É possível sentir conforto em estar triste? Que mecanismos podem ser usados para aliviar quando a tristeza bate à porta? Em seu quarto álbum de estúdio, SadSexySillySongs (Coala Records), Letrux percorre por esses questionamentos invocando deuses da composição que vão de Kurt Cobain a diferentes safras da música brasileira como Mahmundi e Jadsa para chegar no humor como remédio.
Com produção musical do baixista Thiago Rebello, parceiro de longa data, o disco carrega um caráter mais cru. Aqui o que mais importa são as composições, a letra, como Letrux enfatizou nos palcos dos shows de lançamento do trabalho recentemente. Ela está ali pela letra! Boa parte das músicas tem uma base de voz e violão, alternando vez ou outra com faixas mais pop-rock ou com intervenções eletrônicas. Ao vivo, o disco ganha contornos teatrais com Letícia Novaes em cima de uma cama, homenageando grandes referências como Maria Bethânia, Alanis Morissette e PJ Harvey e abrindo diálogos hilários com a plateia.

Ao todo, são 12 músicas que totalizam exatos 31 minutos e 52 segundos. Tempo suficiente para compreender que a atmosfera é diferente dos três primeiros álbuns da artista. Se o ouvinte estiver esperando algo parecido como Em Noite de Climão (2017), Aos Prantos (2020) ou Letrux como Mulher Girafa (2023), pode se decepcionar. Embora a letra seja o foco principal, algumas delas soam como sobras de outros trabalhos. Em sua nova era, Letrux marca território como uma artista independente, disposta à reinvenção, e que chegou naquele momento intimista da carreira, de fazer um trabalho voltado para dentro, de si e de sua base de fãs.
É como se ela tivesse que ter passado por esses três momentos para chegar em SadSexySillySongs como um resumo de tudo. Como a própria diz, alegoricamente, Climão encarna o lado sexy, enquanto a tristeza vem com Aos Prantos e a sua versão boba é representada com Mulher Girafa. Para quem esteve “lá” em todos esses momentos, SadSexySillySongs faz todo o sentido, fecha um ciclo de coesão ao longo de sua obra, marcada sobretudo pela experimentação.
Em seu mais recente trabalho, o foco dos instrumentos e dos grandes arranjos e melodias dá espaço a uma sonoridade melancólica e simples, que carrega letras de duplo sentido, com piadas, ironia, inglês e flashbacks de tempos juvenis como ferramentas narrativas. O humor como arma psicológica para lidar com a tristeza. Porque ser apenas triste, se é possível encarar tudo com doses de tolice e sensualidade?
Em “It´s like Kurt Cobain Sings”, ponto alto do disco no quesito letra, a cantora vai aos irlandeses para afirmar que a tristeza não pode ser um estado de espírito permanente, mas um sentimento passageiro. Os irlandeses não dizem “Eu estou triste”, “Ao invés disso eles falam: a tristeza está em mim”, canta. A canção parafraseia ainda o líder do Nirvana, Kurt Cobain, que declara em “Frances Farmer Will Have Her Revenge on Seattle”: “Sinto falta do conforto de estar triste”. Conforto esse que só sente quem tem a certeza de que vai passar e, por isso, ousa fazer piada de si.

Na música “Ornamentais”, Letrux brinca que adoraria ouvi-la na voz de Maria Bethânia. A artista coloca o vozeirão para jogo em uma canção que traz um brilho de seriedade e melancolia típicos da MPB mais classuda que temos, mas que descamba em uma letra deliciosamente chula, simbolizando perfeitamente o conceito do disco. Outros pontos interessantes das composições vem com a faixa-título e “Over My Dead Body”, uma das muitas composições em inglês do disco.
SadSexySillySongs entra pro hall da música independente brasileira e não parece pretender furar a bolha. Funciona muito bem ao vivo e marca um novo momento da carreira de uma artista que não tem medo de experimentar e está disposta a chegar pelo boca-boca.









