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Crítica: “ARTPOP” – Lady Gaga

Na discografia de Lady Gaga não existe algo que consiga gerar tantas horas de discussões como seu terceiro álbum: ARTPOP

Qualquer discussão envolvendo um disco controverso de qualquer artista pode acabar se tornando uma conversa sem fim, isso devido a argumentos de qualquer um dos lados possuírem um alto poder de influência e razão.

Um trabalho controverso não significa exatamente que enquanto alguns o consideram uma obra prima outros podem achar que ouvi-lo é perder tempo, a controvérsia musical pode surgir de dúvidas simples e sinceras sobre qual a razão de tal faixa ter sido montada de maneira X, ou de outra ter uma letra e execução Y. Na discografia de Lady Gaga não existe algo que consiga gerar tantas horas de discussões como seu terceiro álbum: ARTPOP. 

Mas para que não se estenda sobre tantas explicações e motivos, é bom focar em algumas dúvidas gerais, e uma delas é das mais fascinantes: o quanto ele fala com seus fãs e com aqueles que apenas admiram uma ou outra música. É possível algo tão pautado em vivências pessoais e letras que fazem sentido automático para quem acompanha Gaga também ter o poder de envolver aqueles que não a conhecem tão bem assim?, aparentemente não. Mas existe algum problema em lidar com algo do tipo e ainda assim apenas aproveitar seu som?, também não.

Para os mais obcecados com uma das maiores artistas de todos os tempos, pode ser que haja um pouco de preconceito sobre como alguém pode aproveitar uma obra tão sensível a respeito de sua vida sem entender completamente o quanto uma frase ou metáfora pode representar. Mas para aqueles que só querem tirar uma hora para ouvir algo que dê um gás na animação, estamos lidando com um dos trabalhos mais competentes nesse quesito.

Não existe uma música em ARTPOP que não seja capaz de animar qualquer ambiente, Gaga pode ser uma das cantoras mais versáteis no que diz respeito a gêneros e sua vocalidade, mas quando ela encontra o EDM ou qualquer subgênero do eletrônico, sua força é imensurável. Isso é o bastante para provar que aqui temos um exemplo do quanto a música pode ser universal e ecoar além de qualquer bolha.

Em ‘Aura’, ‘MANiCURE’ e ‘Swine’ ouvimos gritos controlados que vão de encontro a batidas hipnóticas, e o maior charme é perceber que do começo até o fim de cada uma, Gaga não consegue se manter em uma linha reta. Seus vocais vão do ponto A ao Z em questão de segundos, seu sotaque muda quase que de forma caricata, onde ela se deixa levar para fazer rimas baseadas em palavras tão banais, provendo uma das maiores diversões ouvidas.

As produções (dominadas por um dos seus melhores parceiros: DJ White Shadow) parecem construídas com sucatas de sons e loops que soam completamente alucinógenos. Por outro lado, a cantora também não deixa sua veia sexy de lado e oferece uma das sequências mais viciantes com G.U.Y. e Sexxx Dreams.

Este também é onde ela mais brinca com suas influências visuais em músicas. Assimilar Lady Gaga com moda é intrínseco, então nada mais óbvio do que se deparar com letras carregadas de referências a milhares de marcas que hoje têm o prazer de vesti-la em qualquer evento que a estrela vá. ‘Donatella’ e ‘Fashion’ fazem esse trabalho, e por mais que estejam alguns níveis abaixo do resto do disco, elas se fazem indispensáveis se levarmos em conta aquela questão abordada: sobre o quanto estamos ouvindo algo que foi feito quase que mirando apenas os mais fervorosos pela artista.

O maior momento ‘deprê’ fica por conta de ‘DOPE’, e o local de sua inserção na tracklist pode até gerar uma sensação de anticlímax… mas nada é o bastante para não cair de amores por outra coisa que ela sempre fez muito bem, baladas acompanhadas de piano.

É possível sim aproveitar ARTPOP de todas as formas. Caso o gosto pelo disco seja tão grande e gere uma curiosidade sobre todo sua era, controvérsias e polêmicas, existe muito material disponível para ler e (tentar) entender o que passava na cabeça de Lady Gaga durante seu processo criativo. Caso o ouvinte queira apenas curtir boa música, dançar e se divertir, isso também é possível. O que a artista conseguiu fazer com este trabalho foi adaptar o conceito da melhor maneira possível: sem que isso pudesse distanciar qualquer pessoa de conseguir aproveitar sua qualidade e fazendo com que sua quase uma hora de duração seja um grande convite para explorar as razões e circunstâncias de como ele foi gerado. O resultado é algo grandioso sem ser pedante, sendo essa a melhor descrição de uma boa obra de arte.

Nota: 89/100

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