Lewis del Mar e a herança hispânica em NYC

Em 2015, dois amigos de longa data que dividem um bangalô em Nova Iorque decidem mergulhar de cabeça no universo das composições musicais. O dueto, formado pelo cantor e violonista Danny Miller e pelo baterista e produtor Max Harwood, escolhem o nome Lewis del Mar para a enxuta banda. A inspiração parte do pai de Danny, chamado Luís, que viveu a maior parte de sua vida na cidade costeira de Porto Cabeças, Nicarágua. Assim se inicia a história de um grupo musical que passa a divulgar para o mundo os sons litorâneos compostos em uma cidade tão cosmopolita quanto NYC.

As primeiras divulgações começam com duas faixas disponibilizadas no SoundCloud da banda e, ao longo do ano de criação de Lewis del Mar, o dueto lança três singles, dois clipes, uma live session, um EP e um álbum inteiro. O entusiasmo dos amigos faz com que, em menos de um ano, LDM parta em turnê com mais de cem shows marcados em seis países diferentes. Na volta aos Estados Unidos, Danny e Max são surpreendidos com convites para estrearem nos programas televisivos estadunidenses.

Os primeiros trabalhos de Lewis del Mar, condensados em um álbum homônimo, é realmente inédito, vívido e constante. É como estar em uma praia ao mesmo tempo em que se está preso em um engarrafamento, é sentir o movimento das ondas enquanto se está em pé em um ônibus lotado ao fim da jornada de trabalho. Existe uma ambiguidade entre o que forma o Lewis del Mar e o que o dueto é em si, e essa dualidade é diretamente refletida nas canções do grupo. A herança hispânica, trazida pela família de Danny, parte em uma mélange com o caráter cosmopolita, elétrico e insone de Nova Iorque. A suavidade e a sonoridade do violão de Danny (sonoridade esta que lembra, em algumas canções, a bossa nova brasileira) entram em choque com a bateria simultaneamente acústica e eletrônica de Max que, por sua vez, encontra refúgio nas letras de perda e dor. Embora não sejam tão claras, algumas influências de Lewis del Mar envolvem Milton Nascimento e Lô Borges (tanto em seus trabalhos solo, quanto na junção impecável dos artistas em Clube da Esquina), Red Hot Chili Peppers, Master P, The Pietasters, Steve Reich e Stevie Wonder.

A experiência de LDM vai além da questão sonora e atinge o audiovisual. Danny e Max são entusiastas do âmbito artístico mundial como um todo, e buscam diversas referências para seus videoclipes. Essa parte do trabalho da banda confere um aspecto psicodélico à música do duo, e que levam as sensações descritas nas canções para o miocárdio. A tristeza e a melancolia fazem ainda mais sentido, embora sejam suavizadas pela esperança trazida pela voz de Danny. Permanecendo no ramo visual, a pequena banda cria, também, sua estética própria com faixas bordô e mostarda. É possível que os fãs insiram a marca registrada das fotos do dueto em seus próprios cliques – essa funcionalidade é disponibilizadas no site oficial do LDM.

Em agosto de 2020, cinco anos depois do lançamento do álbum de estreia do dueto, Lewis del Mar lança “August”. Neste trabalho, a bateria de Max permanece inalterada, o que faz com que metade da identidade sonora do duo continue presente. Entretanto, o violão de Danny retorna tão rebelde quanto era calmo em “Lewis del Mar”. A temática das letras continua sendo a perda – agora, porém, a perda tem nome e localização pontual na linha temporal da vida do vocalista. As quinze faixas de “August” refletem a saudade que Danny sente de seu pai após sua morte, mesmo em meio aos conflitos familiares contados nas canções. Seja por este motivo ou por outro não tão evidente, a faceta hispânica de LDM ganha ainda mais força no segundo álbum da dupla. Além de claras referências à Nicarágua e ao catolicismo dos países latino-americanos, a sexta faixa do álbum, “Rosalie”, é regravada fora do disco em uma versão em espanhol. Os amigos também passam a dar mais entrevistas na língua latina – o que, de certa forma, aumenta o alcance do dueto.

Permanecendo no universo de “August” e retomando à experiência da sétima arte, Lewis del Mar disponibiliza, em seu canal do YouTube, um curta-metragem inspirado nas experiências vividas ao longo do processo de composição do último álbum. O produto audiovisual, assim como o âmago das canções, entregam resquícios de leveza em tempos tão confusos quanto o vivenciado no cenário pandêmico. Ademais, em um nível ainda mais elevado de sensibilidade e esperança, Danny e Max realizam postagens no perfil da banda no Médium, como em uma espécie de diário pessoal acessível aos fãs e ouvintes.

Seja em Nova Iorque ou Porto Cabeças, Lewis del Mar acessa pontos inóspitos da sonoridade nicaraguana em um contexto orbivagante.

Indicação de som: o álbum ‘AUGUST’, recente lançamento do duo.

Por Letícia Finamore

Metajornalista, entusiasta de biografias e criadora compulsiva de playlists.


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