Não é segredo para ninguém do audiovisual brasileiro como cada vez mais vendo sendo difícil montar grandes eventos, ou colocar de pé a produção e a programação de algo relacionado a cultura. Para o ano de 2025, por exemplo, o Congresso Nacional aprovou o orçamento geral da União com um corte de 84% no orçamento da Política Nacional Aldir Blanc, um dos principais mecanismos de políticas públicas destinadas à cultura no país.
Em meio a escândalos de corrupção, equalização da dívida pública e busca de cumprimento de um defasado arcabouço fiscal, diferentes políticas públicas da cultura tiveram cortes, e agora buscam se reestruturar para ainda tornar viável a continuação ou a edição de eventos relacionados ao setor cultural no país. Neste ano de 2026 um dos eventos mais importantes da cadeia audiovisual brasileira, quase foi cancelado. O Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, em sua 59ª Edição, só aconteceu entre os dias 11 e 19 de setembro, talvez muito por conta da pressão popular e pública nas redes sociais, que acabou pressionando o governo do Distrito Federal a voltar atrás e bancar a realização do evento.
Para o ano de 2026 a Agência Senado também informou um corte de R$ 700 milhões na área da cultura em relação à proposta de 2025 e é claro que vários fatores influenciam nesse apagão de verbas públicas, editais de captação de recursos e outros mecanismos, para a realização e continuidade de eventos culturais, mas a questão que fica é: como se manter relevante na agenda cultural do país? Como conciliar os apoios institucionais e os patrocínios das iniciativas públicas e privadas?
São perguntas de difíceis respostas e que diferentes setores culturais pressionam candidatos desta eleição a se comprometerem com uma agenda positiva, que visa regulamentar, fiscalizar e avançar em propostas em nome do bem comum do setor no país, mas que para além disso, Renata Almeida, Jonas Chadarevian, Cristiane Guzzi e companhia, parecem dar dicas quando analisamos como a 50ª Edição da Mostra Internacional de São Paulo vem se desenhando ao longo dos últimos anos.
Um dos principais eventos dentro da programação da Mostra SP para discutir essas questões e que ajuda a viabilizar a Mostra é a realização do Encontro de Ideias Audiovisuais. O encontro, que neste ano chega em sua VI edição e vai acontecer entre os dias 20 e 23 de outubro, busca ser um espaço que concilia discussões e debates, sobre fomento, financiação, circulação, exibição, formação de público, de crítica, de novos realizadores, entre outras iniciativas, entre entes públicos e privados, se estabelecendo assim, como uma ótima vitrine para marcas apresentarem projetos, instituições debaterem editais e financiamentos do setor audiovisual.
Esta iniciativa, junto com outras parcerias e colaborações ajudam a explicar como a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo foi conquistando relevância nacional e internacional, conquistando público e disputando os melhores títulos do circuito de festivais do ano, sem deixar de lado aquele fã cinéfilo que a mostra cativou ao longo dos anos, justamente por exibir obras outsiders do circuito exibidor tradicional brasileiro.
Mostra SP e Louis Vuitton
Talvez uma das notícias mais surpreendentes e de maior repercussão até agora para esta 50ª edição é a parceria inédita da maison francesa Louis Vuitton. A marca chega com apoio institucional ao evento, buscando estreitar suas relações com a sétima arte e com o setor cultural brasileiro.
A escolha de Gabriel Leone como “Friend of the House” neste ano e a presença frequente da marca nos tapetes vermelhos associados ao circuito de grandes festivais internacionais de cinema, reforçou o olhar da marca francesa para o audiovisual. Assim, a parceria assinala a primeira iniciativa da marca que busca reforçar sua atuação na América do Sul, estabelecendo um diálogo entre moda, cinema e arte.

De acordo com a Casa Vogue, “a aproximação com a sétima arte também se insere em uma história mais ampla”. Ainda de acordo com a revista, “fundada a partir do trabalho de Louis Vuitton como fabricante de baús, a maison construiu sua identidade em torno da chamada “Arte de Viajar” e, ao longo das gerações, expandiu esse universo para além da moda.” E isto tem tudo haver com os fãs e público que frequenta a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Recebendo fãs do Brasil inteiro e pessoas que viajam de outros lugares do mundo para acompanhar o evento, a mostra se consolidou como um dos principais destinos do cinéfilo e entusiastas da sétima arte, no calendário do segundo semestre de cada ano.
O evento consegue assim, se manter relevante no cenário brasileiro porquê justamente ano após ano reforça suas parcerias, para atingir novos públicos, atrair novos apoiadores, sem deixar de lado aqueles que já conhecem o evento e que seguem cada passo antecedente ao anúncio da programação final, pois querem estar prontos para poder acompanhar e montar a sua própria programação do evento, que é intensa e recheado de bons filmes, conversas, debates e salas disputadas por toda a cidade.
Ainda no campo da moda, neste ano a marca brasileira A Mulher do Padre anunciou uma collab com a Mostra. Celebrando a história do cinema, da cultura e da resistência com uma coleção especial de camisetas com estampas de posters e cartazes que marcaram a história do festival, a marca busca assim, traduzir em peças de roupas a memória cinematográfica da cidade.
Mostra SP e Cosac
Outro grande destaque desta edição é o lançamento do livro “Antes que eu me esqueça”. Escrita por Renata Almeida, diretora da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo desde 2011, quando Leon Cakoff morreu, a obra entrelaça com afeto, memória, emoção e humor, a história do evento, junto com sua própria história pessoal.
Livro em pré-estreia e lançamento da Cosac Editora, com prefácio de Walter Salles, reúne fotografias que pontuam as lembranças da autora e compõe, ao lado de seu relato, uma memória afetiva e visual da trajetória de um dos mais importantes festivais de cinema da América Latina.

Ao trazer relatos e episódios de convivência com grandes nomes do cinema mundial como Manoel de Oliveira, Abbas Kiarostami, Wim Wenders, Quentin Tarantino e Pedro Almodóvar, entre outros, “Antes que eu me esqueça” se posiciona como uma celebração da Mostra, da cidade de São Paulo e de seu público. Em que a autora defende ser uma leitura para cinéfilos, profissionais do audiovisual e todos aqueles que acreditam no poder transformador da cultura.
Aqui já estamos ansiosos para o lançamento do livro que está marcado para o dia 15 de outubro, às 18h, no Solar Fábio Prado, nós estamos buscando garantir ele na pré-venda, e já pode ser adquirido com valor especial e 15% de desconto aqui.
Tempo e Movimento: os 50 anos da Mostra Internacional de Cinema em São Paulo
Outro evento importante desta edição é a exposição que conta a história dos 50 anos da Mostra por meio da arte. Em uma parceria com a Fundação Padre Anchieta, o Solar Fábio Prado receberá além da Sala Petrobras, que é o patrocinador master da Mostra, esta exposição que conta com concepção da cineasta Daniela Thomas e que apresenta uma pesquisa histórica de Helena Tassara visando expor para o grande público, que deverá frequentar o espaço durante os dias 15 e 29 de outubro, um rico acervo que traz o paralelo entre arte e cinema em um dos principais centros financeiros da américa latina, a Faria Lima.
Localizado na avenida Brigadeiro Faria Lima, 2705, o espaço vai ser o principal destino para aqueles que querem discutir o futuro e os bastidores do audiovisual brasileiro durante o evento, pois é lá que também vai acontecer o VI Encontro de Ideias Audiovisuais.
Vale a pena ficar de olho, pois para além de sessões especiais que são montadas para grandes públicos na Sala Petrobras, o espaço conta com eventos pagos e gratuitos ligados ao Encontro de Ideias e essa exposição, que é imperdível para todos aqueles que amam o cinema como forma de arte.
A Mostra resiste
O que todas essas parcerias e colaborações mostram? O que eu vinha discutindo no começo deste texto, é que para colocar um evento da magnitude e da importância de tamanho, como este da Mostra de Pé é preciso ter muita coragem, jogo de cintura, competência e inventividade. O que todos os nomes por trás da curadoria e programação deste grande evento parece ter de sobra.
A Mostra nasceu em um contexto de extrema repressão social, política e militar, durante a Ditadura brasileira, se consolidou durante o governo Collor, expandiu suas barreiras durante os governos de centro-esquerda, temeu não acontecer durante o governo Bolsonaro e uma trágica pandemia, e agora com parcerias, apoios e patrocínios que ano após ano, vem mesclando mais iniciativas do setor privado e do setor público, mostra que o melhor caminho para se colocar como relevante e essencial para o cenário cultural brasileiro é não deixar para trás as suas raízes enquanto movimento de resistência e contra-cultura, não esquecer do seu papel enquanto formadora de público e de espaços de divulgação do cinema global marginalizado.
A Mostra se consolidou no calendário cinematográfico mundial justamente porque o seu público é parte fundamental da história e as ações deste ano parecem mais uma vez fortalecer essa ponte. Ao criar a conexão entre arte, literatura, cinema e moda, Renata Almeida, Jonas Chadarevian, Cristiane Guzzi e companhia evidenciam o esforço homérico, mas recompensatório de mostrar como a cultura é uma forma de resistência em tempos de barbárie e que justamente por fazer essa ponte por diferentes áreas, novamente mira em novos públicos, sem deixar de lado o respeito e o afago áqueles que jã são fãs e permaneceram fãs deste grande evento.









