Narrativas que envolvem um telefone, um cenário único onde grande parte da história se desenvolve e um suspense crescente não são novidade na indústria cinematográfica. Por essa razão, A Voz de Hind Rajab (ou The Voice of Hind Rajab) não se venderia só por sua ideia, e é na tentativa de se diferenciar das demais que a obra se engrandece.
Primeiramente, o contexto é muito importante: o genocídio orquestrado por Israel ao povo palestino pelo ponto de vista de voluntários da Cruz Vermelha distância a obra de mera ficção. Somado a isso, o nome de Kaouther Ben Hania – cineasta tunisiana que emplacou suas duas últimas produções no Oscar – assinando direção e roteiro, assume a seriedade que o tema foi tratado. E por último, o fato de se tratar de um caso real, sem floreios ou filtro das câmeras, faz com que o longa seja uma lente clara para algo que deixamos de enxergar graças a neblina da banalidade.
A Voz de Hind Rajab é um híbrido entre documentário e drama, comumente chamado de docudrama. Nele, acompanhamos voluntários da Crescente Vermelha – uma vertente da Cruz Vermelha – em um escritório na Cisjordânia, que, em meio ao seu exaustivo turno de trabalho, recebem a ligação Hind Rajab, uma menina de 6 anos e única sobrevivente de um ataque israelense em Gaza.
Desde seus segundos iniciais, o longa é consciente por não apelar para o choque e muito menos tentar romantizar a situação. E é exatamente isso que torna ele tão aterrorizante. A figura do personagem principal, Omar, resume perfeitamente a sensação do público ao acompanhar: mesmo com certo aparato, a tentativa de Omar em ajudar trava na burocracia, e vê-lo sendo corroído pela angústia faz com que o espectador se culpe a cada segundo, quase se sinta um cúmplice, por ser mero observador.
Hind Rajab, a única personagem real do longa, não aparece. Ela é substituída pela silhueta de uma ligação em um software de áudio, e o mais assustador é que toda voz vem da gravação real da menina. Essa decisão, ao invés de reforçar que a guerra não tem rosto na verdade vai pelo caminho contrário, argumentando que ela, no fim das contas, não tem é escrúpulos, pois as vítimas são alvos que nada tem a ver com a desculpa de legítima defesa que insiste em ser replicada, mortas puramente por ódio etnico.

Os 89 minutos de duração do longa são uma sequência de socos no estômago que aos poucos escancaram uma ferida que, a essa altura, já era pra ser uma fratura exposta na história recente da sociedade. E ele faz isso ao sempre relembrar , através dessa mistura de documentário com ficção, de que essa é uma realidade extremamente próxima, que fazemos questão de nos distanciar.
De fato, quando a produção aponta muito para a dramatização, principalmente entre os voluntários, acaba se perdendo. Mas quando cruza a linha do mundo real, o longa é arrasadoramente certeiro. Sem dúvidas, uma das experiências cinematográficas mais devastadoras da temporada de premiações.
Hind Rajab morreu em 24 de janeiro de 2024 quando a ambulância – enviada pelos voluntários depois de muita discussão ética e moral – foi bombardeada antes de conseguir resgatar a menina, fatos retratados no longa em uma sequência final de dilacerar o coração. Sua voz, assim com as mais de 70 mil pessoas injustamente mortas desde o início de genocídio, deixou de ecoar do rio ao mar. E é justamente no nó da garganta e no silêncio sepulcral auto imposto pelo longa que percebemos que gritar “Palestina Livre” é uma necessidade humanitária.









