Crítica | Ethel Cain, “Preacher’s Daughter”

Hayden Silas Anhedönia — ou Ethel Cain — tem apenas vinte e quatro anos, mas a vivência e as lembranças sobre sua infância e adolescência parecem reflexos de tempos muito mais longos. Esses mesmos reflexos se tornaram reflexões profundas sobre quem ela é e o que se tornou. Mesmo com pouca idade, é possível perceber o quanto traumas, sensações de não pertencimento e princípios se tornaram o núcleo de sua arte, pois é a partir desses indícios que podemos começar a arranhar a superfície para descobrir o quanto ela tem para nos mostrar.

Há tanto para (tentar) ser compreendido que a criação de uma persona se prova o melhor recurso para apresentar sua essência. Mas por qual motivo o nascimento de Ethel Cain se faz necessário para elucidar tanto sobre Hayden? Qual o exato poder que uma tem ou não sobre a outra, e é possível dois elementos convergirem tão bem sem perder sua singularidade?

As respostas para essas perguntas levam uma hora e quinze minutos para serem respondidas, mas o desenlace é tão satisfatório que a vontade é esquecer completamente cada dúvida sanada apenas para poder caminhar sobre suas conclusões novamente, como se fosse a primeira vez.

Tentar encapsular a narrativa de Preacher’s Daughter como somente um trabalho sobre gerações e perspectivas sobre a vida pode ser tentador, já que essa convicção — mesmo que limitada — é o bastante para despertar o interesse e assim servir como uma porta de entrada, uma sinopse simplória sobre o foco do trabalho.

Contudo, a partir dos primeiros minutos é possível se ver tão abrigado por esse convite que é praticamente impossível não ir além e desbravar. É assustador perceber que a cada nota de guitarra em ‘Family Tree’ a canção parece traçar um caminho cada vez mais pesado, e este peso se torna cada vez mais hipnotizante em cada passagem de seus sete minutos.

A mesma sensação pode ter sido concebida antes em ‘A House In Nebraska’, e é por aí que o vemos o traçado de uma linha mortal: o que vier em seguida será como o ouvido no princípio, porém a impressão de densidade se torna tão inerente que não existe mais leveza, não há mais um lugar seguro. Continuar sua jornada é se permitir chegar em um âmbito tão opaco que a única transparência só está em como cada palavra é proclamada.

O ponto mais alto está em seu encerramento; ‘Strangers’ é de uma melancolia tão significativa para onde se encontra, que mesmo ainda sendo tão rígida quanto as outras, é onde temos o maior vislumbre de esperança — vinda do aspecto mais macabro possível.

Teeth Magazine / Ethel Cain (reprodução)

A duração do disco pode ser considerado um desafio por si só, e é sim necessário paciência para ir do começo ao fim. Não basta apenas ser paciente, é dever também estar aberto sentimentalmente para absorver de forma justa as emoções expostas.

Isso pode ser visto como um problema por alguns, mas a abundância de verbos de Ethel Cain se faz um ponto chave para enriquecer seu discurso. O visual gótico sulista é o apoio perfeito para as produções assinadas pela própria artista, e apesar dos tons quentes e ensolarados tudo soa e parece frio.

A existência de um novo ser serve para traduzir o que Hayden quer dizer. Não existe uma batalha travada entre as duas personas, e sim um permitir para que pontos específicos sejam tocados de forma destemida. Criar uma persona aqui não é motivo para escapar de lidar com temas tão traumáticos, mas sim a forma mais crua de guiar qualquer pessoa em um viagem tão sinistra que se torna puramente soturna, onde ouvir é se atordoar a cada minuto.

Nota: 90/100

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