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Crítica: “Laurel Hell” – Mitski

Em menos de 40 minutos, com o seu novo álbum de estúdio, Mitski promove em um trabalho oitentista as luzes da tentativa

O primeiro minuto de “Laurel Hell“, sexto álbum de Mitski que chegou sexta-feira passada (4), é feito através de um silêncio instigante. Assim que prossegue para o seu breve fim, a atmosfera de “Valentine, Texas” (que possui apenas 2 minutos e 36 de duração) muda e, os sintetizador sussurrante forma um som cortante, mas o baixo tom de voz de Mitski perdura. Estamos sendo guiados para uma jornada que deve continuar ou no céu, ou em terra. É difícil descrever tal ideia melhor, mas esse som de abertura emana isso. Qualquer que seja o trabalho que provoque uma sensação como essa, merece ser abraçado.

Abrir um projeto sonoro dessa forma é louvável, mas fazer com que ele perdure pelas suas reminiscências é o mais difícil. Felizmente, esse tipo de poder Mitski possui em mãos. Essa fonte acaba se esgotando antes do fim do disco, mas ainda assim, no meio do caminho nos deparamos com sons que expelem vivacidade e uma ode oitentista e pop doce, vulnerável e terreno.

Quando ela decide não optar por tais trajes chamativos, ela vai um pouco mais fundo e nos entrega canções como “The Only Heartbreaker“, faixa mais poderosa do “Laurel Hell”, que entra em um caminho radical ao extremo. Todas as explosões de sonoridade que aparecem engatam o título de uma das melhores músicas do ano. Should’ve Been Me“, que corre quase (foco nessa palavra) o mesmo percurso se assemelha a um pop chiclete através do belo uso de guitarras e batidas consequentes, prova que Mitski sabe como torna-se o centro das atenções.

Nesse meio tempo, temos “Everyone“, uma faixa densamente chata, porém, o piano que a encerra é curiosamente implacável e majestoso. Não salva toda a canção, mas cede uns segundos minimalistas incríveis em toda a investida. Já “Heat Lightning“, que possui em alguns momentos a mesma fração de batidas, é aurélia e nos faz criar imagens inquietantes. É nessa ruptura que nos damos conta de duas pontas e dois extremos. Enquanto temos a promoção ao seu típico som pensante sobre anseio, receio, amor e pertencimento, em outros momentos, tal ápice se concentra e se preza na diferença. Não é como se não houvesse apego em idealizar algo que não é feito rotineiramente, ele existe e vezes se sai bem, em outras, não. Há ainda o maior respeito por entender todo o conceito da mais singela tentativa.

Isso não torna o “Laurel Hell” fraco, é o oposto; o seu corpo inclina-se para ganhar preenchimento por justa causa, enquanto a sua alma (ou a de quem escuta) ganha momentos de sobra para se arrepiar. “That’s Our Lamp” por exemplo, causa uma febre ambiciosa em qualquer um. A música de encerramento toma para si uma bagunça deliciosa indo nas ondas que Kate Bush gosta de evocar. As pessoas falando, os instrumentos em um maior tom, Mitski praguejando sobre um amor tão incandescente como a luz da lua presa dentro de um lampião, tornam toda a peça em uma mistura encantadora.

Somos feitos de momentos, e em certas ocasiões pisamos cuidadosamente no escuro sem ter a mínima ideia do que encontrar a frente. A falta de uma luz, cega. No fim, não podemos ter controle do que vem a seguir, mas podemos cogitar. Se atrelarmos isso ao destino, universo ou seja o que for, devemos ao menos agradecer pela dádiva da tentativa. É complexo, mas a Mitski com o “Laurel Hell” corresponde por esse tipo de pensamento, e ao mesmo tempo destrincha muito do que o ocasionou. Seja pelas letras, o feito lírico aqui é insano, ou pela estética sonora aplicada. Tudo faz sentido e ao mesmo tempo, também cede um pouco de sentido.

Nota do autor: 80/100

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