Por uma espécie de paradoxo que atravessa todo o Popstar, quanto menos Tinashe se preocupa em sustentar a imagem de uma estrela, mais ela parece entender o que fazer com ela. A melhor parte? Todas as peças são estranhas entre si, mas encontram uma forma surpreendentemente precisa de coexistir.
Do eletrônico experimental ao hyperpop
A sequência “Sunglasses”, “Too Easy” e “Melatonin” é um estrondo. A faixa que abre o projeto coloca na mesa os primeiros pedaços do eletrônico experimental que vai se fundir em algo muito mais expansivo nas próximas peças.
No instante em que as outras duas entram na pista, fica certo: “okkkkkay, Tinashe é realmente uma popstar”. Não é exagero bater o martelo já na terceira canção, já que bastam alguns minutos para o hyperpop da mais pura qualidade estourar em formas excelentes.
Ricky Reed, nome por trás da produção das músicas mais intensas do álbum, consegue equalizar um manifesto insano para a cantora. Aqui, ela não tenta encontrar uma nova fórmula para o pop (ou o seu pop): simplesmente toma para si o direito de não precisar de uma e o poder de rachar isso como bem entender.
Há uma dimensão eletrônica e experimental que está sempre em mutação dentro dos menos de 40 minutos do disco, com uma precisão alarmante. O mais alucinante de tudo é o quanto Tinashe se encaixa com exatidão nessas movimentações.
As vezes em que a linguagem rítmica se deteriora, para de repente tornar-se algo totalmente fora do protocolo elétrico e ir para o punk-pop retrô e estranho de “Nobody Wanna Dance Anymore”, são o ápice dessa construção. O resultado é contemplativo, dançante e grita talento.
Mesmo a faixa mais fora do descontrole do álbum, “Heavy Weight”, que desacelera o final, parece funcionar. Mais como uma espécie de despedida minimalista de todo o furor da noite do que para dizer algo sobre a estrutura do projeto.

A estrela que desmonta a própria imagem
Talvez o fato de Tinashe desmontar tanto a ideia de estrela pop (ela está sempre tratando esse conceito a partir de suas inseguranças, e não afirmando que é uma) dentro da trajetória narrativa do seu melhor álbum seja justamente o que torna Popstar tão fascinante.
Em vez de vestir a persona de uma estrela pronta, ela expõe as dores por trás dela. Esse é mais um sinal de que as estrelas mais inteligentes são justamente aquelas que entendem que controlar a própria narrativa não significa controlar a própria imagem.
A impressão que fica é a de que ela já domina tanto o próprio vocabulário que agora pode deformá-lo como quiser. Sem sombra de dúvidas, todo tipo de expressão que ela tornar real a partir desse ponto será incrível, mas isso não é tão novidade assim, considerando sua discografia.
Diante de todo o eletrônico que metade da indústria tenta fazer os ouvintes engolirem a todo custo, Popstar é, sem dúvida, um disco que gira em torno disso e funciona com precisão. E ainda dá pra jogar mais alto: ele é uma das peças mais revigorantes dentre muitas dessas tentativas esquisitas.









