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O artista que sou: Renato Enoch

Renato Enoch é inegavelmente um dos nomes mais populares da cena artística mineira.

Entender o que forma o artista em um artista é essencial para conhecer melhor seu trabalho. Como criadores, sabemos o papel importante que as pequenas coisas diárias influenciam diretamente no que criamos e fazemos com nossa arte. Com isso, queremos entender como nossos artistas favoritos são moldados, seus gostos, o que fazem, escutam, assistem.

Renato Enoch é inegavelmente um dos nomes mais populares da cena artística mineira. Ultimamente vemos o cantor ganhar cada vez mais espaço dentro do cenário musical nacional. Apesar de novo, já possui uma identidade muito marcante em seus trabalho e conseguimos notar isso ao nos depararmos com seus vídeos de covers postados em seu canal do Youtube, onde faz releituras cheias de personalidade com músicas que o influenciam.

Fora cantor, quem é Renato Enoch?

Além de cantor, sou compositor e gosto de me aventurar na produção musical e em produções audiovisuais. Também vale dizer que sou um mineiro natural de Belo Horizonte, que me formei em design gráfico mas me enveredei pelos caminhos da música, que sou um artista LGBTQIA+, dentre outras coisas. Apesar de ter começado a minha trajetória na música enquanto intérprete, descobri na composição uma forma de dar vazão e elaborar aquilo que eu não sei dizer de outra forma, além de me dar a oportunidade de criar universos visuais pra essas canções que eu coloco no mundo. Apesar de já ter realizado coisas bem legais, sinto que ainda estou no começo e tenho muito mais pra mostrar e construir. 

Me conta como foi entrar nesse universo da música, quem te inspira, tanto quando começou quanto hoje? E além da música, quem mais te inspira como artista? 

Gosto de cantar desde a infância, mas a minha ligação com a música só começou a crescer na adolescência, quando larguei mão da timidez e decidi aprender a tocar instrumentos, desenvolver o meu canto e assumir esse lado musical para os outros. Em casa, eu cresci escutando muitas coisas diferentes, desde MPB até rock internacional, soul e R&B, graças à influência da minha mãe e aos CDs da minha irmã mais velha. No geral, a cultura pop sempre me atraiu também. 

Grandes vocais sempre me empolgaram, por isso cantores como Elis Regina, Gal Costa e Tim Maia me inspiraram bastante, por exemplo. Também são grandes referências pra mim alguns artistas gringos como Bon Iver e James Blake, além da minha mais recente obsessão musical que é a St. Vincent, pra citar alguns dos artistas contemporâneos que exploram sonoridades e estéticas que me empolgam e/ou me desafiam. 

É muito interessante ver que quando você faz algum cover, sempre coloca o seu toque tanto na melodia quanto na letra, trazendo essa música mais perto do teu universo, queria entender como você se define como artista?

Gosto de falar que sou um cantor, compositor e experimentador de sons. Sempre bebi de muitas fontes e estive passeando por estilos como a MPB, o indie pop, o synth-pop, o trip-hop… Acabo misturando um pouco de tudo isso e pretendo continuar passeando por onde mais eu sentir que devo ir. Ainda tenho um bocado de coisa pra mostrar e prefiro deixar que rotulem por mim. 

Sempre me diverti reinventando arranjos, por isso sempre tive dificuldade de tocar as canções exatamente como elas eram. Escutar cantoras como Elis e Gal, que sempre transformavam as canções completamente, com certeza é algo que ajudou a moldar o meu lado intérprete. 

Sem pensar muito, acabei ousando um pouco mais em certos momentos. Por exemplo, quando gravei “Como Nossos Pais” (do Belchior) e resolvi cantar “beijar a quem se ama” no lugar da letra original. Foi algo espontâneo e que surgiu quase como um desabafo, mas acabei incorporando ao cover como uma forma de fazer a canção dialogar ainda mais com o nosso tempo. 

Entre suas composições, tem alguma favorita e alguma que menos gosta?

Tenho um carinho bem grande pela canção “Platônico”, que lancei em 2018, e também pela “Navio”, que é mais recente e rendeu um projeto audiovisual bem bonito. É difícil falar qual eu menos gosto, porque todas fizeram sentido em algum momento, mesmo que eu me canse delas de vez em quando. No momento estou um pouco cansado de “Só in english”, o primeiro single autoral que lancei, em 2017, mas é uma canção bem divertida e leve que as pessoas costumam cantar junto nos shows.

Tem alguma música que tu ainda não fez cover e tem vontade de lançar? 

Nos últimos tempos, a minha maior vontade é focar no autoral e materializar algumas canções que ainda não saíram do papel, mas nas quais eu acredito muito. Já gravei muita coisa que eu amo, mas vira e mexe eu escuto alguma canção do Caetano ou do Gil e me dá vontade de cantar.

No seu último trabalho autoral, “Partir”, você traz uma sonoridade um pouco mais séria do que vemos em trabalhos anteriores. Quais foram suas inspirações?

Talvez pareça mas não escrevi a “Partir” levando muito a sério! (risos). A canção começou a nascer do refrão “nada, nada, nada”, que na repetição me trazia essa ideia de apatia e conformidade com o caos, mas ao mesmo tempo com o intuito de ser dançante. Depois de alguns anos, a música começou a ganhar forma com esse novo arranjo que eu produzi junto com o Fillipe Glauss.

Na sonoridade, me inspirei em algumas faixas de synth-pop e pop psicodélico, tentamos trazer muitas camadas e contrastes para brincar com essa dualidade entre a temática soturna da letra e a dinâmica fluida e crescente da música. Os experimentos com synths, teclado e vocais acabaram sendo o ponto de partida, por já serem elementos muito presentes no meu trabalho. E aí a faixa foi ganhando essa forma final com a presença do baixo, da guitarra e de outras texturas.

Acabei descobrindo novos significados na letra e senti que ela conversava muito com o meu sentimento diante do período de pandemia. Era um pessimismo com um fundinho de esperança e uma vontade de encontrar solo fértil por ali. Pra mim, essa letra fala sobre gerar movimento, mesmo se sentindo paralisado ou voltando pro mesmo lugar, e esse processo de criação me ajudou a lembrar que do medo e da desesperança também podem nascer canções. Como eu digo na letra: “pra depois virar canção”.

Qual foi o show ou momento mais marcante da carreira e por que foi tão emblemático e especial? 

É difícil escolher só um momento. Um acontecimento bem especial, que rolou em 2019, foi receber dois prêmios pelo meu trabalho: o Prêmio “Beagá Cool” e o Prêmio “Poc Awards” (do gay blog), que foram uma validação importante pra mim. Também foram marcantes as vezes em que o trabalho alcançou um público grande e que recebi mensagens bonitas, quando rolou a primeira playlist editorial de spotify e a primeira capa de playlist, ou os festivais em que eu pude tocar e todo o contato com o público.

Tudo isso foi muito especial, mas a primeira coisa que veio na minha cabeça foi o meu recente retorno aos palcos. Na semana passada, fiz o meu primeiro show desde o início da pandemia, que aconteceu no Studio SP, uma casa importante de São Paulo, e esse retorno me trouxe um sentimento de missão cumprida e gratidão. O último ano foi bem difícil emocionalmente e profissionalmente, não só para mim mas para muitos profissionais da cultura, e esse retorno aos palcos, além de muito gostoso, foi também uma confirmação de que é isso que eu quero continuar fazendo: subir nos palcos e cantar pra mais e mais pessoas.

O que não pode faltar na sua playlist e o que nunca entraria?

Minhas playlists estão cheias de mpb, tropicália, indie rock, pop, indie pop, dub, eletrônica, hip hop, trap, r&b, blues, soul, folk e outras coisas… Tento sempre estar aberto, mas dificilmente entra um sertanejo por lá. 

Antes de finalizar, quais músicas suas você indica pros leitores te conhecerem? 

Indico “Navio”, “Platônico”, “Pra secar o choro”, “A cruz” e “Partir”, além da minha versão de “Como Nossos Pais”. Todas estão disponíveis em qualquer plataforma de música. 

Podemos aguardar um novo álbum?

Sim! Estou trabalhando pra conseguir materializar esse disco logo e estou bem feliz com as ideias e gravações até então. Os últimos anos foram conturbados e a pandemia me fez repensar e adiar muitas coisas, mas sinto que estou caminhando numa direção que gosto muito e estou ansioso para compartilhar as canções novas com outras pessoas. 

Recentemente Enoch se apresentou por diversas casas de São Paulo, como citado na entrevista, teve a oportunidade também de participar de um show junto com Gaê, com quem lançou uma parceria recente chamada “Abrir-se” presente no álbum novo do mesmo, “Eu Não Quis Dizer Isso”.

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