Três filmes Queer para você ver na reta final da 50ª edição da Mostra SP

London, A Margem do Rio e Feito Pipa mostram como o cinema queer brasileiro tensiona a norma e ainda têm sessões na 50ª Mostra SP

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Quando precisamos nos encaixar nos espaços do que esperam ou desejam de nós não sobra muito tempo para se prender a narrativas já dadas. Ser uma pessoa LGBTQIAPN+ que está antenada às questões discursivas e estéticas do movimento queer também implica em se dar conta que o que nos define não é a identidade, mas sim a nossa posição subjetiva diante do desejo e da cisnormatividade que é extremamente limitante na hora de imaginar o sexo e tudo aquilo que guia uma certa paixão e pulsão de vida.

O cinema queer enquanto linguagem cinematográfica é justamente sobre a construção de um mundo que resiste, deseja, existe e permanece dentro de uma comunidade que enfrenta um contexto psicossocial e político cada vez mais desafiador para sua existência. Assim, certas perguntas podem orientar na hora de olhar para uma produção audiovisual para que possamos compreender de que forma aquela narrativa quer quebrar a norma.

O que faz um filme ser queer

Não basta um personagem ser LGBT para que o filme seja queer, inclusive, algumas vezes o filme nem precisa abordar a identidade de gênero do personagem, ou do seu realizador enquanto figura pública para construir uma narrativa que pretende confrontar e tensionar aquilo que a sociedade considera padrão. Se perguntar de que forma o sexo é apresentado quando aparece em cena, de que forma as relações sociais são construídas e dadas no roteiro, de que forma os aspectos técnicos, como trilha, fotografia, jogo de câmera, entre outros, constroem um mundo em que a identidade é diluída ao máximo possível.

É na fronteira entre um mundo real e possível, entre uma história pregressa e uma história que nós construímos como nova e nossa que esse cinema mostra sua força e apresenta caminhos possíveis para que possamos nos ver cada vez mais livres de uma falsa moral que limita nossa pulsão de vida e de esperança em revoluções, sejam elas afetivas, culturais, ou políticas.

Três filmes para ver na Mostra SP

É nesse caminho que quero citar três filmes que ainda contarão com sessões nesta reta final da 50ª Edição da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e que acredito que vale a pena a gente ficar de olho para conhecer.

London

O primeiro é London, longa de estreia de Victor Di Marco e Márcio Picoli, dois gaúchos que venceram o Queer Lion este ano em Veneza e que acabaram de conquistar três prêmios no Festival do Rio, incluindo o prêmio da Crítica de melhor filme brasileiro. Na obra, o próprio Victor faz o papel do jovem London, seu personagem faz performances eróticas em uma casa de fetiches, mas além disso possui uma deficiência.

Diante de um exame que pode explicitar o seu diagnóstico e traçar possíveis caminhos de tratamento, o personagem resolve abrir mão da identidade que é condicionada pelo outro ou pela medicina, e parte em uma jornada de reescrita subjetiva. É um filme interessante e necessário sobre perspectiva do que é ser cuidado, ou cuidar, do que é ser dominado ou dominador. London vai contar com mais uma exibição no dia 29/10, às 19:45 no Espaço Petrobras de Cinema.

A Margem do Rio

A Margem do Rio, filme ganhador do Prêmio Especial do Júri no Festival de Locarno e cinco prêmios no Festival do Rio esse ano, incluindo Melhor Longa-metragem de Ficção, é o trabalho de estreia na direção de ambos os diretores, Matheus Farias e Enock Carvalho.

A obra aborda questões relacionadas ao fundamentalismo religioso diante de uma identidade cindida entre a repressão e o desejo. Os dois protagonistas evidenciam um conflito que é presente em inúmeros jovens brasileiros que nasce entre a experiência cotidiana de quem quer ser amado, mas se vê diante da imposição religiosa que quer controlar corpos e nossa forma de existir.

É um filme sobre pertencimento, que parte da narrativa queer para falar de um Brasil que não aceita aqueles que quebram a norma. Em tempos que buscam usar da fé e do medo para controlar as narrativas de nossas experiências, esse filme se mostra como um excelente registro de interpretação e reflexão. O longa vai contar ainda com duas sessões, uma no dia 23/10, às 20:45 no Cinesystem Frei Caneca e outra, no dia 24/10, às 20:30 no Reserva Cultural.

Feito Pipa

E é claro que o representante brasileiro na corrida do Oscar 2027 não ia ficar de fora. Apesar do longa já estar com data de estreia nos cinemas brasileiros para o dia 05 de novembro, ver ele dentro de um festival de cinema e compartilhar a experiência de estar junto com pessoas da produção do filme, entender processos de criação e as primeiras recepções do público sempre vale a pena.

Feito Pipa que saiu com dois prêmios do Festival de Berlim, um dos principais festivais de cinema do mundo, além de ter conquistado cinco prêmios no Festival de Gramado este ano, é um sopro de amor em meio a um ambiente tão controverso, machista e homofóbico como é o futebol.

No longa, Gugu é uma criança de 11 anos que almeja alcançar um dos grandes sonhos brasileiros, ser jogador de futebol, mas ele também gosta de maquiagem, de dança, de glitter, e tem um coração do tamanho do mundo. Como lidar com tal complexidade e contraste? O diretor Allan Deberton consegue mostrar, em mais um excelente filme da recente safra cinematográfica brasileira, que a leitura de um país mais humano, sensível e igualitário, passa pela visão de uma criança.

O longa vai contar com mais uma sessão no dia 20/10, às 17h no Cinesesc, ingressos e informações sobre sessões e outros filmes você pode consultar nas redes oficiais da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, ou no seu site aqui.

É bonito ver que o cinema nacional tem conseguido entregar filmes que dialogam tanto com uma perspectiva que vai de encontro com o que de melhor o cinema internacional está produzindo, e como tal vem acompanhando as tendências políticas e o enquadramento discursivo do mundo contemporâneo. Quando cada vez mais questionamos a normalidade do mundo esses filmes vêm para mostrar que é possível resistir e ir atrás de caminhos alternativos. Por isso o cinema queer enquanto linguagem é tão precisa, dentro de seu discurso e estética um mundo de coisas pode ser entendido.

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