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Entrevista: Daparte e o pop gostosinho de “FUGADOCE”

Cinco anos depois do lançamento de seu álbum de estreia, a banda mineira consolida sua sonoridade com FUGADOCE, seu mais novo trabalho.

“FUGADOCE”, novo lançamento da banda mineira Daparte, foi construído ao longo dos últimos três anos, e passa, em suas treze canções, um pouco das mudanças do quinteto nesses tempos. O disco mistura baladas reflexivas com canções alegres e alto astral, sendo assim uma fuga de todas as bads para os sentimentos good vibes que estão por vir.

De Belo Horizonte, a Daparte é composta por Bernardo Cipriano no teclado e Daniel Crase na bateria. Os vocais e as guitarras ficam por conta de João Ferreira e Juliano Alvarenga, filho de Samuel Rosa, vocalista da banda Skank. Túlio Lima, também conhecido como “Cebola”, é o responsável pelo baixo da banda.

Para saber mais sobre FUGADOCE, o esc* conversou com a Daparte sobre pirulitos, hipsnoses e Diego Maradona:

Crédito: Rafaela Urbanin / Edição: Diego Stedile

ESC: Desde o “Charles”, disco de estreia de vocês, a sonoridade da Daparte mudou um cadinho. O que rolou nas experimentações de vocês de lá pra cá?

João Ferreira: “Charles foi gravado em 2017 e lançado em 2018. Tudo foi composto em 2016 e 2017, quando a gente ainda estava no ensino médio. Essa foi nossa primeira experiência fazendo um trabalho conciso, gravando em um estúdio. Hoje em dia a gente tem em mente algumas coisas que a gente não tinha na época, até porque a gente não sabia em que ponto a gente poderia chegar enquanto banda, enquanto artistas, fazendo o que a gente curte.

Então nós fizemos tudo sem muita pretensão, juntamos as músicas que cada um tinha composto individualmente e compusemos outras em coletivo, gravamos do jeito que queríamos e achávamos legal e soltamos sem nenhum plano de marketing. A gente saía por aí falando que tinha lançado um disco, rolou um show de lançamento, mas nada muito fancy. Só que as coisas começaram a mudar depois de 2018, começamos a ter fãs, as pessoas começaram a curtir nosso som além dos nossos amigos, e isso por si só já muda muito nossa cabeça, nossos objetivos, nosso imaginário. Ao mesmo tempo começou a aparecer um tanto de artista em Belo Horizonte e no Brasil, como um todo, que ressonava com o tipo de coisa que a gente buscava e isso abriu mais opções, sonhos, patamares a serem alcançados e que agora se mostravam possíveis.

Então foram cinco anos, mais ou menos, de crescimento pessoal – teve a pandemia, inclusive, que mudou muito a nossa cabeça. O mercado mudou, a banda cresceu dos 17 aos 23 anos. Muita coisa aconteceu em cinco anos, então a banda, como um reflexo do nosso interior individual e coletivo, foi mudando a partir das nossas mudanças pessoais.

Juliano Alvarenga: Nós amadurecemos muito nesse tempo e usamos muito do Charles para sacar qual era a nossa pegada, o que conquistava os fãs, a plateia, o que funcionava mais, o que não funcionava… A partir disso começamos a ver os “erros”, que na verdade não são erros, que nos levaram a descobrir coisas que talvez fossem mais interessantes para nós enquanto músicos querendo conquistar o mercado, querendo ter fãs, querendo fazer shows em outras cidades. Pegamos as nossas três músicas mais populares do Charles, “Acidental”, “Aldeia” e “Guarda-Chuva” e seguimos mais por esse caminho do que pelo caminho das outras faixas do disco. Descobrimos que o som dessas composições era mais a nossa cara, o que foi ótimo porque conseguimos firmar melhor nossa identidade no nosso segundo disco, o “FUGADOCE”.

ESC: Como vocês bem falaram, muito tempo passou entre o lançamento dos dois álbuns de Daparte. As inspirações de vocês mudaram?

Juliano: Uma referência que foi fundamental para a época em que a gente estava compondo as músicas, criando nossa sonoridade – e até mesmo um pouco das letras -, foi o Rex Orange County. O cara compõe músicas mais melódicas, nem tão faladas. Posso até dizer que tem algumas coisas ali que lembram um pouco a bossa nova ou até mesmo o samba em alguns arranjos que ele faz. O Rex costuma trabalhar com acordes com sétima, sétima maior, que é uma coisa que traz esse gingado da bossa nova, junto com uns metais, umas flautas. Ele é um cara que a gente viu como um artista de fora que estava conquistando nossos amigos, nossa galera, e ali a gente viu que a gente poderia tentar fazer algo legal assim como o que o Rex faz. Dali começamos a compor um som pop, que seja bom de ouvir, que as pessoas vão querer cantar. “Iaiá”, por exemplo, tem bastante influência do trabalho do Rex Orange County.

Outra inspiração é a banda Sticky Fingers. Vi um show dos caras no festival Planeta Brasil e fiquei surpreso porque eu não imaginava que BH tinha tanta gente consumindo um show de rock. O estilo do Sticky Fingers segue uma linha do raggae rock, mas o show deles é bem rock n’ roll. Ali a gente viu que a gente tinha que surfar nessa onda, e o som dos caras entrou nos arranjos mais recentes, já que a referência do StiFi veio um pouco mais tarde. A gente conseguiu se espelhar em alguns pontos de timbre, arranjo e, principalmente, de teclado, já que os do StiFi são bem bacana. O jeito que o Dylan, vocalista do grupo, tem de cantar traz uma identidade muito forte – o que acaba virando uma escola.

Crédito: Rafaela Urbanin / Edição: Diego Stedile

Falando de referências nacionais, não tem como negar que a gente gosta de Skank, né? A gente é fã mesmo, consome muito e usa bastante. Não que a gente tenha pego alguma coisa ou outra, mas não deixa de ser uma escola, né? “Seu Endereço”, nosso último single, tem uma pegada um pouco Skank, uma coisa meio reggae, meio pop. Outro nome é Jorge Ben. “Você Gosta Dela” é a cara dele, com aquele refrão malandro, uma coisa meio carioca… Já disseram que essa era a música que o Jorge Ben gostaria de ter feito.

O Cebola, o Daniel (Crase) e o Bê gostam mais de Los Hermanos do que eu e o João, mas acho que dá pra dizer que tem um pouco deles no nosso som. O João provavelmente vai citar os Beatles como inspiração, mas eles são uma referência para todo mundo que faz música pop.

JOÃO: Uma coisa que mudou meu estilo de escrita, enquanto letrista, foi conhecer mais a fundo, entre o Charles e o FUGADOCE, o trabalho do escritor Ernest Hemingway, que escreve direto e reto, e do Valter Hugo Mãe, que eu conheci nesse meio tempo. 

ESC: Diferentemente do Charles, em que vocês compartilhavam o vocal entre os cinco integrantes da banda, no FUGADOCE só vocês dois pegam no microfone. Qual o motivo dessa decisão?

Juliano: Foi uma escolha orgânica para a gente firmar nossa identidade, já que poderia ser um pouco confuso para as pessoas entenderem o som da Daparte. A gente pensava que a banda ficava um pouco perdida, e isso incomodava um pouco. Eu e o João estávamos muito parceiros nas composições, fazendo muita coisa juntos, e as músicas foram se fechando naturalmente em um estilo nosso. Os meninos foram completando as composições com os arranjos de cada um.

ESC: Aproveitando esse gancho das outras vozes, o FUGADOCE conta com duas parcerias – uma com a Lagum e outra com o Zé Ibarra. Como foi trabalhar com esses artistas?

João: Foi muito massa trabalhar com os meninos porque, antes de qualquer coisa, eles são nossos amigos. Conhecemos o Zé Ibarra há bastante tempo, chegamos a fazer um show juntos antes mesmo do lançamento do Charles. Sempre tentamos nos encontrar quando vamos pro Rio ou quando ele vem pra BH. Também somos muito próximos da galera da Lagum, essa amizade sempre rolou. Uma das primeiras bandas que eu tive, inclusive, foi com o Glauco (Jorge, guitarrista da Lagum), lá em 2011. O Pedro (Calais, vocalista) ia aos shows como amigo da banda. Na época ele nem cantava!

Uma coisa que pensamos para esse disco foi chamar gente que fez parte da nossa história como músicos e como banda. Logo de cara já pensamos na Lagum e, em seguida, no Zé, que é um cara que tem uma voz muito bonita e que caberia muito bem na estética que a gente queria para “Pescador”. Essa é uma composição minha, o Zé só veio para BH para gravar e tudo mais. A coisa foi bem parecida com a Lagum, mas com a exceção de que “Nunca Fui Desse Lugar” é uma composição do Júlio Anfer, um amigo em comum das duas bandas. Essa é a única faixa do FUGADOCE que não é composta por um integrante da Daparte.

“Nunca Fui Desse Lugar” já era uma faixa conhecida pela Lagum, adorada pelo Pedro por muito tempo. Os caras queriam colocar essa faixa no último disco deles, “Coisas da Geração”, só que acabou não indo para a frente. Então a música caiu no nosso colo e, como a Lagum gosta muito dessa composição, decidimos chamar a galera para gravar com a gente. O Pedro pirou na ideia e ficou super entusiasmado, e por isso foi super empolgante gravar o clipe. Nós nos reunimos depois de muito tempo sem encontrar todo mundo.

ESC: Quais são as apostas de vocês pro disco?

Juliano: Estava conversando com a minha irmã mais cedo e disse que FUGADOCE tem boas músicas de trabalho. Isso significa que, se a Daparte fosse uma banda nos anos 90, a gente teria que escolher três ou quatro faixas para postar na rádio. Lançar uma, depois trabalhar, depois lançar outra e trabalhar mais, em seguida lançar outra e por aí vai. Eu acredito que “Você Gosta Dela”, “Iaiá” e “Nunca Fui Desse Lugar” são três músicas com muito potencial e que pegam as pessoas com uma facilidade legal.

Em paralelo, algumas músicas do disco surpreenderam a genta. “Segundas Intenções” é uma música que as pessoas gostam bastante, “Calma” performou bem nos serviços de streaming. A nossa aposta é, sem dúvida, “Você Gosta Dela”. É a primeira música do disco, foi lançada como single, veio com um clipe maneiro e por isso a gente vem trabalhando muito em cima dela. “Você Gosta Dela” mostra muito da nossa identidade, das nossas referências. Quanto às outras faixas, a gente não botou tanta expectativa porque elas são músicas de disco mesmo, né? “Cláudia”, “Queria Eu”, “Carnaval” e “A Noite” são faixas que eu não apostaria para virar as músicas mais tocadas, mas vai que, né? 

ESC: É verdade que “Cláudia” é inspirada na Cláudia Villafañe, ex-esposa do Maradona?

João: Cara, é (risos).

Juliano: A gente gosta muito do Maradona. Li um livro dele em que ele falava que ficava observando a Cláudia da varanda. Falei isso com o João no período em que ele estava compondo e daí ele quis falar de um caso de uma viagem que ele fez. Aí juntou essa coisa toda, e no fim a gente fala de uma caso que não existe né? “Da pedra do Arpoador/ eu ando à pé um quarteirão”… Isso não aconteceu, mas a homenagem é para a Cláudia.

João: Na verdade eu quis criar cenas que fossem fáceis de imaginar, que remetessem a verão, romance, pressa, fuga… Mas sim, a gente homenageia a Cláudia.

ESC: Afinal, de onde vem o nome FUGADOCE? Por que ele é estilizado dessa forma?

João: Esse álbum já teve vários nomes; o primeiro de todos foi FUGADOCE. A gente rodou, rodou e voltou para FUGADOCE. É um nome que representa a ambivalência do álbum de uma forma bem legal. Várias músicas tem uma temática de fuga, extravasar dessa realidade, escapar um pouco do agora e partir para uma outra ocasião, um outro sentimento, mas de uma maneira sutil, leve, doce. Simboliza a dualidade do disco de ter essa urgência de uma fuga, mas de ter, ao mesmo tempo, sutileza e doçura. Então a gente quis juntar essas duas palavras da mesma maneira que Daparte é uma palavra junta, uma terceira palavra que nasce de uma junção de outras duas. 

Da esquerda para a direita: Juliano Alvarenga, Daniel Crase, Bernardo Cipriano, Túlio Lima e João Ferreira. Crédito: Rafaela Urbanin / Edição: Diego Stedile

ESC: Como vocês descreveriam a sonoridade desse disco para os leitores que ainda não conhecem a banda?

João: Feito pra dançar chorando.

Juliano: Eu colocaria uma geleia de morango no café da manhã com um chá e um biscoito.

João: Uma geleia de morango com pimenta e um biscoito de couve.

ESC: Não sei se é por causa do pirulito do clipe de “Você Gosta Dela”, mas eu sinto uma vibe realmente doce no álbum.

João: A gente trabalha com mensagens subliminares e hipnose não requisitada, manipulação do subconsciente alheio.

ESC: É por isso que você estuda Psicologia, João?

Juliano: Sim, é por isso que o cara faz psicologia. Ele quer dominar o mundo

João: Manipulação através de pirulitos. Sabe aquela babinha da última cena do clipe? Agora, toda vez que você ver esse pirulito, você vai lembrar do clipe. Foi tudo pensado.

ESC: Para finalizar, quais recomendações musicais vocês querem dar para os nossos leitores?

Juliano: Quero indicar uma banda de São Paulo que chama O Grilo. Acho que o Brasil está precisando de um pouco mais de público para esse lado da música alternativa nacional, com um pouco de rock. Eu gosto de como eles botam o rock nas músicas com uma certa brasilidade. 

João: Tenho duas recomendações; a primeira é uma banda chamada The Marias. Os caras cantam em inglês e espanhol de uma forma bem doida, com um pouco de pop e hip hop, numa onda bem legal. E queria também, é claro, indicar nosso novo disco, FUGADOCE. Não podia deixar passar essa oportunidade, né?

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