Apesar de apressado, “Song Sung Blue” emociona pelo sonoro

Cinebiografia baseada em fatos reais, embalada por músicas de Neil Diamond, aposta na nostalgia sonora para contar uma história de amor, dedicação e pertencimento

Neil Diamond é uma lenda da música popular americana e teve seu auge entre o fim dos anos 1960 e o início da década de 1980. Dono de uma carreira marcada por hits que atravessaram gerações, ele ajudou a moldar um pop-rock que hoje se tornou símbolo. Para além das paradas de sucesso, Diamond se consolidou como um ícone cultural e um artista que continuou relevante mesmo após se afastar dos palcos. É nesse contexto afetivo que Song Sung Blue, mesmo que de forma indireta, decide nos introduzir.

Dirigido por Craig Brewer, Song Sung Blue (no Brasil, Song Sung Blue: Um Sonho a Dois) mergulha de cabeça na obra de Neil como ponto de partida emocional. Mas, mais do que uma celebração musical, o filme — baseado em uma história real retratada no documentário homônimo de 2008, dirigido por Greg Kohs — se propõe a contar a trajetória do casal mais conhecido de Milwaukee: Mike e Claire Sardina, aqui interpretados por Hugh Jackman e Kate Hudson. Ambos músicos com aspirações grandiosas, eles encontram propósito ao formar uma banda tributo a Neil Diamond — a icônica Lightning & Thunder (Relâmpago e Trovoada, em tradução livre) — uma escolha que transforma radicalmente a vida artística e afetiva dos dois.

No documentário acompanhamos Mike e Claire em uma rotina marcada por apresentações em bares, festas e eventos comunitários, onde o vínculo entre público, música e identidade se constrói de forma orgânica. Mais do que imitadores, eles se tornam mediadores de uma memória coletiva: cantar Neil Diamond é, para eles e para quem assiste, revisitar um afeto na busca de um propósito maior. O longa de Brewer tenta capturar essa essência, ainda que opte por uma abordagem mais condensada e dramatizada, sacrificando parte da intimidade observacional que o documentário oferece em favor de uma narrativa mais clássica de cinema.

Tecnicamente, Brewer escorrega ao não dar à encenação musical a atenção que um longa desse porte exige. Falta, em alguns momentos, a imersão necessária tanto para sustentar o tom dramático quanto para potencializar o impacto emocional das canções. Se tratando de Neil Diamond, sabemos que sua obra carrega um peso quase automático; ainda assim, para quem tem pouco ou nenhum contato prévio com seu repertório, o filme pode causar certo estranhamento ou até uma dificuldade inicial de conexão. Apesar disso, Song Sung Blue constrói sua narrativa de forma gradual e confia na sensibilidade do espectador para caminhar junto com os acontecimentos. E, no fim das contas, funciona.

Hugh Jackman não é novato em musicais. De Oklahoma! nos palcos de Londres a Os Miseráveis (2012), até O Rei do Show (2016), o ator demonstra domínio técnico e conforto absoluto nesse tipo de entrega. Já Kate Hudson vive um momento distinto de sua carreira: em 2024, lançou Glorious, seu primeiro álbum de inéditas, marcando uma transição consciente para o território musical. O disco começou a ser escrito após as gravações de Glass Onion (2021), motivado por um desejo de não acumular arrependimentos criativos — a sensação de que poderia “ficar tarde demais” para tentar algo novo. Hudson também esteve em Music (2021), onde interpretou Zu, ainda que aquele projeto não a colocasse exatamente como uma cantora em primeiro plano.

A sintonia entre os dois em cena é inegável. Claire Sardina exala carisma e rapidamente conquista o público, enquanto a dinâmica do casal sustenta o coração emocional do filme. Ao interpretarem canções como “Forever in Blue Jeans”, “Play Me” e a eternamente atemporal “Sweet Caroline”, Jackman e Hudson não apenas performam: eles ressignificam essas músicas dentro da narrativa, devolvendo a elas um tom um tanto quanto humano.

 O auge de Neil Diamond coincide com uma era em que artistas como Elton John, Billy Joel, Carole King e Simon & Garfunkel dominavam as paradas equilibrando popularidade e identidade autoral. Era um período em que a música pop ainda carregava sua assinatura, e Diamond se destacava justamente por falar de sentimentos universais sem pudor. Amor, frustração, pertencimento, esperança de dias melhores. Song Sung Blue bebe diretamente dessa fonte, usando esse contexto histórico como pano de fundo emocional para reforçar a ideia de que aquelas canções não pertencem apenas a uma época, mas a pessoas comuns que continuam encontrando nelas um espelho. Mike e Claire são o reflexo dessa parte aquém da fama, um casal que encontrou na música um propósito — ainda que emprestada.

Song Sung Blue entra no hall das cinebiografias musicais com clareza sobre o que deseja ser: um elo emotivo e universal entre um casal de intérpretes de Milwaukee e seu amor por um dos maiores nomes do rock popular. A identificação final mora nessa entrelinha entre artista e intérpretes, provando que arte pode ser complementar e abrangente o suficiente para ser sentida por cada um.

75/100

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