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Crítica: 20 anos do “Music” da Madonna

‘Music’ é a definição de como Madonna revolucionou a música pop nos anos 2000.

Balancear entre experimental e comercial é uma das tarefas mais complicadas da música. O quanto um disco precisa ter de elementos ‘fora da curva’ para não parecer tão comercial, ao mesmo tempo que também deve apresentar canções que falam com o estilo popular? Um bom exemplo contemporâneo é o ‘El Mal Querer‘, de Rosalía. Mas em seu lançamento (2018) ela não era tão popular como é no momento, então o risco não era alto. Lá nos anos 2000 teve outra cantora que também conseguiu criar um trabalho tão excepcional quanto o da espanhola… Mas havia um risco muito maior, haviam muito mais pessoas olhando, muito mais a se perder. E a indústria não era a mesma, até o artista mais visionário pensaria duas vezes sobre o que mixar em suas músicas.

Mas não estamos falando de um tipo de artista que pensa duas vezes, até hoje é praticamente impossível prever como alguém se adapta tão bem durante tanto tempo na indústria. Aqui temos alguém que pensa três, quatro, vinte vezes. E esse exercício mental se transforma num brainstorming tão rico que basta apenas um apoio para (tentar) domar uma mente tão genial. Tal genialidade também prega peças, por possuir muitos acertos na carreira, seria impossível não ocorrer deslizes aqui e ali… mas eles não são nada comparados a quantidade de acertos.

E um dos maiores de sua carreira comemora 20 anos em 2020. ‘Music‘ é um disco que revolucionou a música pop nos anos 2000, de uma maneira que só poderia ser feita por um tipo de artista. Um artista que lança cada álbum como um novo experimento, que tende a quase ‘abominar’ a persona do último, para que o recomeço seja algo partido de um quadro em branco. Analisar o impacto do projeto tanto na carreira quanto na indústria da música é algo fácil, mas realmente enxergar nas entrelinhas musicais é onde podemos descobrir as nuances e os verdadeiros significados do que foi dito pela maior popstar de todos os tempos: Madonna.

A dificuldade de comunicação não foi barreira para um produtor desconhecido e uma popstar darem início a uma parceria genial.

Uma das maiores habilidades da cantora é seu faro para sonoridades. E a maior prova disso começou aqui, quando após ouvir uma demo enviada para sua gravadora ela conheceu o som de Mirwais Ahmadzaï. O produtor francês é quem assume o comando de seis das dez faixas da versão oficial do álbum, deixando três para William Orbit (responsável pelo álbum anterior da artista, Ray of Light). Logo na primeira música temos o um sinal de como essa parceria deu certo.

Apesar dos problemas de comunicação durante a gravação das músicas (na época o produtor não falava inglês) o que eles conseguiram criar é simplesmente uma das músicas que mais definem o gênero pop de todos os tempos. ‘Music’ expressa inteiramente a essência da intérprete, de uma forma que ela não conseguiria fazer sozinha… alguém precisaria arrancar isso e fazê-la arriscar a se transformar em uma nova versão de si mesma, algo que já era tão recorrente que até poderíamos pensar, de onde mais ela conseguiria dar luz a uma nova persona?. 

Madonna ‘Music’ photoshoot por Jean Baptiste Mondino.

Com uma produção focada em sintetizar vozes e arranjos, o trabalho tem tantas camadas que fica difícil saber onde começa e onde termina o toque do produtor e o toque da artista. Conseguir se fundir de uma forma tão forte sem ser engolido por alguém que tem uma personalidade tão única foi o maior desafio do produtor. ‘Impressive Instant’ possui vocoders fortes que dão abertura ao que soa como uma continuação perfeita da faceta comercial de abertura. O refrão pegajoso funciona como uma droga que chega a ser desconfortante pelos seus graves, mas que em alguns segundos já se torna uma experiência trippy reconfortante de uma maneira magnífica e estranha.
 
Estranhamento pode ser uma boa definição para uma primeira ouvida do álbum, por mais que este sentimento esteja mais atrelado às faixas da parceria citada, Orbit também faz um bom aproveitamento de bpms, com ‘Runaway Lover’ e ‘Amazing’ agem como se seus trabalhos fossem uma versão mais leve que catapulta a cantora para servir de receptáculo para um som mais pesado. Tal leveza também é explorada em ‘I Deserve It’, mas a música surpreende por mostrar que começar com arranjos leves não significa não trazer algo de experimental na sua base.

A estética cowgirl não transparece tanto além da capa, mas isso não significa que sua influência nunca apareça em forma de música.

Em ‘Nobody’s Perfect’ é possível passar muito tempo só tentando analisar as camadas de produção… entre um momento que ouvimos um sintetizador emular o que poderia ser um teremin evoluído até em frases que a distorção se mescla aos vocais com tanta perfeição que parece que estamos ouvindo uma voz da consciência atuando como vocal de apoio, essa é uma das faixas mais significativas do disco, pois consegue colocar tudo aquilo que Mirwais e Madonna são capaz de fazer juntos sem que pareça um amontoado musical.

A estética de cowgirl na capa é um dos fatores mais curiosos, ouvindo as faixas até então, não temos nenhum resquício de algo que assemelha um estilo de música que se adequa ao visual, e a verdade é que nunca temos completamente. ‘Don’t Tell Me’ é o jeito da artista fazer esse tipo de música, algo mais próximo do country-rock, com pitadas de eletrônico. O melhor lado da canção é quando descobrimos que ela não é original, e sim uma versão de ‘Stop’ de Joe Henry. Esse é um (dos vários) momentos que percebemos a razão que faz Madonna ser tão especial, ela não é só uma criadora é também uma ótima adaptadora e parceira. Apesar da personalidade forte tão destacada na mídia para assuntos controversos, é notável que seus desenvolvimentos criativos e perfeccionistas na sua música a fizeram ser quem ela é hoje. 

Em momentos onde é difícil saber onde começa e termina o trabalho de cada um, é que percebemos que Madonna e Mirwais foram feitos um para o outro.

O 3º single, “What It Feels Like For A Girl” é uma das canções mais ovacionadas do álbum, e também dona de um dos momentos mais polêmicos na filmografia da cantora. Apesar do tom quase triste na versão oficial, é fácil reconhecer o quanto o famoso remix energético do trio inglês Above & Beyond se tornou tão conhecido quanto. O quote dito pela atriz Charlotte Gainsbourg para o filme ‘O Jardim de Cimento’ continua, se tornando uma das frases mais memoráveis em músicas da artista. Tal controvérsia a respeito do vídeo se deu ao fato do seu conteúdo violento, fazendo com que ele entrasse na lista de ‘banidos’ (algo que voltaria ainda a acontecer novamente com a artista no futuro). Vale lembrar que essa canção é uma das poucas não produzidas por Orbit ou Mirwais. 

Em seu ciclo final com “Paradise (Not For Me)” e “Gone” temos um clima de descanso, o encerramento do arco de dez músicas é como uma pausa súbita em toda a agitação das primeiras faixas, quando fala da definição da primeira citada, a artista optou por tratar o som do violino como uma restrição de ápice, deixando apenas que no final ele fale mais alto. A ‘restrição’ aqui funciona ao contrário, com o momento de calmaria ficando para o final, como se dizendo que a única coisa que faltava era apenas uma sensação de repouso.  

Seguir um caminho diferente foi o truque perfeito para continuar revolucionando.

O trabalho mais árduo aqui sempre foi ser aquele que vem após ‘Ray of Light’. Tanta aclamação do projeto anterior trazia uma carga muito grande no que diz respeito a expectativas, tanto de crítica quanto de público. O caminho definido pela cantora foi justamente não seguir no mesmo que fazia, e essa mudança foi o truque perfeito para continuar revolucionando. Music é um disco completamente diferente, incomparável a seu anterior não pela qualidade de ambos, mas sim pelo fato de serem tão desconexos.

Madonna ‘Music’ photoshoot por Jean Baptiste Mondino.

A cantora sempre parece se cansar rápido do próprios atributos musicais, justamente por atingir picos tão altos de forma tão rápida. O que sobra para uma pessoa que se entedia tão facilmente sobre seus próprios talentos é se reinventar, e a cada ressurgimento é necessário se despir completamente da última persona. Isso pode parecer simples, mas percebemos o quão difícil é quando vemos outros artistas nunca conseguirem limpar todos os resquícios de eras do passado. O segredo parece ser abdicar completamente do seu eu e criar uma nova mente para um corpo experiente. Nunca será possível ler uma pessoa tão difícil quanto Madonna, e isso sempre será seu maior atrativo… Despertar um incessante desejo de facilitar algo impossível.

Nota do autor: 92/100

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