Não há como ignorar, desde a corrida fluorescente que Ainda Estou Aqui fez no ano passado, o nosso cinema nunca mais será o mesmo. Somos sortudos em ver como nossas contações de histórias está alavancado proporções fora de um normal nosso. Emociona perceber como rapidamente voltamos a um patamar que levou anos para quebrar um jejum. Nosso cinema sempre foi belo e imenso, agora, ele também ressoa fora daqui, para os olhos de outros mundos.
Quem atravessa essa fenda hoje é o thriller político de Kleber Mendonça Filho. Entre telefonemas feitos a moita, perseguições insanas que o diretor faz como ninguém, trocas de identidade e uma Recife em 1977 vigorosa, O Agente Secreto faz uma nação celebrar de novo.
Na nova proposta do cineasta recifense, a disposição dos fatos na tela e o conceito principal em subverter o ser agente secreto, cria uma magnitude espetacular para exemplificar como a misticidade do cinema está nas entrelinhas — no exercício de transformar linguagem em imagem. São tantas ideias encaixadas seguradamente que o filme cria sozinho uma documentação do que é memória e acima de tudo, da perda dela.

Assim como em Bacurau, onde o essencial não é explicado em palavras, mas via ações impetuosas, em O Agente Secreto esse jogo velado na narrativa da história ganha mais fibra. É a técnica da linguagem aplicada em sua forma máxima. Há ambiguidades por todos os lados.
Torna-se impressionante acompanhar algumas trocas de comunicação e ações dos ótimos personagens. Pluralmente, o filme cria técnicas finas para acentuar seus fatos. O que falta mesmo é compreender que uma duração mais curta faria diferença para um maior prestígio dessas realidades. A sensação às vezes é de ter tido várias empolgações para rechear o desenvolvimento de um só filme.
Mencionando o que não orna bem aqui. A galeria de coadjuvantes (todos excelentes) parece inflar e dar perspectivas diferentes para o mundo ao redor do protagonista Marcelo (Wagner Moura). Não se vai longe com o que esses personagens têm a dizer diante além de seus propósitos mais nítidos para com o protagonista. A sequência final não encaixa na atmosfera belíssima de thriller político e, pior ainda é como o clímax encerra o que a produção fermenta por horas. Os minutos finais poderiam facilmente ser diagramados no segundo ato para uma execução esplêndida e mais afiada.
De todo modo, no pós, o que mais pode grudar no espectador é como foi inteligente usar ser um infiltrado (ver o filme sabendo apenas o título é genioso) para ilustrar uma narrativa dolorosa. Se Ainda Estou Aqui usava de uma Fernanda Torres calada que parecia gritar o tempo todo, O Agente Secreto cria um documento em letras garrafais sobre como nossa gente já foi vista como inumana. De um lado, Kleber usa da câmera como um dos gestos centrais do filme. Mais do que no texto, é pela imagem que a obra firma suas maiores potências. Já Wagner Moura concentra uma personificação introspectiva que brilha em absolutamente todos seus olhares de opressão. É insano vê-lo alcançar esse ponto junto ao prestigiado desfile que o filme vem orquestrando mundo fora.
O que o longa faz de forma sublime é pedir que o espectador aceite não dominar inteiramente o que vê. Para isso, ele aplica metodologias de um cinema histórico que não apenas se lembra, mas faz lembrar. Tornando memória em registro para manter vidas vivas mediante vestígios.
Tudo isso aqui é um tipo de arte que entende que a imagem transportada para as grandes telas é documentação como memória. Que reminiscências de pessoas e vidas como as registradas em O Agente Secreto possam respirar por muito mais tempo.









