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Crítica | 25 anos de “Evil Empire” do Rage Against the Machine

“Evil Empire”, segundo álbum do Rage Against the Machine, pavimentou o caminho que foi trilhado pelos trabalhos seguintes da banda.

Os anos 1990 condensam memórias marcantes na história musical – no rock, as bandas de Seattle se estabeleceram como pivôs do grunge e do rock alternativo. Fora do circuito do noroeste dos Estados Unidos, a banda Rage Against the Machine lançava seu álbum de estreia homônimo em 1992.

A banda californiana causou um impacto na cena musical não apenas pelo som pesado e guitarrudo (termo usado pela crítica musical Dora Guerra) das canções que ficam no limbo entre o metal e o rap, mas também pela “agressividade” da capa do disco (o monge Thích Quảng Đức em chamas, após atear fogo em seu próprio corpo) e pelo teor político de suas letras. “Killing In the Name” e “Take the Power Back” se estabeleceram como as canções mais reproduzidas, fazendo com que o disco chegasse ao 45º posto do Top 200 da Billboard e classificado, anos depois, como um dos 50 Álbuns Mais Pesados de Sempre pela Q Magazine

capa do evil empire
“Crime Buster”: arte de Mel Ramos que inspirou a capa de “Evil Empire”

Depois de um sucesso inesperado – e que colaborou para um boom de novas bandas californianas nos anos seguintes -, Rage Against the Machine lança seu segundo álbum. Se a banda já havia conseguido atrair a atenção do público com seu álbum debut, foi com “Evil Empire” que o grupo se consolidou com sua sonoridade autêntica, rude e irreverente.

O nome do disco faz referência ao termo usado pelo ex-presidente estadunidense Ronald Reagan para se referir à União Soviética (“Império do Mal”). Comentários políticos também são feitos na capa do disco, que apresenta a imagem de um menino em um corpo de super-herói. A banda se muniu da obra “Crime Buster” (“Destruidor do Crime”), do artista Mel Ramos, para referenciar a imagem de uma américa à qual os integrantes são contrários: uma nação arrogante, branca e retratada como heroína, enquanto seu interior é repleto de intenções sombrias.

Não é preciso indicar que certo aspecto dos trabalhos da banda contém cunho político – isso é um fato onipresente nos trabalhos do RATM que não se esconde em minúcias. A indicação, nesse caso, deve ser apenas de seu contexto, que nem sempre é claro para todos os ouvintes. Nomes, capas, faixas e pronunciamentos à parte, Rage Against the Machine causou um alvoroço na televisão brasileira com sua performance no festival SWU, realizado em 2010, na cidade de Itu.

Ao performar a canção “People of the Sun”, faixa inicial do “Evil Empire”, o guitarrista do grupo, Tom Morello, vestiu um boné do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). Em seguida, o vocalista, Zack de la Rocha, dedicou a canção para “todos os irmãos e irmãs corajosos do MST”. Esses dois atos foram suficientes para que a transmissão ao vivo do evento, realizada pela Multishow, fosse cortada pela Rede Globo, empresa que detém os direitos de suas afiliadas. Alegando problemas técnicos, a emissora voltou a transmitir o show quando Morello retirou o boné do MST. 

“Bulls On Parade” e “Revolver” são os destaques do disco: essas duas faixas condensam a energia de todo o trabalho do Rage Against the Machine. A faixa “Tire Me” ganhou o Grammy de 1996 pela “Melhor Performance de Metal” e as faixas “People Of The Sun” e “Bulls On Parade” foram indicadas na categoria “Melhor Performance de Hard Rock”. O álbum é fundamental para posicionar a banda no cenário emergente do rock estadunidense no contexto em que foi lançado, bem como para pavimentar todo o caminho que a banda trilharia com seus dois álbuns seguintes. Analisando o teor do disco, lançado há vinte e cinco anos, todo seu eruditismo se faz urgente em todos os âmbitos sociais.

É como se Rage Against the Machine acabasse de surgir, apresentando ao público um álbum condizente com o que é vivido atualmente. A sensação de que as coisas estão voltando ao que eram (ou então de que nunca deixaram de ser o que são) fizeram com que a banda, em separação definitiva desde 2011, voltasse às atividades após a realização de manifestações populares incandescentes no Chileà la Rage. O sentimento de que o povo ainda clama por seus direitos, silenciosamente negados, é o que faz com que a banda permaneça em chamas, raivosa, seja em atividade ou em hiatos, com toda a sua discografia. “Evil Empire” é mais uma das fagulhas de toda a força motriz do RATM.

Nota da autora: 89/100

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