O protagonismo feminino em filmes de terror nos últimos tempos é de se admirar. Embora pouco numerosos, os nomes das atrizes eram novidade no gênero. Adaptações da literatura vitoriana, como os romances góticos, relembram os horrores de obsessões misturados com um grande apelo emocional. A dependência — ou a subversão — da mulher que, por ser tão miserável, mostram-se o verdadeiro terror. No entanto, com a mencionada crescente, narrativas de figuras femininas fortes, algumas vezes colocadas em frente a feras (como na versão de Robert Eggers de Nosferatu) ou até mesmo criadoras de obras que são referência no gênero.
Mary Shelley levou a parte da “criação” sério demais e escreveu sua própria criatura, Frankenstein, que recentemente recebeu uma nobre interpretação cinematográfica por Guillermo del Toro. Com nove indicações ao Oscar (Melhor Ator, Melhor Ator Coadjuvante — em dobro —, Melhor Roteiro Adaptado, Direção de Arte, Figurino, Maquiagem e Penteado, Efeitos Visuais, Fotografia e o mais desejado de todos, o de Melhor Filme), o longa metragem mergulha no sombrio da estética melancólica que apenas uma mulher poderia ter escrito.
Outras expoentes da época eram as irmãs Brontë. Charlotte, Emily e Anne foram escritoras e poetas da era vitoriana, famosas por romances clássicos da literatura inglesa. E pensar que usaram pseudônimos masculinos (Currer, Ellis e Acton Bell) para evitar preconceitos à época. Das três irmãs, Emily é a it girl do momento: é a escritora de O Morro dos Ventos Uivantes (Wuthering Heights), livro que colocou alguns nomes de Hollywood em evidência por diferentes motivos.

O Morro dos Ventos Uivantes foi adaptado pela primeira vez há um século, quando o cinema ainda nem era falado. Desde então, vários cineastas, de diversos países, trouxeram sua visão para o épico triângulo amoroso da trama da autora. A obra, que também recebeu uma saudação de Kate Bush em um hit musical que, por sua vez, viria a ser parte da setlist da cantora Duda Beat no The Town, agora tem sua adaptação em um roteiro Oscar nominee assinado por Emerald Fennell.
A britânica reuniu um elenco enxuto, colocando o tão jovem premiado Owen Cooper (Adolescence, série) na constância do trabalho da indústria. O protagonismo ficou com Margot Robbie e Jacob Elordi, que interpretaram Catherine Earnshaw (Cathy) e Heathcliff, o casal do romance de 1847.
Toda essa crescente de filmes vitorianos nos últimos anos, tantos derivados de filmes, trazem a mélange de repressão social, tensão moral e fascínio pelo macabro, que é reciclado e reinterpretado no terror moderno. Casas isoladas, mulheres enclausuradas, religiosidade opressiva, erotismo reprimido — todos esses assuntos fazem um comeback, mas com sob nova direção.
O que muda, de forma decisiva, é o ponto de vista. Com histeria e desejo feminino, o audiovisual contemporâneo destaca as mulheres no centro da narrativa. Não é coincidência que o terror seja um dos gêneros mais férteis para esse protagonismo. Historicamente, o horror sempre foi um espaço de projeção das ansiedades sociais. No século XIX, tamanhas inquietações estavam ligadas ao avanço científico, à sexualidade reprimida, às transformações urbanas. Além disso, nota-se também uma dimensão estética na retomada. Corsets, paisagens enevoadas, arquitetura decadente e iluminação à vela voltaram como uma linguagem visual desejada por grandes públicos.
E se o retorno da literatura vitoriana e do gótico não seja apenas uma tendência estética, mas um sintoma?
Em tempos de crise, não é incomum que a cultura decida revisitar períodos similarmente atravessados por transformações profundas. O século XIX foi marcado por revoluções industriais, disputas morais e mudanças no papel da mulher. O século atual também segue assim, mas em outra escala e com outras ferramentas.









