Crítica | She-Hulk entrega temporada inteligente, autocrítica e certeira

Foto: She-Hulk / Marvel / reprodução (2022)

She-Hulk (ou Mulher-Hulk, como foi adaptado no Brasil) tinha dado sinais que poderia ser uma das séries mais criticadas do MCU, mas a maior surpresa é que ela não só não cumpriu esse pensamento prévio, como também o contrariou completamente sendo uma, senão a melhor série da Marvel apresentada até agora.

Em 9 episódios a história de Jennifer Walters (Tatiana Maslany) permeou o melhor do humor, da inteligência e da sagacidade da Marvel. Desde seu início, a série colocou sua protagonista muito além do local de personagem principal, a estabeleceu como dona de sua narrativa — e concluiu sua primeira temporada a coroando como dona de sua própria série.

Usando de forma extremamente certeira a quebra da quarta parede, a produção aproximou-se brilhantemente do seu espectador. O recurso, junto do carisma e talento de Tatiana Maslany, permitiu que a série fizesse piada consigo mesma, cutucasse a forma da própria Marvel Studios construir suas histórias e até mesmo ousou “atacar” os fãs menos abertos às mudanças.

Foto: She-Hulk / Marvel / reprodução (2022)

Um vilão que não faz parte só do Universo da Marvel

A personagem principal evoluiu brilhantemente durante os episódios e lutou muito contra a possibilidade de ser vista como uma heroína, tanto que seus poderes estão muito mais presentes como chamariz profissional, enquanto advogada, do que para salvar vidas.

Jen entra em conflitos constantes com a forma que é aceita socialmente enquanto humana e como She-Hulk. Algo que é presente em seu espaço profissional, na vida amorosa e até mesmo entre amigos.

Entre a defesa de um herói ou anti-herói aqui e acolá, She-Hulk entregou pinceladas de um possível vilão interessado nos poderes da prima de Bruce Banner (Mark Ruffalo). A cada episódio, um sinal de que o inimigo estava se movimentando era pontuado, mas a grande genialidade da série é que o vilão está presente em nossa realidade e mais que isso, ele é parte dos próprios fãs da Marvel.

Neste ponto, vale ressaltar a grande importância de uma produção que nitidamente teve uma equipe de mulheres por trás de seu desenvolvimento. O roteiro de Jessica Gao é brilhante em moldar uma história em que o real vilão nada mais é do que o machismo e a misoginia. 

Sendo ela comum ou possuindo superpoderes, a protagonista enfrenta os mesmos problemas: a sexualização pela mudança corporal, a desvalorização profissional, o assédio e até mesmo o “incômodo” dos fãs em aceitar personagens femininas mais poderosas e superiores aos personagens masculinos.

O uso de Bruce Banner como coadjuvante aqui, cai muito a calhar para uma crítica extremamente direta e pontual aos nerds aficcionados às HQ’s que, não importa quantos anos tenham se passado, ainda não entenderam o real conceito de tudo que foi desenhado e criado pela Marvel. 

Tatiana Maslany conduz brilhantemente essa história em que seu maior inimigo está presente dentro e fora das telas. O próprio roteiro, exemplifica bem o comportamento machista, em que muitas vezes o espectador questionou como grande vilãs, as personagens Titania (Jameela Jamil) e até mesmo de Nikki (Ginger Gonzaga), melhor amiga de Walters – demonstrando aqui um condicionamento à constante rivalidade feminina.

She-Hulk critica o formato, mas ainda usa a fórmula

She-Hulk foi extremamente sagaz e inteligente em como conduziu seu último episódio, deixando muitos fãs empolgados com o poder de suas críticas. A produção entregou um episódio final que levantou grandes questionamentos dos fãs, mostrando que o estúdio está atento a isso e as críticas também.

Jen Walters aborda abertamente o orçamento gráfico das produções (algo que foi criticado no CGI de sua própria série), a entrada dos X-Men no MCU, batalhas grandiosas sem propósito e até mesmo a fórmula desgastada do gênero do estúdio, algo que muitas vezes ele parece não querer deixar de lado.

Porém, mesmo entregando todas essas autocríticas, de forma muito inteligente e bem humorada, a Marvel Studios ainda utiliza de artimanhas já conhecidas em seu formato e entregar os easter eggs e detalhes sobre suas próximas produções – aqui vale a menção à cena pós-créditos do 9º episódio. 

She-Hulk pode não ser impecável, mas marca uma aproximação entre as produções da Marvel e seus fãs, que ao ver muitas de suas próprias falas na boca de Jennifer Walters, se sentiram ouvidos ou minimamente representados e demonstra pelo menos uma tentativa do estúdio de sacudir um pouco o que produz e talvez até a vontade de se afastar um pouco do seu formato já batido do gênero nas próximas produções de seu calendário. 

Assista She-Hulk no Disney+

98/100

Por Thiago Santos

Jornalista não praticante, ator em formação, social media e criador de conteúdo. Se eu pudesse viveria um pouco em cada série que assisto, mas como não posso, tiro delas as melhores músicas e as mais intensas reflexões.


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