O final honesto no legado desperdiçado de The Big Bang Theory

The Big Bang Theory
The Big Bang Theory

Esse texto contém spoilers do final de The Big Bang Theory.

Conclusões de grandes sagas cinematográficas como Vingadores e Star Wars e o fim de Game of Thrones na televisão, geram muita comoção já que estamos falando de franquias renomadas, com um número exorbitante de fãs e que rendem bilhões de dólares para a indústria do entretenimento. Contudo se voltarmos no tempo, até o início do século, com exceção de Star Wars que já era um fenômeno (e estava retornando aos cinemas após vinte anos), adaptações de quadrinhos ou histórias de fantasia medievais eram algo que estavam começando a sair do nicho. Se você era pego na escola lendo um quadrinho na hora de recreio, você possivelmente seria alvo de gozação entre outras crianças. A situação pioraria se você fosse uma criança que usava óculos, era mais introspectiva e possivelmente tirava notas boas. Era o estigma do nerd!

Desde a década de 80 que temos na mente o estereótipo do nerd como o cara esquisito, feio, óculos fundo de garrafa, espinhas, calça acima da cintura, cabelinho repartido; contra a imagem do atleta, bonito, alto, forte e que saía com as líderes de torcida. Além de filmes como os do John Hughes, que tinham o intuito de desconstruir o estereótipo adolescente, frequentemente o nerd que saía vitorioso no final – Gatinhas e Gatões, O Clube dos Cinco, Mulher nota 1000 etc – a única vez que essa figura do nerd foi retratada como uma persona positiva, apesar de todo o seu redor ser totalmente depreciativo à ele, foi o Peter Parker do Tobey Maguire na primeira trilogia do Homem-Aranha.

Então foi nesse cenário que surgiu em 2007 The Big Bang Theory, uma série sobre a vida de quatro amigos nerds e sua nova vizinha atraente. A série se tornou uma das mais populares da televisão e foi a sitcom (série de comédia) com o maior número de episódios da história e que agora, doze anos depois, chegou ao fim, mas sendo responsável por tornar a figura do nerd popular nos dias de hoje… Será mesmo?

Vamos analisar o perfil dos personagens apresentados no primeiro episódio: Leonard, o nerd que ao se apaixonar por sua vizinha tem vergonha de ser quem ele é ou das coisas que gosta; Penny, a vizinha loira e atraente que não é inteligente no meio dos quatro nerds; Howard, o nerd que desde o primeiro momento fica dando em cima de Penny; Raj, o nerd que não consegue falar com garotas; e Sheldon, o nerd excêntrico em um nível muito peculiar.

Ou seja, em 2007, estávamos rodeados dos estereótipos dos nerds esquisitos e da loira burra. A série foi criada por Chuck Lorre, um dos maiores produtores da televisão norte-americana e é dele também séries conhecidas como Two and a Half Men e Mike & Molly, então já podemos ver um padrão. Essas duas séries, apesar de populares e até elogiadas por uma boa parcela, sempre tiveram críticas muito fortes por enaltecer um conteúdo que promovia o machismo, a gordofobia e no caso de The Big Bang Theory, continuando a denegrir a imagem do nerd. Porque The Big Bang Theory não enalteceu a figura do nerd, mas sim o conteúdo que o nerd gosta e mesmo assim, a série não foi a responsável por isso!

Muitos dizem que foi por causa de The Big Bang Theory  que a onda nerd que vemos no cinema e na televisão hoje começou e por isso as pessoas se identificam como nerds. É mais fácil supor justamente o contrário!

Quando a série estreou em 2007, filmes de super heróis já haviam provado que davam lucro com X-Men (2000) e Homem-Aranha (2002) e adaptações literárias já eram um fenômeno como O Senhor dos Anéis e Harry Potter vieram a comprovar e justamente em 2008, um ano depois, Homem de Ferro e O Cavaleiro das Trevas chegavam ao cinemas, entrando na era mais lucrativa dos blockbusters. Isso tudo foi benéfico para The Big Bang Theory, que pôde através dos anos se aproveitar desses sucessos para referenciá-los em sua série, sustentando-a por doze anos e o público que via a série, era o mesmo que estava pagando o ingresso do cinema e se identificava com a série através desse fator.

A indústria do entretenimento hoje é rodeada pelos nerds que cresceram na década de 80 consumindo esse conteúdo de nicho e que hoje estão trabalhando em grandes estúdios e são os responsáveis pela cultura nerd virar a cultura pop. Se tem um nerd que deve agradecer por isso é Sheldon Cooper.

The Big Bang Theory chegou ao fim no dia 16 de maio, mas aqui no Brasil o final foi exibido só no último domingo (02), entregando um final honesto, tocante e sem surpresas para o seu público fiel. Devo confessar que fui espectador de The Big Bang Theory até meados da quarta e quinta temporada e depois apenas acompanhei os eventos da série através de notícias sobre a produção. Então eu não sou uma pessoa envolvida emocionalmente com a trajetória desses personagens, porém o maior problema que tive com esse final, foi a impressão de que eu não perdi nada das temporadas que vieram depois. Pareciam os mesmos personagens de vários anos atrás.

Leonard e Penny foram viver juntos e casaram; Howard casou com Bernadette, teve dois filhos e ainda assim não perde uma oportunidade de assediar Penny com fantasias sexuais envolvendo sua esposa; Raj agora consegue falar com mulheres, mas se porta da mesma maneira; Sheldon e Amy casaram e o personagem apenas no último episódio teve a epifania de que o seu jeito excêntrico era inconveniente para o seus amigos e naquela altura, para o espectador também!

É um tremendo desperdício você ter uma série sobre nerds que ficou no ar justamente no período em que essa cultura pop explodiu e se estabeleceu e você não conseguir tirar nada de relevante desses personagens. Eles poderiam ser o retrato comportamental desse público consumidor, como um reflexo e crítica ao mesmo, porque não é como se faltassem situações onde essa cultura nerd atual não fosse problemática e por muitas vezes tóxica.

Como dito antes, a expansão da cultura pop trouxe um público muito maior de fãs e consumidores e que por causa disso se identificam como nerds. Ir ao cinema ver o filme popular da semana não te faz nerd! Você é mais um dentro dessa gigantesca bolha. Por outro lado, também temos o nerd adulto de trinta, quarenta anos que cresceu sofrendo bulliyng e tinha nesses filmes, quadrinhos, video-games o seu refúgio e hoje, vendo como isso é acessível e popular para a maioria, não aceita que aquilo que era sagrado para ele, que fazia dele único na sua cabeça, seja compartilhado com outros.

Já virou rotineiro ver as reações raivosas desses nerds adultos à notícias que personagem de quadrinho tal agora é gay, ou virou mulher, ou trocou a etnia, etc. É a cultura pop querendo ser cada vez mais acessível a todos os públicos e não continuar falando apenas pro nerd adulto, branco e hétero.

Por isso vemos nas redes sociais notícias e comentários tão repugnantes contra a Brie Larson, porque ela queria mais diversidade entre os jornalistas de imprensa; o boicote ao filme da Capitã Marvel no Rotten Tomatoes; como reeditaram Vingadores: Ultimato retirando todas as cenas com mulheres do filme; ou a indignação que Robert Pattison vai ser o novo Batman – que basicamente é o avatar de fantasia de poder tóxica desses nerds – só porque ele foi o vampiro que brilhava na saga Crepúsculo.

O mesmo acontece com o efeito da nostalgia enquanto consumo. Séries como Stranger Things mostraram uma demanda considerável e hoje vemos várias séries animadas sendo revividas para um novo público, como foi o caso de She-Ra e Thundercats que ganharam um novo design e uma linguagem mais apropriada para as crianças de hoje. O nerd adulto não quer aceitar essas mudanças. Ele continua achando que é o dono daquela obra que foi importante para ele quando criança, mesmo que ele possivelmente não vai ver essa nova versão.

O nerd deveria ser aquele cara que mais do que ninguém entende o que era ser ridicularizado e colocado para baixo e que agora que vivemos nessa época em que a cultura pop domina, ele devia abraçar a diversidade que está aí para ficar e incluir cada vez mais, até porque ele cresceu consumindo conteúdos que falavam sobre isso. Afinal, o que ele acha que eram os X-Men? Ou os significados por trás de Star Trek? As analogias políticas em Star Wars? Os conflitos sociais nos quadrinhos da Marvel? O arquétipo de super herói do Superman? Entre tantas outras coisas!

A figura do nerd virou apenas uma casca vazia, movida ao hype e teorias superficiais vindo de sites e canais no Youtube que estão aproveitando dessa forma de consumo.

Era uma oportunidade única para The Big Bang Theory retratar esse ser e ir além da comédia, mas nas mãos de uma pessoa como Chuck Lorre era difícil de esperar algo a mais. O último episódio mesmo tem um momento em que Amy discursa ao ganhar o prêmio Nobel e emocionada ela diz para as meninas que se interessam pela ciência não desistam desse sonho.

A atriz Mayim Bialik, intérprete de Amy, parou por um tempo com a carreira de atriz para estudar e se formar em neurociência, então é uma cena tocante tanto na série quanto fora dela, porém o peso da cena é cortada justamente porque é o momento em que Sheldon fará o seu discurso, que servirá também como o seu arco de conclusão em relação ao seu comportamento com os amigos.

Ele nem estava ouvindo o que a esposa falava! Fora isso, durante sua exibição, a série continuou enaltecendo a imagem que o consumo de produtos nerds é coisa de menino, o fracasso do nerd de conquistar uma mulher e manter a imagem machista de que a mulher é a malvada e o nerd que é um coitado etc. Sempre a comédia sendo usada para depreciar o indivíduo.

A popularidade de The Big Bang Theory é inegável, muito menos a força da série, que contou com participações marcantes de astros do cinema e da ciência, como Leonard Nimoy, Stan Lee, Mark Hamill, Kathy Bates, Stephen Hawking, Neil Degrasse Tyson etc. A série já é um marco e se despede dos fãs e dos personagens em um clima caloroso, mas despreocupado com os ditos nerds atuais, que se antes tinham um estereótipo de esquisitos, mas eram os oprimidos pelos populares, hoje são os opressores dentro da cultura pop e a série poderia ter tido a responsabilidade de deixar uma mensagem e um lembrete de valores mais significante para esses nerds do que apenas “BAZZINGA!”