Talvez Ariana Grande não o conheça, mas existe algo de drummondiano em petal, o seu recém lançado oitavo disco de estúdio. A flor que rompe o asfalto e encontra vida em um ambiente hostil como metáfora para a própria imagem pública. Suas canções parecem questionar o que resta da pétala após anos de manchetes especulativas sobre sua vida, seu corpo, as expectativas e o julgamento do público, talvez até um alerta à sua própria base de fãs.
A referência da flor no asfalto é um símbolo potente na literatura mundial. No poema de Carlos Drummond de Andrade, “A Flor e a Náusea”, representa esperança em um mundo devastado pela guerra. Já no livro de poesias de Tupac Shakur, “The Rose That Grey From Concrete”, o rapper traz a metáfora para sua vida enquanto homem negro que conseguiu florescer em um contexto marcado pela pobreza e pelo racismo.
Em ambos os casos, a delicadeza e a sutileza são utilizadas como formas de resistir a um cenário conturbado. E é aqui que Ariana eleva e também contradiz a sua obra, seja suavizando seus vocais para dar mais espaço à mensagem, seja experimentando sonoridades mais amenas. Existe certo desconforto nas 12 composições da artista, que vão das letras à sonoridade. Seu texto é vulnerável, mas também direto. Assim como a pétala que, mesmo frágil, protege o interior da planta, as letras apontam de forma singela sem deixar de ser forte. Musicalmente, Ariana demonstra estar aberta a experimentar novas camadas sonoras, texturas e deixar de lado o pop em altos decibéis que marcou sua trajetória. No entanto, esse risco ainda é muito controlado, como se não tivesse sido totalmente explorado.

Lançado no final de julho, petal marca a primeira fase da carreira de Ariana Grande lançada por seu próprio selo, Babydoll Music, em parceria com a Republic Records. Com pouco mais de 35 minutos de duração, o disco foi escrito e coproduzido pela artista ao lado de seu colaborador de longa data ILYA (Ilya Salmanzadeh), com participação de Max Martin em parte da produção. Transitando entre o pop contemporâneo e o R&B, a artista incorpora elementos de dream pop e soft rock em uma sonoridade mais introspectiva. Concebido durante a turnê Eternal Sunshine, o trabalho gira em torno de temas como crescimento pessoal, vulnerabilidade e o impacto do julgamento público, sintetizados pela metáfora da pétala em meio às rachaduras do concreto.
A tracklist do disco abre com “kiss me” em uma atmosfera intimista em que synths etéreos e batidas suaves equilibram um percurso entre o pop e o R&B, dando o tom do álbum como um todo. A segunda faixa, “hate that i made you love me”, foi o único single conhecido antes da obra nascer. Ela traz um pop sofisticado de refrão melódico, sustentado por sintetizadores discretos e uma produção bastante polida. A música parece apenas falar de amor, mas quando você menos espera descobre uma Ariana questionando sua audiência com certa ironia: “É mesmo culpa minha que todos vocês me deram seus corações por vontade própria?”. A auto-resposta vem automática: “Eu acho que não”.
“petal” fecha a trinca de abertura do disco, formando o ponto mais alto do trabalho. A faixa-título se agarra em uma instrumentação minimalista, com aspectos de dream pop e vocais delicados que marcam o tom confessional do oitavo álbum de inéditas da cantora norte-americana. A sua rebeldia sútil também está presente quando ela não entrega o que o público talvez gostaria. Seu alcance vocal já foi mais que provado, e Ariana é uma das cantoras contemporâneas de maior domínio técnico. Mas aqui, quase não há whistles ou grandes sequências de melismas e runs, enquanto o uso do falsete aparece de maneira muito mais econômica. Seria essa a verdadeira experimentação da artista? Estaria ela dobrando a aposta com os fãs? A dúvida paira no ar durante toda a audição.
O primeiro ponto baixo do disco vem com “stay”, uma balada com texturas limpas e pouco marcantes, soa como alguma sobra de obras anteriores. “Oh Well” mostra suavidade, mesmo com uma combinação de guitarras e sintetizadores. A canção flerta com um soft rock, mas ainda com a raíz pop da artista. A letra afiada tem seu charme quando a caneta da cantora manda os “bad guys” pro inferno.

Daqui em diante, petal encontra outro eixo ao equilibrar vulnerabilidade e contenção. Em “big feelings”, a produção cresce lentamente até um refrão mais expansivo, sem abandonar a delicadeza que define o álbum. “freak” incorpora influências de R&B e hip-hop em uma das faixas mais sensuais do repertório, enquanto “warning signs (interlude)” funciona como uma pausa contemplativa que reorganiza a narrativa antes da reta final. É uma extensão de “freak” e poderia ter sido melhor aproveitada, deixando de ser apenas interlúdio e se tornando uma música completa.
Já “like i do” reafirma a atmosfera introspectiva do disco, sustentada por sintetizadores aéreos e uma interpretação que privilegia a emoção silenciosa. Na sequência, “never get over me” aposta em um clima cinematográfico e em harmonias sutis, mas, assim como boa parte do álbum, evita explorar plenamente o alcance vocal de Ariana. “bad thing (bunny hop)” quebra essa linearidade com uma produção mais pulsante e um flerte convincente com o indie-pop, oferecendo um dos momentos mais interessantes do projeto.
O encerramento, “nowhere, nobody”, reduz a instrumentação ao essencial e reafirma a proposta de petal: um disco que prefere a delicadeza ao excesso, ainda que essa escolha, em alguns momentos, impeça Ariana de explorar todo o potencial de uma das vozes mais marcantes do pop contemporâneo. petal entende que florescer também pode ser um ato silencioso. Ariana Grande encontra beleza na contenção e, ao reduzir o espaço ocupado por sua própria voz, revela uma artista interessada em ser ouvida para além do virtuosismo. Mas a pétala também é a fragilidade do disco: quando a delicadeza se torna princípio absoluto, faltam rachaduras capazes de deixar algo realmente novo nascer.









