Kelela ocupa um lugar singular dentro do R&B alternativo. Foi uma das principais artistas que ajudaram a moldar, no início da década de 2010, um movimento que fundiu o gênero à música eletrônica, muito antes dessa estética se tornar uma linguagem dominante para uma nova geração de artistas. Mais de uma década depois, Kelela continua sendo uma das poucas figuras centrais daquele período que permaneceu explorando esse território, sem diluir a sua identidade. Mas essa permanência também traz um desafio particular: como seguir expandindo uma sonoridade que você mesma ajudou a criar, sem se tornar uma repetição dela?
Em new avatar, seu terceiro álbum de estúdio, Kelela responde mudando o próprio eixo da sua música. Os sintetizadores, que por anos definiram sua assinatura, cedem espaço para guitarras e baixos distorcidos que atravessam quase todas as faixas, inaugurando um novo vocabulário sonoro para sua música eletrônica, sem romper com a essência que a trouxe até aqui.
Antes de se tornar uma das vozes mais influentes desse subgênero, Kelela Mizanekristos — filha de imigrantes etíopes e criada em Washington, D.C. — escreveu sua primeira música apenas aos 27 anos. Foi em 2010 que a cena independente da cidade lhe ofereceu algo raro: um ambiente onde improviso sonoro tinha mais valor do que virtuosismo.
Ainda naquele ano, ela se mudou para Los Angeles. Nessa mudança, Kelela encontrou uma linguagem capaz de conectar sua voz ao universo da música eletrônica, mas sem abrir mão da intensidade emocional do R&B. O resultado foi Cut 4 Me (2013), mixtape que não apenas abriu as portas para sua carreira, mas também ajudou a desenhar o mapa de uma nova geração que passaria a enxergar esses dois mundos como parte da mesma conversa.
Entre Take Me Apart (2017) e Raven (2023), Kelela levou cinco anos de produção. Depois, vieram RAVE:N The Remixes (2024) e o álbum ao vivo In the Blue Light (2025). Agora, o novo projeto quebrou esse ritmo: ficou pronto em menos de um ano, algo que a própria cantora descreveu à revista People como “astronomically fast” — astronomicamente rápido, pros padrões dela. Boa parte disso tem a ver com a composição do time. Pela primeira vez, ela dividiu quase todo o processo com um único produtor, Oscar Scheller (que já passou pela discografia de Lily Allen), abandonando o hábito antigo de somar camadas de vários colaboradores.
O disco abre com “idea 1“, construída sobre uma superfície ambiente, e a sua virada inaugura as guitarras distorcidas. A letra nasceu após ela ler Parable of the Sower, livro de Octavia Butler sobre um mundo pós-apocalíptico fortemente afetado pelas mudanças climáticas, e isso explica o tom da letra: não é uma canção sobre o mundo acabando, é sobre como continuar existindo dentro dele nos tempos atuais. Foi a faixa que reabriu a conversa sobre Kelela em abril deste ano, e a Pitchfork bateu o martelo chamando de uma das melhores de 2026.

É a partir da segunda faixa que o álbum revela seu tema central: os relacionamentos. “point blank” fala sobre chegar no limite de dar tudo numa relação e não receber quase nada de volta, o cansaço de segurar sozinha o peso de duas pessoas. Em sequência, “goin down” vai na direção oposta: menos sobre desgaste, mais sobre potência vocal, com Kelela cantando num registro que lembra o seu auge em Take Me Apart.
“outta time“, o dueto com A.K. Paul, único produtor do disco além de Scheller, é o momento em que a cantora parece se aventurar mais. Ela mesma resumiu o clima da faixa invocando, numa mesma respiração, Prince, Janet Jackson e Nirvana. É uma mistura deliberada de referências que, no papel, não deveriam se encontrar, mas na faixa soam como se sempre tivessem morado na mesma casa.
“crystalize” descreve aquele momento do luto em que ainda dá pra negociar mentalmente um final diferente, chamada fase de barganha, antes de aceitar que acabou. Já “retaliation lullaby” começa como uma balada suave e vira, no meio do caminho, um relato de ciúmes e ressentimento, com sons de tempestade de verdade gravados ao fundo, pontuando a virada. São as faixas que mais dividem quem ouve o disco, pois pede uma paciência que as outras onze não exigem, e nem todo mundo topa dar esse tempo a Kelela.
“linknb” dura pouco mais de um minuto e meio, e é a única faixa verdadeiramente rápida do disco. Um baixo mais sombrio, quase gótico, e uma batida suave e programada, que lembra muito o repertório recente da artista. É citada com frequência pela crítica como um dos pontos mais altos do disco, talvez porque seja também o único que não pede mais tempo para ser apreciado, como nas faixas anteriores.
O trecho final do disco funciona como um arco só. “don’t piss me off” aborda raiva na letra, mas representa um novo tipo de minimalismo house, nunca deixando a fervura transbordar. “new life forms“, com Fousheé, funciona como o intervalo mais leve; uma fuga de praia e flertes sem peso. O único momento em que new avatar se permite ser mais despretensioso.
Na sequência, “the bridge” — segunda parceria de Kelela com PinkPantheress — é a faixa mais afetuosa do álbum. As batidas e a letra lembram duas pessoas voltando pra casa de madrugada após uma festa, com o vidro do carro embaçado, e sintetizadores suaves por baixo de uma batida drum’n’bass. Toda essa atmosfera empurra o disco pro único momento de euforia sem ressalvas. É como se, depois de dez faixas processando uma perda, ela finalmente se desse permissão de sentir algo bom de novo, sem pedir desculpa por isso.
“if we meet again” interrompe essa euforia de propósito, não com drama, mas com quietude: reduz tudo a poucas notas e a um vocal quase sussurrado. Ela não briga, não implora, não finge que dói menos do que a realidade. Só recusa carregar a culpa sozinha. Não é o final feliz que “the bridge” prometia dois minutos antes. É melhor: um final em que ela sai inteira.
A crítica recebeu o disco quase em uníssono: 86 no Metacritic, com elogios descrevendo-o como a obra de uma artista que já não precisa provar mais nada a ninguém. Aos 43 anos, Kelela ainda relembra a sensação de ter começado tarde demais. Antes de gravar Cut 4 Me, contou ter vivido uma crise existencial, convencida de que talvez nunca alcançasse o lugar que imaginava para si. O disco mais rápido de sua carreira, então, não nasce de uma urgência. Nasce justamente do trabalho de alguém que finalmente parou de negociar com esse atraso. Quando a guitarra toma o lugar dos sintetizadores neste disco, ela não está anunciando uma reinvenção radical, mas lembrando que sempre existiram outras versões dela esperando para aparecer.
Poucos artistas conseguem envelhecer dentro do próprio som, sem parecer presos a ele. Kelela continua sendo uma dessas exceções. E este talvez seja o primeiro disco da sua carreira que soa menos preocupado em apontar para o futuro, do que em mostrar que ela finalmente encontrou o seu próprio tempo.








