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Por que amamos “Ted Lasso”?

Ted Lasso, série da AppleTV+, combina comédia pastelão com um desenvolvimento de personagem perfeito

Por Adilane Ribeiro da Silva 

Este texto contém spoilers!

Conheci Ted Lasso meio tarde, quando a série já tinha uma temporada toda lançada e já tinha sido indicada ao Emmy. Eu precisava de uma boa comédia para relaxar e logo no primeiro episódio eu estava gargalhando e decidida a maratonar o resto. Falei pros meus amigos sobre a série e percebi que pouca gente assistiu Ted Lasso. 

E isso me deixou intrigada: por que parece que pouca gente dá bola para essa série? E o que me fez gostar tanto Ted Lasso? Bom, a resposta para primeira pergunta parece mais fácil: o acesso à série. Ted Lasso estreou na AppleTV+. Você conhece alguém que assina essa plataforma de streaming? Pois é, nem eu. 

Além disso, uma série sobre um clube de futebol que nem existe pode afastar quem não é muito fã do esporte. O que, confesso, foi a minha primeira reação, mas ela tem de tudo, menos futebol. Os jogos aparecem bem pouco e a história acontece mesmo é no vestiário e fora do campo. 

Ted Lasso é uma das 20 melhores séries de 2020, leia a matéria

Por último, o trailer mostra só o lado comédia da série: um treinador de futebol americano vindo do Kansas vai treinar um time de futebol em Londres, mas sem saber muito sobre as regras do esporte ou os costumes do país. E Ted Lasso é mesmo sobre isso, este não é um trailer que engana, mas também não faz jus à série. Ele deixa de fora algumas das coisas mais legais e que me fizeram gostar de Ted Lasso. Talvez a edição do trailer tenha sido proposital para pegar a audiência de surpresa com o lado mais sentimental da série. Planejado ou não, me conquistou bem mais rápido do que eu esperava.

Com isso, a gente parte para a segunda pergunta: o que me fez gostar tanto da série? Bom, o show é ótimo e muito elogiado pela crítica, levou o Emmy de melhor série de comédia, Jason Sudeikis (Ted Lasso), Brett Goldstein (Roy Kent) e Hannah Waddingham (Rebecca Welton) saíram com as premiações de melhor ator principal, melhor ator e melhor atriz coadjuvantes, respectivamente. Além de levar para casa troféus no Critics Choice, SAG Awards e Golden Globe.

Mas só os prêmios não fazem ninguém amar uma série e nem chorar assistindo o desenvolvimento dos personagens (não que eu tenha feito isso). Por isso, separei aqui três pontos que me fizeram gostar de Ted Lasso, me emocionar com os personagens, admirar futebol e até torcer pelo AFC Richmond! 

Otimismo em tempos difíceis

Ted Lasso foi lançada em agosto de 2020, sim, bem no meio da pandemia. Com muita gente fechada em casa e vivendo um momento tão triste, ver um personagem como Ted pode ser reconfortante. Ele mantém o otimismo sempre que possível, acredita no melhor das pessoas e não faz isso descolado da realidade. 

Esse jeito otimista de Ted pode ser irritante de início, mas no segundo episódio ele já tinha me ganhado. Viver olhando para o copo meio cheio e acreditando no melhor das pessoas é justamente a forma que ele encontrou para lidar com as adversidades da vida. Uma ótima mensagem para todos que estão lidando com perdas, separações e relacionamentos em momentos difíceis. 

Ted trata igual todas as pessoas que encontra, desde um funcionário que ninguém lembra o nome até a diretora do clube, mesmo quando o tratamento que recebe não é o mais cordial. Ele não revida as grosserias que ouve por aí e vai ganhando os colegas de trabalho com carisma e com sua vontade quase inabalável de fazer com que todos ao seu redor se sintam bem. 

Assim ele também vai ganhando os torcedores, a imprensa, a galera do bar e, é claro, nós expectadores, que não conseguimos deixar de torcer pelo sucesso dele.

As muitas camadas de Ted Lasso

Todo esse otimismo não parece forçado porque Ted não é feliz o tempo inteiro. Para além das piadas e da positividade, ele é um personagem complexo que está passando por momentos bem difíceis.

Ele tem problemas com a família, teve uma relação complicada com a morte do pai e tem crises de pânico frequentes. Se ele fosse só o cara engraçado e otimista não seria tão interessante assistir, não daria para criar essa identificação e afeto pelo personagem. Todo mundo tem altos e baixos e com Ted não seria diferente. A série faz questão de balancear as piadas com momentos bem sensíveis da jornada meio solitária do personagem tão longe de casa.

Ted encara uma mudança de país, um novo trabalho para o qual ele não tem muito preparo, colegas de trabalho grosseiros e, como se não fosse o suficiente, a separação da esposa e o afastamento do filho. Tudo isso dá profundidade para ele e equilibra o perfil excêntrico com o ser gente-como-a-gente.

Relacionamentos mostrados de um jeito sensível

Como os personagens têm camadas, é possível enxergar mais do que o estereótipo de cada um. Em histórias de separação, por exemplo, é comum ver dicotomias como um personagem bom e outro ruim. E amizades entre homens e mulheres viram romance em algum momento da história. Mas em Ted Lasso esses esterótipos não se repetem.

O casamento de Ted que está chegando ao fim é mostrado de um jeito sensível. Ele não é o marido horrível que deixou a família e ela não é uma megera que quer tirar o filho dele. Eles se gostam ainda, só que o relacionamento já não funciona mais para os dois. Em uma cena, Michelle fala que gostaria de voltar a amá-lo, mas que não tem mais esse sentimento por ele. Mesmo frustrado com o fim do relacionamento, ele consegue respeitar o espaço dela e não força para continuarem juntos.

O mesmo tratamento também é dado para todos os outros personagens. Rebecca, por exemplo, é pintada como vilã logo de início, mas aprendemos rápido que ela também está se recuperando de um divórcio e de anos sendo traída pelo ex marido. Ela está frágil, e resolveu canalizar toda a raiva no clube de futebol, com o tempo vai se afeiçoando ao trabalho e ao invés de sabotar o time ela passa a fazer de tudo para garantir seu sucesso. Uma virada de personagem digna de premiação mesmo. 

Além disso, a amizade entre Ted e Rebecca é bem próxima, mas acaba não virando um romance. Eles se ajudam a passar pelas fases difíceis do divórcio, pelas questões de saúde mental e de relacionamento, sem cair no recurso de roteiro óbvio que é se apaixonarem. Eles funcionam como amigos, tem um companheirismo incrível e é emocionante de assistindo tanto, ou até mais, do que se fossem um casal.

E é por isso que gostei tanto de Ted Lasso, uma junção de otimismo, boas atuações, amizades muito inspiradoras e é claro, uma pitadinha de drama! 

Nota da autora: 100/100

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