Crítica | Pinóquio de del Toro esculpe amor e laços como nada visto antes

Pinóquio, esperado mergulho de Guillermo del Toro no stop-motion, é a resposta ideal para reaproveitar um clássico
Guillermo del Toro’s Pinocchio – (Pictured) Pinocchio (voiced by Gregory Mann). Cr: Netflix © 2022

Como você pode tornar um clássico melhor? Parece não haver receita para fazer com que uma obra original seja superada por uma nova versão, na verdade, em uma alta porcentagem dos casos, isso é praticamente inviável e raramente chega a acontecer.

Não há receita para incrementar algo que já é bom. Algumas vezes a tentativa é válida — mesmo que na maioria das vezes o resultado pareça evidenciar o oposto. A sensação que chega a ficar é a de: era melhor não mexer com quem estava quieto.

Felizmente, com a maior fineza do mundo, as primorosas mãos de Guillermo del Toro tocam o irreparável conto “Pinóquio” em uma variante bravamente intitulada “Pinóquio por Guillermo del Toro,” que nos faz repensar toda essa questão de original e novo. Aqui, positivamente, é claro, já que o longa animado pode ser considerado amor em sua fase mais pura.

A animação musical em stop-motion é erguida historicamente como a fábula atemporalmente conhecida, mudando, principalmente, a maneira que ela é contada, fazendo o espectador desejar pegar o grupo principal de personagens e mantê-los aquecido sob a luz de uma lareira. Cada cena nos toca de uma manera quse íntima e diferente, e essa é a maior arma de del Toro aqui.

Crédito: Netflix (2022)

Há algum tempo não era possível encarar um estudo de personagens em que a atenção ficasse totalmente voltada para desnudar aquela ideia de que o que há em tela, é algo fictício. Se tem algo que o filme não quer ser, é irreal. E que lição espetacular é colocar em primeiro plano o personagem de Pinóquio simplesmente vivendo. O aproveitamento da narrativa em fazer o personagem entender que o mais importante da vida são os laços que esculpimos é tão humano como a madeira que o constrói.

O interior da obra de del Toro guarda tanto amor que é possível sentir que Pinóquio ganha vida e aprende o que é ser mortal ao nosso lado. Os laços que o garoto constrói passam instantaneamente a serem verídicos como nada visto antes para a história já contada algumas vezes.

Em termos técnicos, não é preciso descrever a potência da arte que a animação é. A composição de cenários, personagens e sequências encantam por dois motivos: por ser mágico e por acreditar no que coloca em prática.

O mundo de “Pinóquio por Guillermo del Toro” respira como uma floresta cheia de vida. Parte responsável por isso são as músicas. As canções originais aqui acrescentam o tom que a história necessita para a estrutura do roteiro ser algo novo. A trilha sonora com assinatura de Alexandre Desplat possui resquícios maravilhosos da de “A Forma da Água”, tornando tudo ainda mais mágico.

A devoção em tornar Pinóquio um garoto de verdade consegue tocar em todos os tipos de coração. A versão da fábula que Guillermo del Toro conta é um arranjo de melancolia e satisfação para qualquer tamanho de público. É uma peça única na filmografia do cineasta que reverbera lealdade, apreço e vida como nenhuma outra obra sua, e com isso, cria seu prórpio lugar na lista de películas a serem revistas através do tempo.

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