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Crítica: 5 anos do “Revival” da Selena Gomez

Selena Gomez abre o coração em ‘Revival’, mesmo que de uma forma não confiável.

Dentre todas as popstars do momento, Selena Gomez é a que mais abre o coração a cada novo trabalho. Mas a decisão por tentar transformar em música seus desejos e sofrimentos de forma tão nítida, vai em contramão quando percebemos o quanto é necessário para arrancar o mínimo de honestidade da cantora. Após cinco anos do lançamento do seu álbum mais pessoal, ‘Revival’ ainda se mostra como um trabalho inconsistente e fraco, até no que diz respeito a músicas básicas e divertidas, uma das melhores coisas da carreira da cantora durante seu tempo como ‘Selena Gomez & The Scene’.  

A inspiração para esse trabalho não é um grande empecilho, partir de relacionamentos complicados e dramas pessoais é um mote básico que sempre funciona muito bem. A desconfiança é gerada quando percebemos o tamanho de compositores necessários para escrever versos simplórios… É aqui que notamos um dos seus maiores bloqueios, é muito difícil passar uma identificação quando se necessita de tantas cabeças para escrever sobre a própria história. Selena não parece uma artista que faz seu próprio álbum, justamente por não parecer ter controle algum sobre o que diz, mesmo que os temas sejam experiências pessoais.

A sensação que permeia é a de que aos olhos da cantora temos no disco a melhor forma de entender seus dramas, o que deixa tudo mais triste… pois realmente parece que ela acha que está se despindo (literalmente, na capa) de qualquer camada de dúvida que podemos ter sobre o que ela canta.

É difícil absorver experiências pessoais com honestidade quando um artista necessita de tantas pessoas para contar a própria história.

Na faixa-título de abertura temos também a frase que melhor define tudo, segundo a própria cantora. Mas é estranho ouvirmos uma música que fala tanto sobre o que está acontecendo e irá acontecer já ser tratada como seu nome. ‘Revival’ foca em dizer como a cantora irá se comportar no futuro, andar sob o fogo, começar novamente, quebrar correntes(…), mas que mal toca no presente… o que deixa parecendo apenas uma promessa. Acreditar em um conto de uma nova vida para alguém que fala sobre isso de forma tão apática é muito difícil.

Em ‘Kill ‘Em With Kindness’ ela define a forma passiva de lidar com as críticas. A canção tem muito a ver com o que o álbum é: passivo, sempre contido e capenga. Mas ao mesmo tempo tem a ver com a forma que Gomez lida com a imprensa, e se seu maior escudo é tentar desviar ao máximo disso, tudo bem.

O primeiro suspiro de algo agradável vem apenas na quinta música. O synth-pop de ‘Sober’ traz uma sonoridade explorada apenas aqui, mas que funciona muito melhor do que o pop das anteriores. E sua letra é uma das melhores do álbum, no que diz respeito a cantora falar de si mesma. Ao mesmo tempo percebemos que o disco é como uma roleta-russa, onde torceríamos para levar um tiro de música boa em todas as tentativas, mesmo sabendo que essa possibilidade seja impossível, dado o material de escuta e a probabilidade deste ‘jogo’.

‘Revival’ trás pouco conteúdo no que diz respeito a músicas agradáveis.

Apesar de tantos deslizes, é no primeiro single que o disco mais acerta. ‘Good For You’ é a melhor do projeto e também uma das melhores da sua carreira. O que fez com que a esperança de um álbum um pouco mais adulto viesse a seguir, algo que não aconteceu. E o improvável feat. com A$AP Rocky caiu muito bem com os vocais da artista. Selena Gomez não é a melhor das cantoras e ela sabe disso, reconhecer seus limites deveria ser sua melhor arma… E justamente por servir modulações diferentes dentro do que pode alcançar é o que faz essa música soar tão bem.

Em sua versão deluxe, o álbum contém dezesseis faixas. Um número elevado, que poderia significar uma chance maior de aproveitamento, caso os destaques negativos não fossem tão maiores que as poucas músicas agradáveis. Algo facilmente notado durante o disco é perceber que as faixas que tendem a explorar sonoridades menos óbvias são as que melhor se saem.

‘Body Heat’ é um exemplo, a inspiração na cultura mexicana transforma o instrumental em um ponto de agrado fora da curva. Algo que a cantora já havia feito muito bem com ‘Come & Get It’. O mesmo acontece em ‘Me & My Girls’, que traz bastante carisma com a produção dos parceiros Rock Mafia, um dos picos de diversão mesmo com uma composição pobre e batida sobre se sentir bem apenas com as amigas. Essa é uma prova que nem toda música precisa ser profunda, mas que esse fator não pode ser dominante.

Apesar dos poucos acertos, sempre temos esperança de que Selena Gomez irá trazer um grande trabalho. Mesmo que a peneira de produtores e compositores mine completamente seu talento.

O álbum não é um erro completo, justamente por causa dos poucos acertos, mas é perceptível que ele não faz jus aos talentos da cantora. Selena Gomez sempre foi muito carismática e intimista, não é a toa que seu jeito de boa menina sempre a vendeu muito bem. Seus trabalhos filantrópicos também são a prova de que seu lado humanitário a faz um dos melhores exemplos para jovens, e ela sempre faz questão de usar sua plataforma para falar sobre autoimagem de forma competente.

Revival é um grande passo na vida pessoal, e vendo apenas por essa forma é incrível entender que a cada álbum nós temos uma Selena Gomez mais consistente e que se dá melhor consigo mesma. Mas como projeto ele não trás o valor devido a toda a trajetória que ela quer contar. O disco não engata, e a culpa não parece ser dela, já que em muitos momentos soa como se estivesse apenas sob controle. A artista funcionaria muito melhor tentando trazer uma coesão de produção e letristas, e as parceiras com a amiga Julia Michaels parecem ajudar, mas ainda não são o bastante.

Ouvir até o final é perceber que falta uma comunicação mais clara entre viver uma experiência e cantá-la de forma pública. Sempre parece que existe um bloqueio, como se uma pré-edição a respeito de quanto ela pode doar de si para as canções, e isso faz com que nada soe completo. A promessa de transparência causa desconfiança, como se houvesse algo a esconder, então nunca sabemos exatamente se é possível entender completamente o que ela passou. Porque ela não nos permite.

Nota do autor: 60/100

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