Robyn nunca foi uma artista de meio-termo. Quando some, some de verdade. E quando volta, não é para explicar a ausência, com o single calculado para reconquistar o algoritmo. Volta com um disco inteiro que parece ter sido feito com a energia de quem acumulou oito anos de experiência, e decidiu não desperdiçar nenhuma delas.
Para entender o tamanho dessa espera, e o que ela significa, é preciso recuar um pouco. Robyn nasceu em Estocolmo e lançou seu primeiro álbum em 1995, aos 16 anos, com músicas emplacando no top 10 do Billboard Hot 100. Nada mal para uma adolescente sueca. Mas o mundo que ela construiu de verdade veio depois da trilogia *Body Talk (*2010), que recebeu ampla aclamação da crítica, três indicações ao Grammy e três singles no top 10, incluindo “Dancing on My Own”, uma de suas maiores canções. Então veio o silêncio.
Depois de uma pausa de oito anos na música, carregando uma aposta quase inédita para uma artista pop em seu auge, Robyn voltou em 2018 com Honey, mergulhando mais fundo na intensidade emocional, com arranjos esparsos e uma atmosfera inusitadamente sombria. Na época, Honey foi um disco sobre luto, perda, e sobre o tipo de dor que pede silêncio para ser processada. A crítica amou, mas Robyn sumiu de novo.

Novamente, oito anos depois de Honey, ela volta com Sexistential. O intervalo acumulado é maior do que a carreira completa de muitos artistas. Mas Robyn, mais uma vez, acumulou as suas experiências. Passou por uma pandemia, terminou um relacionamento de longa data e tomou uma decisão que atravessa o álbum como fio condutor: decidiu, sozinha, que queria ser mãe. Por fertilização in vitro, sem parceiro e com 46 anos.
Esse dado importa menos pelo aspecto biográfico e mais pelo que ele revela sobre a lógica interna do disco. É o álbum de alguém que parou de consultar o mundo exterior antes de agir. E essa independência e radicalidade de quem se encontrou é o que pulsa em cada faixa.
O título é um trocadilho entre “sex” e “existential”. Começou como uma piada interna, mas Robyn percebeu que descrevia a direção de seu retorno, declarando que “não precisa necessariamente ser sobre sexo, mas sobre se sentir sensual e atraída por coisas que você gosta, e não deixar nada tomar conta disso”.
“Really Real” abre o disco como se estivesse testando os limites de uma sala antes de derrubá-la. A letra começa no meio de um encontro de glitchs, e antes que qualquer refrão apareça, Robyn está ao telefone com a mãe às duas da manhã, pedindo que ela faça um chá. Então uma guitarra entra em colapso, e a música literalmente quebra e se remonta. Uma lembrança emocionante de que Prince foi uma das estrelas inspiradoras deste álbum. É uma abertura que recusa a lógica de qualquer abertura que você já ouviu antes.
“Dopamine”, o primeiro single, é onde ela formula a pergunta central do álbum: “eu sei que é só dopamina, mas por que parece tão real?”. Robyn começou a escrever a canção há uma década, o que contextualiza curiosamente o crédito de composição que ela divide com Taio Cruz, uma colaboração antiga, ressignificada no presente.
“Sucker for Love” é a bolha pop mais leve do disco — cinética, fácil de amar. Mas, em um álbum que se propõe diferente, é o único momento onde Sexistential parece estar esperando por si mesma. Já em “It Don’t Mean a Thing”, Robyn alterna entre um mantra de vocoder, apelos ao ex-parceiro e uma devastação emocional direta. A letra é sobre a forma como dois corpos acumulam cumplicidade, piadas internas, e todas as bobagens que só existem com alguém de confiança, mas como isso pode simplesmente evaporar. É a linha mais vulnerável do disco, e é por isso que ela corta mais fundo.
“Talk to Me” é Max Martin em estado puro: produção limpa, groove viciante. É a primeira co-escrita de Robyn com Max Martin desde 2010, e o retorno soa natural justamente porque nenhum dos dois precisa provar nada ao outro. Ele sabe fazer pop como ninguém, ela sabe o que fazer do seu jeito único.
E então temos a faixa-título “Sexistential”, algo diferente de tudo que qualquer artista de sua geração já lançou como single. Robyn narra sua jornada como mãe solo, brincando com sua médica sobre qual seria seu doador ideal, e a médica confundindo Adam Driver com Adam Sandler. Em entrevista à NPR, quando perguntada sobre a inspiração, Robyn respondeu: “Uma boa descrição de uma colonoscopia vai ser sempre interessante”. A faixa tem menos de três minutos, mas é uma das ideias mais corajosas que aconteceram no pop nos últimos anos, por ser completamente verdadeira e engraçada ao mesmo tempo.
Em “Lights Up” e “Into the Sun”, que encerram o disco, entre sintetizadores e lasers, Robyn se imagina piloto de um foguete que decidiu não desacelerar: “Eu posso estar errada, e queimar na entrada”. Não há drama nisso. Só a frieza de quem calculou o risco, aceitou, e acelerou mesmo assim. É uma forma de encerramento ideal para o seu disco de retorno; ele termina em movimento, não em repouso.
A pergunta que Sexistential faz, debaixo dos seus sintetizadores e vocoders, é uma pergunta simples e radical: o desejo tem prazo de validade? A resposta de Robyn é não. E ela não diz isso com a leveza de quem não entende o que está contestando. Ela diz com a seriedade de quem passou oito anos vivendo, errando, decidindo, e voltando ao estúdio.
Não há um “Dancing on My Own” aqui. Mas há algo talvez mais raro: uma artista que transforma sua experiência com maternidade solo e envelhecimento em matéria-prima para hinos de pista, recusando-se a desaparecer. Aos 46, Robyn não está tentando replicar fórmulas antigas. Está, simplesmente, sendo. E isso, por si só, já é o ato mais radical disponível.









