Experimental, frenético, audacioso e diferente é pouco enquanto significação para falar sobre Lost in Lust, novo lançamento de Pabllo Vittar. A obra chega em um momento bastante conturbado politicamente no país, em que celebrar se torna parte de um ato de resistência. E a mãezinha sabe disso melhor que ninguém. O álbum é todo pensado para funcionar na pista de dança, onde o som é maximizado e a experiência dos sintetizadores e da música eletrônica é muito mais assertiva enquanto experiência coletiva, que toca o corpo e faz as pernas quererem dançar e pular.
Esse é o sétimo álbum de estúdio de uma carreira em plena ascensão. Neste ano, ela foi convidada para estar no VMA, um dos principais eventos da indústria musical, ao mesmo tempo que preparou o anúncio de um curta-metragem que acompanha o álbum, ainda sem data de estreia, mas que deve apresentar todos os visuais desta nova era, bastante atrelada ao mundo da luxúria, fazendo paralelos com a moda e o desejo.
Com produção e composições 100% realizadas por profissionais da comunidade LGBTQIAPN+, o projeto ressoa bastante na comunidade queer marginalizada, que historicamente está ligada à cena clubber no mundo todo, ainda que hoje, principalmente em São Paulo, grande parte dessa cena já ocupe outros espaços e que cada vez mais vejamos essa mesma cena se tornar elitizada e de difícil acesso.
Por isso, apoiar artistas e a cena local, além de políticas de acesso para diferentes grupos, com ingressos a preços mais sociais, é um grande acerto para eventos como os que Pabllo Vittar vem participando para divulgar o seu álbum dentro da pista. E é justamente nesse formato que ela tem conseguido boas repercussões e elogios. O Club Vittar, projeto em que a artista atua como DJ, fazendo long sets, depois de passar pelo Zig Festival e pelo Halloween da Pabllo, que também está em turnê por diferentes cidades do Brasil, sairá em turnê mundial durante 2027.
O Halloween da Pabllo, inclusive, passará no dia 17/10 por Porto Alegre, 23/10 por Recife, 24/10 por Natal e 31/10 por Belo Horizonte. Todos esses eventos, somados a uma turnê nacional que pavimentará o caminho para a turnê internacional, tendem a fortalecer o álbum. Isso depende de como cada pista de dança o receberá e de como ele repercutirá entre outros DJs que tocam nas casas noturnas do mundo todo, já que o álbum possui diferentes idiomas e sonoridades, o que pode combinar com diferentes experimentações e trabalhos.
Depois de ser atração de abertura do megashow de Lady Gaga em Copacabana, o “Gagacabana”, agora ela também se prepara para ser o ato de abertura, com o seu projeto Club Vittar, da estreia no Brasil das Pussycat Dolls, um dos nomes mais importantes e influentes da música nos anos 2000. Se essa investigação e a cada vez maior profissionalização da carreira enquanto mixadora e produtora de sons a fizeram acessar lugares antes nunca imaginados, isso ressoa neste novo álbum, enquanto artista e cantora.
Se no ouvido as 12 faixas são um pouco incômodas enquanto experiência sonora, nos eventos em que estive o som funciona muito: ele reverbera no corpo, fazendo com que nos desconectemos um pouco de nossa própria subjetividade para nos entregarmos à história e à pesquisa ali contadas.
Com participações especiais de Villano Antillano, Urias, Mahmood e La Cruz, o álbum explora o inglês e o espanhol, mas sem deixar de lado os sons brasileiros, que já são assinatura pessoal de Pabllo. Para a imprensa, ao ser questionada sobre como o nome do álbum dialogava com sua interpretação pessoal sobre o conceito da obra, ela afirmou: “a luxúria é um mundo de pressões constantes sobre nós mesmos e os nossos corpos. Ela faz a gente se perder entre os nossos próprios sentimentos, na ansiedade, em promessas, em amores falsos e muitas vezes no nosso próprio refúgio”.

E a comunidade clubber, como poucas, pode justamente se identificar nessa construção, uma jornada que fala sobre excessos, sobre a tensão entre entrega, prazer, desejo e obsessão, que após uma dose sempre pede mais. O álbum transita entre a construção de uma atmosfera dramática e impulsiva, marcada muitas vezes por uma certa pulsão de morte que leva à destruição, e a pista de dança, onde, por meio da performance, fantasia e realidade se confundem o tempo todo.
Rodrigo Gorky, S4tan, PZZS, Chernobruno, Jeska, Ezmehfw, Votú, Eva de LC, Gorfo de Panda, Martinz Beats, LOFIBBGIRL, Carlos do Complexo, além da própria Pabllo, são nomes envolvidos na produção do projeto, mostrando que a arte no Brasil nasce principalmente a partir da coletividade e do apoio mútuo.
Faixa a faixa
O álbum começa com “FUTURE”, em que um coral de ópera ao fundo acompanha o som das influências da dance music. É um convite para entrar em uma nova dimensão, um novo universo, quase jogando com a ideia: você conhece a cultura clubber? Pois se prepare para dançar, prometemos uma noite agitada.
Em seguida aparece “BAD GOOD”, em que a sinergia do forró entra em contraste com o tecnomelody e o techno dark e cria uma atmosfera perfeita de conflito entre o amar e o odiar, o se sentir bem e mal diante de um amor confuso.
“ROCKSTAR” é um feat com a rapper porto-riquenha Villano Antillano que mistura elementos do funk e do rock. O inglês e o espanhol aparecem juntos, dialogando com a construção de uma vida noturna em que é fácil se perder quando se deseja tanto.
“ATTENTION” dialoga com a ideia do magnetismo: como somos atraídos ou queremos atrair alguém? Como somos levados a consumir alguma coisa? Qual é o limite da autoconfiança, você vai saber quando parar? É uma faixa bastante provocativa e interessante.
A quinta faixa do álbum é “FRIENDS WITH…”, em que Pabllo se coloca como o eu lírico de uma canção bastante debochada, em que ela é a personagem mais carismática, sexy e famosa do Brasil. Talvez seja mesmo. E isso é bem divertido: é uma faixa gostosa e boa para dançar se sentindo a pessoa mais importante do mundo por dois minutos.
“BETTER THAN A FEELING” é, na minha opinião, a melhor faixa do álbum. É um pop nostálgico, com influências do synth pop dos anos 1980 e de grandes nomes da música que venho investigando nos últimos tempos, como Kraftwerk. A música fala sobre sair da imaginação e partir para a ação: é necessário agir no mundo e sair das nostalgias de um passado utópico.
“BODY TYPE” é a música mais dançante. Com participação de Urias, a faixa fala sobre bancar o próprio desejo e sobre aprender a se relacionar com alguém para além da atração física, mensagem super necessária para a nossa geração nos tempos de hoje.

“POLIZIA” e “SKIN” são as faixas mais fracas do álbum, uma mistura de vários elementos que passa pela música italiana e egípcia e tenta ainda acertar na era de ouro do pop dos anos 2000, mas não envolve e, em certa medida, enfraquece o álbum.
“BIG BANG” traz o reggaeton futurista na parceria com o artista La Cruz e talvez seja uma das canções que mais dialoguem com o público latino. Quando saímos com um boy latino gostoso, sempre queremos um segundo encontro, não é mesmo?
“ALONE” é o ápice techno do álbum. Aqui, a ideia é mostrar que a vulnerabilidade, aprender a falar sobre seus sentimentos, se abrir com seus amigos e confiar em quem ama pode ser o melhor refúgio contra a solidão no mundo contemporâneo, funcionando ainda como uma ótima metáfora da música enquanto refúgio e lugar seguro.
O álbum encerra com Pabllo convidando o mundo a visitar o Brasil, conhecer a maior festa popular do planeta e se entregar ao gosto tropical de quem sabe fazer uma boa festa. “CARNAVAL” funciona como um ótimo arremate porque justamente evidencia que festa boa e música boa a gente escuta na rua e na pista das casas noturnas. Vale a pena ficar de olho nos próximos eventos em que ela for tocar, e o bloco de carnaval dessa nova era promete. Já estamos bastante ansiosos aqui.









