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Crítica: “Urucum” – Karol Conká

Com o nome de um fruto que serve como anti-inflamatório, o novo álbum da artista é montado a base de confissões e reflexões

Com uma caminhada árdua de se acompanhar durante o programa (e que hoje é cada vez mais polarizada), Karol Conká dentro da casa mais amada e odiada do Brasil foi sem dúvida um acontecimento no entretenimento televiso recente. Diante de falas difíceis de engolir e sequer assistir, o ibope que essa situação em si ganharia era como um difusor em meio a águas já para muitos, turbulentas. Mas e após? O benefício da dúvida diante dos fatos mostrados era não válido para alguns, e todas as questões que ela levantou, sejam ruins ou não, inflamaram e agora ganharam uma nova face, onde todo o debate envolvendo a índole da artista pôde sossegar — ao menos um pouco.

Imagem: Jonathan Wolpert/ Divulgação

Era preciso que ela se repaginasse por inteira, e isso não serviu como uma breve crítica, mas sim um alerta. Entendido e feito, a representação de que Conká era “uma nova mulher” começou através do que ela faz melhor: música. “Dilúvio” deu início a uma nova sobrevida, que agora ganha uma reflexão ainda maior em Urucum (uma fruta nativa da América tropical com propriedades anti-inflamatórias e antioxidantes), terceiro compilado de estúdio que chegou em março de 2022.

Propagar o que passou usando todo aquele combustível de combatente é no novo projeto não o plano de fundo, mas sim tudo o que motiva o trabalho a andar. As faixas possuem como principal substância um propósito que vai além de sua própria existência; aqui, o turvo oceano sobre o enxame de dedos apontados ganha uma respiração ansiosa por uma unção de ritmos e instrumentos mixados com vigor. “Respeito sua opinião, tudo que foi vivido não foi em vão”, recita a rapper na balanceada “Cê Não Pode”.

O recado é mais que objetivo: ela agora não carece mais com o que falaram ou falam, mas para enxergar além desse instinto sinestésico, foi preciso compreender como todo aquele dano corrosivo a transformou em uma outra pessoa. Em formato musical, “Vejo o bem” retrai isso com excelência, o lirismo quase básico sobre seguir em frente é delicioso de se apreciar.

Mesmo que em um certo ponto soe repetetiva, toda a produção diante de ritmos da Bahia e a nova estética, funcionam como uma personagem elegante e extremamente poderosa, não é como se esse terreno fosse algo novo pra ela. Vendo a proposta apresentada e o tecnicismo prezado com afinco, sente-se que as pessoas por trás disso usam de uma carga confessional com muito cuidado. Isso gera uma gama de intuição presente nas ondas a se navegar, que responsáveis por tornar as canções vivas, prezam Conká como uma profissional única. Tópico esse muito primoroso de se ver agora, ainda mais perante um projeto que funciona para muitos como mais um motivo para os “colecionadores de deslikes”.

Imagem: Jonathan Wolpert/ Divulgação

“Fuzuê”, que abre o disco com um berimbau em foco espetacular, “Slow”, “Subida” e “Louca e Sagaz” (em parceria com WC no Beat), que aparecem no encerramento, são simplesmente os melhores batimentos de todo o registro. É sim possível destacar a ênfase nos porques que as tornam cada uma faixas excêntricas dentro da tracklist, mas o resultado é tão recompensador que talvez compense mais cair de cara sem saber de nada.

Não é preciso mais dar uma chance para Karol Conká, ela mesma fez isso por si. E como muitas vezes a arte surge da dor, Urucum não só serve a este propósito como também o proclama em voz alta, isso porque a sua criadora decidiu resplandecer tal pensamento com a mão no coração, dizendo: “Eu sinto em te dizer, não dá mais pra esconder / Aquele dano não existe mais”.

Nota: 75/100

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