Novo capítulo de Silent Hill retorna sem alma

“Terror em Silent Hill” se apoia no que fez a franquia ser popular, mas faz tudo isso sem densidade

Silent Hill é uma das franquias de videogames mais notáveis. Ficou marcada pela ambientação mórbida e abordagem psicológica do terror que redefiniu o gênero no final dos anos 90. Lançado pela Konami em 99, o primeiro jogo se distanciava do horror explícito ao apostar em simbolismos, culpa, luto e repressões emocionais. Com a adaptação para o live-action nos anos seguintes a saga ganhou novo ar, apresentando esse universo a outras gerações sem abrir mão do peso nostálgico que a acompanha até hoje.

Terror em Silent Hill: Regresso para o Inferno (ou Return to Silent Hill) traz a icônica franquia de volta às telas ao adaptar Silent Hill 2, game lançado em 2001 e considerado por muitos o ápice narrativo da história. Na trama, James (Jeremy Irvine) recebe uma carta misteriosa de seu amor perdido, Mary (Hannah Emily Anderson), e retorna à cidade de Silent Hill. Lá percebe que seu subconsciente prega peças e que nada é o que parece ser.

Terror em Silent Hill (crédito/reprodução)

Na direção de Christophe Gans (responsável também pelo primeiro filme da franquia, lançado em 2006) o longa aparenta uma indecisão constante sobre o que deseja comunicar. Há, sem dúvida, uma referência explícita ao jogo, mas com pontos contrastantes. O design de produção é aproveitado, a fotografia valoriza o clima mórbido e os personagens de Silent HIll surgem com fidelidade quase caricata (agora impulsionadas pelo avanço expressivo da tecnologia digital). Esses elementos visuais, vale dizer, são praticamente obrigatórios em qualquer adaptação de Silent Hill. O problema é que, desta vez, toda essa estética surge desacompanhada de densidade. O desenvolvimento dos personagens é raso e a narrativa se mostra confusa demais para que isso seja tratado como um simples detalhe.

James, interpretado por Jeremy, é um protagonista curioso no pior sentido possível. Sua insistência em avançar, ignorando sinais óbvios de perigo, não constrói tensão, só fragiliza a lógica do filme. No jogo, essa obstinação fazia sentido dentro de uma jornada psicológica guiada por culpa e negação. Aqui, ela soa mecânica e irritante. Ao fim, James não é um personagem dramático relevante, mas mais um elemento deslocado dentro de uma narrativa já cambaleante.

Terror em Silent Hill (crédito/reprodução)

Silent Hill sempre se destacou por transformar horror em introspecção. A cidade nunca foi só um cenário, mas um mecanismo narrativo que materializa traumas, desejos reprimidos. Os filmes anteriores, mesmo com falhas, ainda tentavam preservar essa camada simbólica. Terror em Silent Hill, por outro lado, ignora grande parte desse legado ao optar por um caminho que, à primeira vista, parece promissor: revisitar uma história conhecida sob uma nova perspectiva. No entanto, a ausência de detalhes que conectem essa jornada à essência da franquia compromete o resultado final.

O longa de Gans se sustenta em personagens pouco desenvolvidos, referências demasiadamente autoexplicativas e ações questionáveis, como se o reconhecimento da nostalgia em torno disso fosse suficiente para provocar impacto. O que resta é um amontoado de cenas que eventualmente se conecta. Não é terror psicológico, tampouco um drama consistente. É apenas uma jornada cambaleada dentro de uma franquia que, ironicamente, sempre foi conhecida por sua profundidade emocional.

Há quem goste, há quem odeie. Alguns ainda encontrarão espaço para o longa dentro da história de Silent Hill; outros, inevitavelmente, irão tratar ele como uma paródia enfadonha. 

49/100

Related Posts