Heartstopper é a ideia de que o futuro pode ser sobre felicidade

Tenho pensado demais em Heartstopper, nova série juvenil LGBTQIA+ da Netflix. Não entendi o motivo desse impacto que a série teve na minha vida — afinal estou longe de ser o público alvo. Depois de ficar obcecado por toda a atmosfera, personagens, história e a beleza deslumbrante da série, resolvi escrever esse texto que nada tem a ver com críticas, mas sim com uma opinião sincera.

O universo criado por Alice Oseman na graphic novel que originou a série é sutil e bastante verdadeiro com seus ideais. Não li as HQs, mas consigo compreender a importância delas em todo o contexto. Depois de vários dias com um sentimento agridoce ecoando na memória, foi aí que me dei conta. Heartstopper é a ideia clara e concreta de que uma nova geração inteira pode esperar um futuro de felicidade e não de incertezas violentas como muitas pessoas da minha geração (ou nossa) cresceram acreditando.

Desde jovem até ter a idade que tenho hoje, não tive um exemplo público de que minha vida poderia ser assim como Nick e Charlie ou que minha sexualidade poderia ser algo normal dentro de qualquer ciclo. Homofobia sempre foi muito enraizada dentro da sociedade humana, principalmente no Brasil em vista dos altos índices de mortalidade em pessoas da comunidade LGBTQIA+. Eu cresci com homofobia dentro e fora de quase todos os ciclos da minha vida.

Fui aquela criança tímida, que ficava no meio termo entre fundão e as primeiras mesas da sala. Em parte por ter poucos amigos que verdadeiramente me entendiam sem julgar trejeitos ou gostos e parte por saber que qualquer movimento fora do padrão seria crucificado com piadinhas homofóbicas e de mal gosto. Essa ‘zona de conforto’ — se é que podemos chamar de conforto — se estendeu por uns bons anos até que consegui entender qual caminho era melhor pra mim.

Por ter passado poucas e boas na vida, ter sido expulso de casa, ter tido um ‘coming out’ bastante caótico e nada dentro do meu próprio tempo, e o coração quebrado por diversas vezes (sou aquariano mas eu tenho coração), dei play na série por influência da redação do escutai. Antes de assistir fui cético e entendi que Heartstopper simplesmente não era pra mim. Achei a ideia bobinha já de cara, emulando algo que, no meu caso, era passado e fazia parte de inúmeras fases anteriores da vida.

Bem, não poderia estar mais errado em qualquer uma dessas afirmações.

Dito tudo isso, se tornou impossível não me relacionar — em diversos níveis — com Heartstopper. A série abre caminho para uma narrativa saudável entre dois garotos no auge da juventude e aquece o coração de qualquer pessoa, dos mais jovens aos mais velhos, independente de gênero ou vivência.

Talvez, para pessoas hétero, seja apenas uma série entre tantas outras, sem maiores significados. Mas para quem se relaciona com ao menos um dos tópicos, entende que Heartstopper se encaixa como uma das produções atuais mais importantes do gênero por inúmeras razões, desde a escolha a dedo dos atores, ao toque emocional que cada uma das cenas tem o cuidado de transparecer.

Em gerações passadas, essa rota de socialização homossexual sempre foi um enigma. Boa parte por não termos exemplos disso ao alcance, o que de fato era praticamente impossível visto o nível de preconceito existente. Mas para heterossexuais isso foi diferente. Meus primos, pais, tios, amigos tiveram suas certezas muito bem definidas desde muito cedo. Um escopo a ser seguido, com opções, exemplos e principalmente apoio. O que me restava era o ‘e se…’ em algum momento da vida ser realizado, por minha própria conta e risco.

É por isso que a série é tão importante. Deixando de lado a parte triste da história, Heartstopper aborda o lado atual de uma geração que de fato não está livre de tanto preconceito ou dúvidas sobre si mesma, mas carrega um fardo mais leve e progressista e entende que o futuro pode ser diferente. Pode ser bom e feliz, sem ideias equivocadas de amores pela metade. Vai além disso, pratica uma nova abordagem que para muitos nunca foi possível.

Vivenciar algo assim é realmente único, mesmo depois de muitas fases, e enteder um pouco mais sobre partes suas que até então estavam mornas em algum lugar do peito.

Espero que toda a equipe da série — diretores, escritores e elenco —, tenham consciência do impacto positivo que Heartstopper tem e terá em muita gente daqui em diante. Com diálogos sinceros, emoções relacionáveis, um visual deslumbrante e uma representatividade ampla praticamente inédita, ofereceram conforto e afirmação para aqueles que muitas vezes mais precisam ou precisavam até agora.

O texto reflete a opinião do autor e não se trata de uma crítica. Leia a crítica de Heartstopper aqui.

Por Diego Stedile

Comunicador, publicitário, designer, já tentou ser escritor de livros e não deu certo. Fundou o ESCUTAI pra compartilhar música e hoje é lar de muitas opiniões. Editor-chefe, diretor de arte, playlisteiro e conselheiro nas horas vagas.


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