As artistas que somos: Clara x Sofia

Entender o que forma o artista em um artista é essencial para conhecer melhor seu trabalho. Como criadores, sabemos o papel importante que as pequenas coisas diárias tem e como elas influenciam diretamente no que criamos e fazemos com nossa arte. Com isso, queremos entender como essas pessoas com sensibilidade aflorada são moldadas, quais são seus gostos, o que fazem, escutam, assistem.

Clara x Sofia é um duo mineiro que tem conquistado o coração de gente do brasil inteiro, elas são amigas de tempos, e por uma simples coincidência acabaram formando essa dupla incrível, com visuais e músicas impecáveis, capaz de fazer pessoas com anos de carreira sentirem inveja. Elas são únicas, tanto como artistas ou como pessoas dentro de suas intimidades do dia-a-dia. Elas me encantaram e com certeza vão encantar qualquer um que se dispor a escuta-las.

Antes de qualquer coisa, recentemente vocês foram anunciadas no line-up do MECA Inhotim, parabéns! Como está a preparação para se apresentarem no festival? Muita ansiedade? 

Clara: Nossa, a mil. Desde que soubemos da possibilidade ficamos loucas, o MECA é um festival que a gente sempre gostou muito, tem um valor agregado enorme tendo uma grande importância para cena cultural nacional, principalmente a mineira. Estamos muito empolgadas, ainda mais com esse line-up de peso que ele tem. Cantar no mesmo festival que Caetano Veloso, Alceu Valença e etc, estamos muito empolgadas. Os preparativos estão desde já, todo show que fazemos é cada vez mais lapidado, quando acontecer o festival já vamos ter lançado o nosso álbum então vai ser o primeiro show 100% autoral contando a história do projeto, estamos com muitas expectativas.  

É o primeiro show em festival de vocês?

Sofia: Não, nos apresentamos no Breve, vai ser o nosso primeiro no MECA (risos) estamos muito chiques. 

Vocês sentem muita diferença de uma apresentação em festival do que as de shows tradicionais? 

Clara: Muita! Muita diferença. Assim, o privilégio de estar em um festival é de ter um público muito misturado, nosso público vai ouvir outros cantores e o público do Caetano Veloso que vai conhecer Clara x Sofia e isso é muito legal. Todo mundo que vai num festival de música – além de querer lacrar nos lookinhos – vai muito para conhecer o trabalho de outros artistas, se faz presente para ter essa troca, realmente todo festival as pessoas vão atrás de novas experiências, então a troca do público é outra e esse crossover de público é muito muito importante.  

Clara x Sofia por Isabela Montenegro (reprodução)

Além de se apresentarem, vão querer curtir algum show?

Clara e Sofia respondem em coro juntas: Com certeza!

Sofia: Com o line já anunciado queríamos ver todos.

Clara: Como disse, somos fãs do MECA desde sempre, acho que fomos em vários anos seguidos e amamos todos, fãs de carteirinha e agora tá cantando é outra coisa, espero que consigamos ver algo, até o momento do nosso show provavelmente não vamos conseguir ver nada.

Sofia: Vamos ficar numa concentração mas no pós show vamos tentar curtir ao máximo.

Vocês tão na música desde 2016, certo? Como foi entrar nesse universo e como foi formar uma dupla? Vocês já se conheciam, como rolou tudo isso?

Sofia: Menino! foi um processo SUPER por acaso, tudo começou porque já cantávamos, fizemos uma viagem juntas por causa de amigos em comum, estamos num happy hour, um desses amigos tava tocando e falou “vem cá vocês duas, cês cantam, dá uma palinha aqui juntas”. Um desses amigos fazendo uma festa aqui em BH convidaram a gente para cantar e começou daí, foi acontecendo uma construção, a princípio fazíamos cover – o trabalho autoral só veio surgir no final de 2019 – e foi isso, começamos cantando em festa, em lugares aqui em BH e eventualmente com a entrada do Lipe, o X de “Clara x Sofia” como a gente brinca, surgiu essa possibilidade de começar um trabalho mais autoral.

Clara: Sempre falo que tivemos dois começos diferentes, por que foi totalmente diferente esse começo de virar uma dupla, foi de maneira muito despretensiosa… começamos na farra com os amigos, sabe? mas o momento que a gente realmente começou a fazer um trabalho mais autoral marca um novo início da dupla e isso marcou uma virada de chave pra gente, trouxe junto uma responsabilidade enorme, foi um mundo completamente novo e desconhecido até então, realmente, 2019 foi um ano que a gente sentou e decidiu tudo isso. Com isso temos o nascimento de 2016 e de 2019. 

O último single de vocês “Sem Maldade”, que está incrível por sinal, antecede o primeiro álbum de estúdio de vocês. Como foi o processo de criação dele? Qual foi a parte mais legal e a mais difícil?

Sofia: Só um parêntese, a Clara brincou que teve o primeiro nascimento, aí veio o segundo nascimento e agora na pandemia tivemos o terceiro nascimento, foi o momento que voltamos nossa vida para todo um propósito 

Clara: (Risos) Foi o momento que falamos “vamos fazer um álbum”. Sempre foi um grande sonho nosso, desde o momento que começamos com as músicas autorais, foi algo que sempre esteve com a gente, amamos contar histórias, amamos essa experiência que ouvir um álbum pode proporcionar de aproximar de um artista, de conhecer outros lados dele e sempre quisemos contar. Durante a pandemia nós nos encontrávamos naquele ócio criativo enorme, cheias de tempo… aí começamos a fazer o álbum no meio da pandemia, ele foi produzindo bem lentamente mas bem intenso – produzimos música a música, num todo ele tem 9 faixas 5 produtores diferentes, a cada música pensávamos “quem essa música pede?” E esse processo todo demorou, por exemplo, “Sem Maldade” é um música que estava pronta desde setembro (de 2021) e então foi mais ou menos assim, fizemos tudo juntas do começo ao fim. 

Sofia: Foi muito um processo de autoconhecimento, da gente como indivíduo e dupla, sempre falamos isso que casar, juntar duas experiências e vivências diferentes chega a ser um desafio, durante a pandemia conseguimos juntar tudo isso de uma maneira muito bonita e foi um processo muito profundo e muito intenso ao mesmo tempo. Agora está tudo pronto, é uma vitória e uma celebração. Estamos muito empolgadas para lançar logo. 

Clara: Lançar o “Sem Maldade” foi muito bom porque deu uma vazão a toda ansiedade que estamos sentindo, agora só temos o álbum para lançar

Falando do trabalho de vocês, no clipe de “Fica Mais Leve” vocês trazem diversas referências a filmes clássicos. De onde veio essa ideia de inserir essas referências e qual os comfort movies de vocês?  

Sofia: Adoramos, esse processo foi super natural, quando paramos para pensar no clipe “Menina, o que que traz essa sensação de leveza? Dançar, dançar com quem se gosta e até mesmo sozinho” e daí começamos a catar várias referências de filmes icônicos que gostamos, já tínhamos a referência de onde iríamos gravar, na CasaCor de Minas que é cheios de cenários lindíssimo e transmite bem a mensagem de leveza que queríamos para o clipe. Clara é muuuito fã de cinema, eu sou muito fã de comédias românticas, mas minha dupla trouxe muitas cenas que ela gosta, que assistiu e chamou atenção…

Clara: Foi bem inspirado nisso, todos os personagens e danças que pegamos são de histórias que tem um conflito parecido com que falamos na música, que são ansiedades e frustrações e nos filmes que colocamos, eles usam a dança como uma válvula de escape muito grande e a música é sobre isso, contamos a história de uma pessoa inerte, ansiosa e presa em casa até o momento que algo ativa o “gatilho” da leveza nela e é isso que queríamos mostrar, o problema pode não passar mas tem aquela cena linda da dança que fica marcado.

Sofia: De filmes favoritos, eu acho que é “Uma Linda Mulher”, é um clássico que assisti um milhão de vezes.

Clara: Acho que não consigo falar meu filme favorito mas eu tenho um xodó por “Me Chame Pelo Seu Nome“, sou capaz de assistir mais um milhão de vezes, pra mim ele é totalmente perfeito e coeso, tem uma capacidade enorme de ser sensível.  

Como é criar música em tempos de Tik Tok? Há uma pressão maior por isso ou vocês conseguem levar de boa? 

Sofia: Não falaria que existe uma pressão mas existe um cuidado maior, num outro dia estávamos conversando que o mais legal é o fazer música e depois encaixar ela no contexto atual e não fazer a música já para o contexto atual, entende? A partir do momento que a música tá pronta, acaba surgindo várias ideias e contextos diferentes para trabalhar, gostamos muito de criar e então acaba sendo um novo espaço para gente criar e encaixar a música no contexto das pessoas, mais por esse lado, o que é diferente de já criar algo já pensando nesse contexto todo. Nosso processo criativo segue uma linha diferente.

Clara: Toda música do álbum, a gente vira e fala “olha, isso daria uma boa trend” mas é muito do contexto que a gente vive, de maneira inconsciente do jeito que os artistas estão vivendo.

Sofia: Existe essa relação com a criação de conteúdo e da ligação da música com esse novo universo, mas isso não é algo que limita a gente. 

Clara: Esse foi um posicionamento que decidimos ter, principalmente para esse álbum, ele é um trabalho muito sincero, é todo baseado em situações e momentos vividos pela gente. Mas olha, tava conversando com um outro artista e me contou que toda música que ele produz, pede para colocar a batida do TikTok (risos) e aí vem uma trend, isso não fazemos mas depois que a música tá pronta procuramos oportunidades para fazer isso acontecer, porque querendo ou não, estourar no tiktok é muito bom. 

Sofia: É bem isso que estou falando, criar uma identificação com a música e as trends são exatamente isso, alguém ver e falar “nossa, boto fé demais nessa música aqui”. E é isso, queremos muito? sim, mas não produzimos pensando nisso. 

Clara x Sofia por Isabela Montenegro (reprodução)

Consigo captar influências de bossa nova, um pop mais elétrico, tudo misturando nas músicas de vocês. Quais as referências que vocês tem?

Clara: Esse álbum foi uma descoberta – como a Sofia falou – pegamos referências de um tudo que se pode imaginar mas principalmente de tudo que gostamos ouvir, o fio condutor das nossas músicas é um termo que inventamos para o nosso gênero por que demoramos muito para entender onde nos encaixamos, chamamos de “chiclete chique”. Desenvolvemos muito isso a partir das nossas referências, que a gente curte muito o pop, o popudo mesmo sabe? Amamos toda a estrutura que o pop tem, o refrão que repete e gruda, alguns elementos mais orgânicos também e tem a parte do chiclete chique que é o pop mais sintetizado, que tem aquela malícia toda. Pegamos muita referência do pop belga, que é o da Angèle, Dua Lipa que amamos demais [Sofia comenta: Musa suprema], a gente pega muita referência desse lado. No álbum tem muitas referências a Offspring, Gorillaz e daqui do Brasil tem muita também, como Duda Beat que amamos muito, Marina Senna que falamos que um dos privilégios da nossa vida é amar o Rosa Neon que era a banda dela antes da carreira solo e também do Marcelo Tofani que produziu o nosso álbum. É muito massa e um privilégio extremo ter essas referências tão perto da gente.

Sofia: É um grande Pout Pourri (risos).

5 músicas do seu trabalho que você apresentaria para alguém que ainda não conhece sua música.

Sofia: “Sem Maldade”, “Fico Mais Leve”, “Fala, Seu Fim em Mim” e “Falei demais”, acho que essas seriam as 5… até então das que a gente lançou.

Clara: Isso que ia comentar (risos) será se sou proibida de falar alguns spoilers… que saber? Vou falar, Clara x Sofia já lançou muita coisa mas o álbum conta a nossa história, tem muitas músicas lá que são muito pessoais e vão ajudar quem vai ouvir a entender quem é Clara x Sofia, então eu cito: “Seu Fim em Mim” nosso clássico, “Sem Maldade”, “Fala (tô te querendo)” que tem participação com a Clara Valverde. Tem uma música no álbum que as pessoas precisam escutar chamada “Falsa”, um outra música que é muito importante chamada “Nada Disso é pra Você”. Essas duas últimas músicas são muito distintas e muito fortes, elas falam por si só, acho que a produção delas está muito alinhada com as referências que tivemos e de tudo que falamos aqui hoje. 

Entre spoilers do que vem por aí e um papo incrível, aproveite para acompanhar Clara x Sofia em suas redes sociais como Instagram e TikTok, e também seguir as artistas no Spotify.

Por Leo Pereira

Designer, Comunicador e principalmente, apaixonado por teatro musical


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