Filme de 65 minutos dirigido por Jason Jacobs e Devon Delmar, Variações sobre um Tema (Variations on a Theme, 2026) aborda, em realismo fantástico, ficção e documentário, uma narrativa que atravessa gerações inteiras da África do Sul. Dividido em capítulos, o longa mostra o cotidiano de uma pequena comunidade na zona rural do país tentando lidar com os fantasmas da Segunda Guerra Mundial, quando homens negros foram a principal linha de frente das forças aliadas para derrotar o fascismo europeu, ao mesmo tempo que tenta se apegar a algum tipo de esperança e indenização por parte do governo vigente.
Fantasmas, política e cotidiano
Imagem e som estão alinhados para criar uma atmosfera fantástica, em que fantasmas e pessoas ocupam o cenário em busca de uma aparente normalidade, que carrega um grande elefante branco presente nas conversas, no quarto, na cozinha, no campo, na sala.
No entanto, a reflexão política e a indignação não estão ausentes nesses personagens marcados pelo tempo e pelo espaço. Os temas aparecem em pequenas conversas, em pessoas assistindo televisão, cuidando dos animais, tomando um café ou simplesmente jogando cartas enquanto falam sobre os Estados Unidos da América.
Em determinado momento, um dos moradores locais argumenta que esse país produz só dois tipos de subjetividade: “lá as pessoas são zumbis ou vampiros”. Quando olhamos para o contexto social capitalista do mundo contemporâneo, essa fala se mostra mais certeira do que nunca.
No centro desta dinâmica fantástica que se ancora no real está Ouma Hettie, uma senhora idosa que vive nas montanhas de Kamiesberg conduzindo cabras e mantendo uma rotina moldada pelo tempo, pelo clima e pela terra. Ela é avó de um dos diretores, que chegam ao segundo longa com essa obra, e é justamente a partir da presença dela que o filme se mostra como um laço contínuo, marcado pelos silêncios, repetições e tarefas simples do cotidiano.
Aqui, o registro cinematográfico se confunde com a intimidade e com o convite à imersão nesta pequena comunidade, em que a textura de uma rica fotografia se mistura ao tom poético de uma narração em off, nos convocando a pensar sobre memória histórica e território.

A espera como alegoria
A espera se torna matéria bruta e alegoria, e dialoga de forma frontal com outro personagem, que cava o chão de sua casa de forma desesperada, enquanto escuta Beethoven no último volume, à procura de diamantes. Enquanto todos esperam a indenização pelas mortes de seus entes queridos no passado, esse homem busca em vão as pedras preciosas no chão de um país que historicamente teve suas riquezas exploradas e extraídas pelo Ocidente.
E se a espera se torna tema e motivo de deslocamento de sentidos e subjetividades desses sujeitos, o filme termina sem uma resposta sobre o que fazer para encontrar as estrelas em um universo cada vez mais escuro, mas dando pistas de que talvez a esperança ainda esteja em algum lugar dentro das nossas caixas de Pandora. Depois de aberta, liberando todas as desgraças do mundo, é necessário achar em algum lugar dentro de nós a esperança mofada e esquecida, para que possamos novamente acreditar no sol.
Variações sobre um Tema faz parte da seleção oficial da 50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e estará competindo na categoria de novos realizadores. O longa ganhou o Tiger Award, prêmio de melhor filme do Festival de Roterdã, este ano.









