Depois de passarmos meses sob o clarão verde ácido de Brat vivendo a euforia das pistas de dança, a última coisa que se esperava de Charli xcx era um mergulho na literatura inglesa do século XIX. Mas aqui estamos. Wuthering Heights, concebido para o novo longa de Emerald Fennell, ocupa o espaço na carreira da artista com a autoridade de um monumento sonoro, evocando a ambientação do clássico em uma potência, sem parecer clichê.
Para quem não conhece a fundo o texto de Emily Brontë, O Morro dos Ventos Uivantes (tradução brasileira) é o protótipo do romance tóxico: um emaranhado de vingança, luta de classes e um amor tão obsessivo que atravessa a morte. É a tragédia de Cathy Earnshaw e Heathcliff, duas almas que se pertencem, com a mesma força com que se destroem.
Quando Fennell convidou Charli para uma única faixa, ela abriu a porta para um projeto muito maior. O que recebemos foi um álbum completo, que funciona como uma extensão física da cenografia do filme. Enquanto projetos como de Lady Gaga em Harlequin (2024), ou Kendrick Lamar em Black Panther (2018) operam como manifestos culturais, o trabalho de Charli se assemelha mais à fusão total que Prince executou em Batman (1989), uma simbiose onde a identidade da artista e a dramaturgia da tela se tornam uma figura única. Charli xcx executa algo bem mais íntimo e perverso: ela não compõe uma trilha para o filme, ela o habita.

A experiência começa com “House”, e a escolha de John Cale para a abertura é um movimento de mestre. O multi-instrumentista por trás do The Velvet Underground traz sua voz imersa em um som que lembra madeira rangendo e recita sobre a busca pela perfeição, enquanto violinos perfuram o ambiente. Quando Charli entra, sua voz surge sufocada, estabelecendo um clima gótico cru que equilibra a atmosfera cinematográfica com a aspereza das boates eletrônicas.
O disco então explode em “Dying for You”, um dos momentos mais magnéticos do projeto. Nela, Charli flerta com o ritmo de um pop oitentista, mas o subverte com uma lírica de automutilação emocional. Ao cantar ‘bebo o veneno duas vezes para ter certeza’, ela transforma o amor em sacrifício físico, em uma faixa que caminha da euforia melódica para um colapso de ruídos digitais.
A narrativa se avança em um fluxo que espelha o temperamento de Cathy na obra original. Em ”Always Everywhere”, a orquestra de Gareth Murphy abandona a função de fundo para virar protagonista. É um som físico, denso e carregado de uma melancolia vitoriana. Na sequência, “Chains of Love” opera como um ponto de ancoragem emocional. Embora carregue o DNA dos grandes sintetizadores de Charli, a produção é tingida por um lado mais confessional e isolado.

É inevitável ouvir o projeto e não pensar em Kate Bush. Mas o triunfo da Charli foi não tentar mimetizar o clássico de 1978. Bush escreveu sua faixa após ficar obcecada pela adaptação de Wuthering Heights nos anos 60. Em seguida, a música virou o primeiro #1 um do Reino Unido escrito e cantado por uma mulher. Mas, enquanto Kate narrava o ponto de vista do fantasma de Catherine, Charli prefere o nervo exposto do corpo presente. Diferente de trilhas que apenas sublinham a emoção da obra, faixas como “Open Up” (um interlúdio de 90 segundos) mostram que ela estava interessada em criar uma textura completa. O disco oscila entre a beleza das cordas clássicas e a violência dos sintetizadores, o que faz dele uma experiência tátil.
Em “Seeing Things”, encontramos uma sonoridade nostálgica, com letras que entregam a atuação do livro, por assim dizer: é Cathy fingindo que está tudo bem, enquanto o caos se instala em sua vida após o sumiço de Heathcliff. E então, chegamos no esperado encontro com Sky Ferreira em “Eyes of the World”, o ápice desse grime orquestral. O resultado é uma faixa imersa em paranoia, onde a melodia se perde em várias camadas de distorção orquestral.
“My Reminder” faz com que o álbum volte a respirar; uma melodia vocal que corta o caos da parceria anterior com clareza, preparando o terreno para o encerramento monumental com “Funny Mouth”. Composição trabalhada com violinos e falhas digitais, conectando o passado clássico da Inglaterra, ao futuro sombrio.
Wuthering Heights termina deixando um rastro de percepção forte. É um projeto breve, mas que preenche o espaço na carreira da cantora de forma absoluta. Charli xcx provou que consegue manipular a grandiosidade de uma orquestra com a mesma precisão que domina uma batida de clube, criando uma obra que, assim como o livro de Brontë, é ao mesmo tempo terrível e belíssimo.









