“Ato Noturno” transforma o desejo em palco onde existir exige desaparecer

Thriller erótico evoca discussão sobre existir como performance e desaparecer como preço.

Somos muitas versões de nós mesmos porque queremos ou porque estamos o tempo todo tentando nos encaixar em algum tipo de mundo performático? O quanto vale a pena sermos aquilo que as pessoas querem que sejamos? É seguindo alguns desses aprofundamentos que o denso e impecável thriller Ato Noturno, dirigido por Marcio ReolonFilipe Matzembacher, desenha uma poderosa trama para contar o quão amargo é apagar quem somos para caber em diferentes espaços.

Situado em uma Porto Alegre que facilmente poderia ser São Paulo devido aos visuais urbanos repletos da poética penumbra da cidade paulistana, a narrativa do filme foca em Mathias (Gabriel Faryas) e Fábio (Henrique Barreira), atores de uma escola de teatro que estão em um impasse constante para se destacar mais do que o outro.

No entanto, duas coisas fazem o longa gerar pulsões excelentes. A primeira delas é o fato de uma recrutadora de elenco assistir à peça que os personagens estrelam, e a segunda — a que mais perdura no longa — é o envolvimento de Matias com o candidato a prefeito Rafael (Cirilo Luna).

Há uma metáfora alucinadamente bem escrita sobre se esconder de sua realidade para se adequar a espaços que são repletos das muitas luzes de um espetáculo de teatro. O protagonista se vê inserido num ciclone entre alcançar o estrelato e ficar às margens de uma existência que exige silêncio sobre quem ele verdadeiramente é.

Reprodução (2026)

O mais interessante de tudo é que em um dado momento do filme tudo se conecta a um só fio que gera um caos. Porém, antes mesmo da obra chegar em sua eclosão, praticamente todo o texto de Filipe Matzembacher e Marcio Reolon (que também assinam a direção) se mantém afiado a todo momento. Várias tensões ditam um ritmo extremamente bem alocado, onde nenhuma sequência entedia ou gera confusão na história conduzida com precisão. De modo corriqueiro, o filme evidencia desejo e repulsa sob a ótica principal de ser capaz de qualquer coisa para alcançar o que se quer.

O vai e vem entre os personagens (fortemente interpretados por Faryas e Barreira) se traduz em planos lindos pela cidade, reforçando ao espectador que estar sob os holofotes é silenciar a própria essência. O foco é sempre posicionar os personagens diante das situações narrativas mediante jogos de uma direção super autoral e acima de tudo, muito madura para traduzir a lotação de sentimentos da obra.

A metáfora mais interessante acontece dentro da peça em que os dois personagens principais estão: no ato final, quem conseguir derrubar o outro de uma plataforma de difícil alcance, “existe”. 

Em toda sua existência, Ato Noturno escancara um thriller erótico muito capaz e digno de transformar o desejo em estratégia. O filme entende de uma maneira madura que não existe vitória sem algum tipo de desaparecimento. Mas é aí que a obra escancara sua maior força: quantas versões de nós mesmos precisamos ser devido o outro?

80/100

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