“Someone’s Ugly Daughter”: a história do álbum grunge que Mariah Carey gravou em segredo
Em 1995, Mariah Carey gravou em segredo “Someone's Ugly Daughter”, disco de grunge na época creditado à banda Chick
Pouca gente sabe, mas Mariah Carey tem um álbum de grunge. Ele se chama Someone’s Ugly Daughter, saiu em 1995 e nunca levou o nome da cantora na capa. Gravado em segredo no auge da fase pop, o disco passou quase 25 anos escondido, virou objeto de culto entre os fãs e voltou aos holofotes em 2026. Reunimos aqui o que se sabe sobre o projeto, de como ele nasceu às chances de a versão com a voz de Mariah finalmente sair.
O que é “Someone’s Ugly Daughter”?
É o único álbum da banda Chick, lançado em 5 de setembro de 1995 pela 550 Music, selo ligado à Epic e à Sony. São 11 faixas de rock alternativo, com letras ácidas sobre relacionamentos, fama e aparências, em pouco mais de 36 minutos. A lista inclui até um cover de “Surrender”, do Cheap Trick.
Oficialmente, Chick era uma banda liderada pela cantora Clarissa Dane. Na prática, o projeto foi idealizado, coescrito e coproduzido por Mariah, que aparece no encarte apenas sob pseudônimo.
Como e por que Mariah gravou um disco de grunge
Em 1995, Mariah estava gravando Daydream, um dos álbuns mais bem-sucedidos da carreira. Depois das sessões, normalmente da meia-noite até de manhã, ela seguia no estúdio Hit Factory, em Nova York, para trabalhar no projeto paralelo. No livro de memórias The Meaning of Mariah Carey, de 2020, ela conta que levava ideias de músicas para a banda e cantarolava os riffs de guitarra. Também se divertia criando um alter ego sombrio, quase uma paródia do rock alternativo da época.
Segundo o produtor Walter Afanasieff, parceiro de longa data da cantora, tudo começou como uma brincadeira de inspiração punk, com referências como Hole e Garbage. O projeto chegou a se chamar Eel Tree antes de virar Chick. As músicas saíam rápido: o guitarrista Gary Cirimelli contou que muitas ficavam prontas em cerca de 20 minutos.

Por que a voz de Mariah não está no disco?
Oficialmente, Mariah gravou os vocais principais do proejto. A Sony, comandada na época por Tommy Mottola, então marido da cantora, não quis lançar um álbum de rock com a voz da maior estrela pop do momento. A saída foi regravar tudo com Clarissa Dane, amiga de Mariah, como vocalista. A cantora ficou só nos backing vocals, escondida no fundo das faixas.
A gravadora também mudou o nome da banda e pediu que várias letras mais explícitas fossem suavizadas. Mariah já disse que o lançamento foi “abafado” e que ela chegou a ter problemas por ter feito o disco.
Quem tocou na banda Chick?
Com exceção de Clarissa Dane e da equipe técnica, os créditos do encarte usam pseudônimos. Pelo que se apurou desde a revelação de Mariah, a identidade de cada um é esta:
- D. Sue: backing vocals e composição, apontada como a própria Mariah;
- W. Vlad: bateria e composição, Walter Afanasieff;
- W. Chester: guitarra, Gary Cirimelli. O apelido brinca com Westchester, região de Nova York onde Mariah morava.
A capa também tem a assinatura dela. A ideia foi de Mariah, o título escrito com batom rosa sobre uma Polaroid de uma barata gigante.
Como o disco foi recebido?
Quase ninguém percebeu. O primeiro single, “Malibu”, foi enviado às rádios alternativas e não decolou, e o clipe teve pouquíssima exibição. “Demented” saiu como segundo single no mesmo dia do álbum. Sem divulgação e sem shows, Chick sumiu tão rápido quanto apareceu.
Entre os fãs, circulam ainda duas histórias que nunca foram confirmadas oficialmente: a de que o clipe de “Malibu” teria sido dirigido pela própria Mariah e a de que a banda teria aparecido em um episódio de Beavis and Butt-Head, da MTV.
Como o segredo veio à tona
Em setembro de 2020, às vésperas do lançamento do livro de memórias, Mariah publicou nas redes um trecho de “Demented” e contou a história. A revelação fez os CDs da época, até então esquecidos em sebos, virarem disputa entre colecionadores. Segundo a Pitchfork, cópias chegaram a ser vendidas por até 800 dólares na internet.
Onde ouvir o “Someone’s Ugly Daughter”
Oficialmente, em lugar nenhum além do CD original. O álbum nunca foi disponibilizado nas plataformas de streaming e só existe em cópias físicas de 1995. Para quem pensa em importar um exemplar usado, vale lembrar que compras internacionais podem ser taxadas na alfândega brasileira.
Versão do álbum com a voz de Mariah
Existe. Em dezembro de 2020, a cantora contou que tinha encontrado as gravações com os vocais dela, mas ainda procurava as mixagens originais. Em 2022, no podcast da Rolling Stone, disse que essa versão resgatada era “algo que deveríamos ouvir”. Em 2025, numa conversa com SZA, chegou a tocar um trecho de “Hermit” aparentemente com a voz dela à frente.
Há, porém, uma questão de bastidor. Em entrevista a Jimmy Fallon, Mariah brincou que nem sabia a qual gravadora o disco pertence hoje e lembrou que a Sony de 1995 era “um pouco controladora”.
Vai ser lançado?
Ainda não há data, mas os sinais estão cada vez mais fortes. Em janeiro de 2026, na noite em que Mariah foi homenageada como Personalidade do Ano pela MusiCares, o Foo Fighters tocou “Hermit” e “Love Is a Scam” com Taylor Momsen, do The Pretty Reckless, nos vocais. Foi a primeira vez que músicas de Chick ganharam um palco de verdade.
No fim de outubro, numa sessão de perguntas no Reddit para celebrar os 25 anos de Glitter, um fã perguntou se ela lançaria o projeto. Mariah respondeu que ouve essa pergunta “cerca de uma vez por semana” e completou: “#notyet (this is a hint!)”, algo como “ainda não (isso é uma dica!)”.
Surpresa no “It’s time” de 2026
Dois dias depois veio a maior pista até agora. Todo ano, assim que o Halloween acaba, Mariah publica um vídeo avisando que é hora do Natal, uma tradição que a gente relembrou vídeo a vídeo. Em 2026, o vídeo começa com Mariah cantando “Hermit”, num clima bem diferente do que se espera da rainha do Natal. Só depois ela solta o tradicional “It’s time” do alto de uma árvore decorada e “All I Want for Christmas Is You” começa a tocar.
Para os fãs, a mensagem ficou clara: a versão de Someone’s Ugly Daughter com a voz de Mariah Carey nunca esteve tão perto de sair. Enquanto isso, o “álbum perdido” segue como um dos segredos mais curiosos do pop dos anos 1990.