“Nosso Segredo” de Grace Passô, premiado em Gramado, constrói em estética a formulação de um Brasil

Em um país que teima em não visitar os porões da memória, o filme de estreia de Grace Passô na direção usa dos espaços limiares para a construção narrativa de um país negro em sua raíz

Eleito como Melhor Filme da 54ª edição do Festival de Cinema de Gramado, Nosso Segredo (2026), filme de estréia de Grace Passô como diretora, chegou aos cinemas brasileiros nesta quinta-feira, 27 de agosto. Filmado em Belo Horizonte, o filme acompanha em primeiro plano uma família que tenta reconstruir sua rotina após uma perda recente. Enquanto em segundo plano espaços limiares da casa e de sua constante reforma, construção e degradação, faz cada integrante do núcleo familiar visitar, junto ao público, os porões de sua própria memória para elaborar o luto à sua maneira, concomitante a isto o filho caçula guarda um segredo capaz de transformar a forma como todos atravessam esse processo e que é a chave da formulação estética que a diretora faz acerca do país.

Estivemos no evento de lançamento do filme no Espaço Petrobras de cinema no dia 26 e em conversa com Grace e Tássia Reis que faz participação especial no filme, tivemos acesso a uma importante colocação da diretora que é chave fundamental para uma melhor compreensão desse filme e parte do novo cinema brasileiro e que também conversa com nossa análise sobre o cinema de horror contemporâneo disponível aqui no site.

A diretora afirmou que está cansada de pedagogizar acerca de suas obras ou temas em que está trabalhando e que hoje sua produção artística parte de um “exercício constante de abstracionismo dos assuntos, para que eles virem sentimentos”.  Assim, Grace Passô está muito mais preocupada com a forma e a estética em que os assuntos com quais quer trabalhar vão entrando em uma moldura a ser exposta com um rico estudo de fotografia e cor realizados por Wilssa Esser.

Wilssa que recebeu em Gramado o troféu de Melhor Fotografia também estava presente na coletiva de imprensa do lançamento do filme e conversando com a platéia de convidados falou sobre como historicamente a pele negra é sub representada e explorada no cinema, e que isso é um pouco estranho para ela, pois nascida na Venezuela e com formação de cinema na escola cubana, ela sempre trabalhou com a pele negra na câmera e isso era muito bom, pois diferente do que geralmente é feito na indústria cinematográfica,  ela foi chamada para participar do filme desde da sua concepção inicial. 

E graças a isso conseguiu defender o seu foco de uma câmera na mão, em que esse estilo de filmagem e fotografia ajuda a criar uma proximidade entre público e personagens. Com tomadas fechadas no rosto dos atores e uma certa trepidação, a direção de fotografia consegue mostrar a instabilidade de uma família que está em constante movimento e não tem tempo para elaborar o seu luto.

É aí que nasce então uma das metáforas mais bem trabalhadas no cinema contemporâneo brasileiro, o luto enquanto imagem de um país que não discute seu passado escravocrata e que tem na construção e reforma da casa, a ideia de que precisamos construir formas de conversar sobre isso. No melhor estilo machadiano Grace Passô usa da estética da alegoria dos espaços limiares e das marcas de degradação física da casa para falar sobre os restos esquecidos nos porões da nossa memória.

Junto a uma belíssima direção de arte que também rendeu o prêmio Kikito à Lucas Osório, totalizando três prêmios na noite, a diretora mineira consegue camuflar na linguagem o assunto com o qual quer trabalhar. O não dito, o som da natureza, a ausência de diálogos em muitos quadros, nos quais é por meio do corpo e do rosto de seus personagens que escutamos a cena, vão dando a dinâmica de que o luto se constrói de forma subjetiva na cabeça de cada personagem.

É com eles acessando o porão de suas histórias que vão percebendo, pouco à pouco, que não estão falando só do luto de um pai, mas sim de toda uma ancestralidade negra que é impossível de discutir e apresentar em uma única noite — ou, em um filme — toda a dinâmica de travessia e o vazio de um oceano enfrentado por um povo. Quando Suely, a mãe interpretada com uma profunda camada silenciosa e assustada de forma magistral por Ju Colombo, fala à Tutu (Efraim Santos) “Quase não falamos sobre isso, né? A pergunta soa e ressoa na verdade em muitas direções que cabe a nós enquanto público refletir.

Grace Passô, respondendo a uma de nossas perguntas na coletiva de imprensa, falou que o filme funciona melhor para aqueles espectadores que não querem controlar a narrativa, mas afirma que diante das duas narrativas que correm em paralelo, o luto de uma família e a luta pela retomada da rotina e a formulação de um país por meio do vazio e da estética produzidas pela degradação da casa e do luto no núcleo familiar quer falar sobre a história brasileira que é marcada por histórias sem fins. 

Personagem Tutu em uma das cenas do filme (divulgação Primeiro Plano)

A psicanalista Maria Rita Kehl discute, em seu livro Bovarismo Brasileiro (2018), uma certa ideia de paranoia que é inerente à sociedade brasileira. O Bovarismo enquanto condição psicológica faria parte então de uma cadeia de sintomas em que a nossa identidade fragmentária não visita da forma como deveria os porões da nossa história. Nisso o filme de Grace Passô conversa muito, a paranoia de seus protagonistas diante da casa em transformação e reforma, com barulhos, manchas, infiltrações, vão criando uma atmosfera densa, misteriosa, com uma certa paranoia diante do suspense, em que o próprio onírico e os resquícios dos recalcado precisam, em algum momento, voltar com total força.

Tutu que logo percebem que o que ele tem não é doença não, e sim muitas outras coisas, é uma das outras chaves de desvelamento do argumento desse fantástico filme. Logo no começo como se estivesse brincando com a casa, mas na realidade conversando diretamente com nós atrás da tela, por meio de um encanamento que parece um binóculos, o personagem pergunta, “você está com fome? Está tudo bem aí?” É como se nos avisasse de que para enfrentar o que vem pela frente é necessário estar confortável, mas você que não está, talvez não esteja justamente por causa da história que pela frente vai ser contada.

A vida que na concepção de Tutu é tão difícil e o seu segredo, são as amostras de que uma criança sabe sim ser crítica e falar sobre coisas difíceis, até mais que os adultos muitas vezes, pois não possuem ainda a forte repressão causada pela cultura. Tutu, junto a outros protagonistas do cinema brasileiro contemporâneo, como as meninas apresentadas em A Fabulosa Máquina do Tempo (2026) e em A Natureza das Coisas Invisíveis (2025) e Gugu, protagonista de Feito Pipa (2026), são exemplificações de que os temas e os dilemas do Brasil de nosso tempo passa muito pelo olhar da nova geração e que eles enquanto sujeitos precisam ser escutados.

Coincidentemente estes últimos três filmes mencionados e Nosso Segredo estão na lista de inscritos para tentar uma vaga de representante brasileiro na corrida do Oscar. Vale a pena conhecer e assistir na tela grande todos os quatro filmes. Nosso Segredo que conta com a distribuição da Sessão Vitrine Petrobras, um projeto da Vitrine Filmes que lança produções nacionais com preços reduzidos no circuito comercial, principalmente no Espaço Petrobrás de Cinema, já está em cartaz, veja a programação na sua cidade aqui.

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