Em maio de 2024, uma postagem com prints dos assentos vazios da SWEAT, turnê colaborativa entre Charli xcx e Troye Sivan, viralizou no X/Twitter. O usuário apontava a escolha de arenas como arriscada e questionava o fato de Charli encabeçar o nome da turnê, já que, à época, Troye apresentava números mais expressivos. Um mês depois, chegou BRAT (2024), e o cenário não poderia ser mais diferente.
Charli xcx está presente na cena musical desde os tempos do MySpace e é um nome conhecido por quem realmente acompanha música pop. Ainda assim, embora estivesse constantemente inserida nas conversas, atingir o mainstream a partir do ciclo de um álbum parecia improvável. BRAT alterou esse eixo. A bandeira dos Estados Unidos foi pintada de verde. Charli deixou de ser uma outsider. Agora, é a cool girl para quem a indústria tenta furar a fila a fim de entrar na festa.
Como garantir, no entanto, que o êxito alcançado com BRAT não se perca? Afinal, mesmo confortável por grande parte da carreira em habitar uma bolha específica, o mainstream oferece mais do que números, cifras e olhares voltados para você. Concede também os meios para expandir o próprio alcance artístico. É uma ferramenta. The Moment parte desse princípio.
Concebido por Charli xcx e dirigido por Aidan Zamiri, o filme acompanha uma cantora em preparação para uma turnê enquanto lida com o temor do ostracismo e a angústia diante da inevitabilidade do declínio. A narrativa assume a forma de um mockumentary, um documentário fictício, operando como uma versão exagerada e caricatural da era BRAT.

Entre luzes estroboscópicas e uma energia caótica, conectada espiritualmente por um fio a obras como Climax e Lux Æterna, do diretor franco-argentino Gaspar Noé, sendo neste último a aproximação ainda mais evidente pela metaficção em torno de uma produção, Charli instiga o espectador a observar com mais atenção a figura da diva pop. O que existe por trás da persona?
The Moment expõe a parede erguida na mente da cantora. Mesmo em banheiros sujos de baladas ao redor do mundo, cercada por conhecidos, a solidão persiste. É impossível não se sentir só quando aquilo que você batalhou para conquistar, algo imaterial, mas determinante, parece escorrer pelos vãos dos dedos. A fama conquistada com BRAT não veio sem esforço. Ainda assim, Charli não permanece estática. Há nela uma inquietação constitutiva. É incapaz de se acomodar em uma única caixa. Por isso, o embate entre espremer esse momento até o limite ou simplesmente seguir adiante torna-se inevitável.
Mas, para além da tensão, é nos momentos cômicos que o longa verdadeiramente lateja. O timing é preciso, mas pressupõe do espectador não apenas familiaridade com a lore da cantora, como também um grau considerável de vivência cronicamente online. Trata-se de um projeto que, sem sombra de dúvidas, tende a afastar aqueles cujo senso de humor não orbita o mesmo universo que o de Charli xcx.
O filme tampouco se preocupa em ser simpático o tempo inteiro. Afia a faca ao se posicionar sobre o que constitui uma cantora pop autêntica e o que não passa de construção estratégica. É uma crítica direta ao tipo de arquétipo que a indústria exige e ao papel que precisa ser desempenhado para alcançar grandeza. É possível estar no topo, mas raramente sem algum custo para a própria artisticidade. Às vezes, sustentar o momento significa negociar partes de si. Para Charli, que ao longo da carreira rompeu com diversos padrões estabelecidos e transformou BRAT no momento cultural que foi justamente por essa visão, essa possibilidade é quase insuportável.
Há algo de profundamente atual na angústia que atravessa o filme. The Moment pode, de cara, soar autocentrado demais, mas, nas entrelinhas, pisca um flash do presente que habitamos. Para além de um 360 da humanidade da artista, é também um reflexo contemporâneo. Em tempos de performance, em que tudo parece feito para ser visto, desaparecer soa quase como falhar. Permanecer exige escolhas, e toda escolha, cedo ou tarde, revela seu custo.









