo juntos.
Talvez por isso haja espaço para suas individualidades. Em um dos blocos, cada integrante assume o palco com uma música da carreira solo, enquanto os telões também mudam para refletir sua identidade particular.
A resposta do público acompanha. Quando “istillfeelthesame” começa, o resultado é ensurdecedor; quase não se ouve Luke de tanto que a plateia canta. “She’s Kinda Hot” faz a pista inteira pular. “Ghost of You” oferece o momento coletivo de lágrimas.
Mas a noite nunca vira uma celebração melancólica em que todo mundo aguarda pacientemente os hits de 2014. O público conhece o disco novo. Conhece os trabalhos solo. Conhece as piadas. Conhece a lore.
Fangirls têm memória longa, mas a relação do 5SOS com seu fandom sobrevive justamente porque a banda entendeu que a memória, sozinha, não sustenta uma carreira.
Os caras não apenas decoraram o nome da cidade ou trocaram uma palavra no discurso feito na noite anterior. Prepararam camiseta em português, referências específicas, dinâmicas que dependiam da resposta da plateia e espaço suficiente para deixar a piada sair do roteiro.
E poderiam não fazer nada disso. Poderiam entrar no palco, tocar “She Looks So Perfect” e “Amnesia”, vender uma camiseta preta com o logo da banda e confiar que quase 15 anos de vínculo emocional fariam o resto. Não seria a primeira banda consolidada a acreditar que já não precisa se esforçar tanto para manter um público conquistado anos atrás.
Mas eles continuam se esforçando. Está no merchandising que esgota antes do show porque tem uma identidade que os fãs realmente querem vestir; no documentário hilário nos telões, nos personagens, nas piadas, nos atos, no visual inovado com frequência e na decisão de transformar a própria biografia em conceito. Está, principalmente, na percepção de que nostalgia funciona melhor quando não é usada como muleta.
O 5 Seconds of Summer não sobreviveu porque preservou intacta a banda que existia quando seus integrantes eram adolescentes. Sobreviveu porque nunca pareceu particularmente interessado em fazer isso. Mudaram de som, se afastaram, fizeram discos separados, voltaram e incorporaram essas mudanças sem deixar de encontrar motivos para fazer música juntos.
A EVERYONE’S A STAR! World Tour celebra justamente essa escolha. Num momento em que tantos artistas consolidados usam a memória afetiva do público como desculpa para fazer cada vez menos, é refrescante assistir a uma banda chegar ao ponto da carreira em que já não precisa provar nada e, ainda assim, entregar tudo e mais um pouco.









