Sabrina Carpenter entrega comédia romântica musicada em “Man’s Best Friend”

Entre clichês divertidos e reviravoltas musicais, Sabrina Carpenter transforma “Man’s Best Friend” em uma comédia romântica pop — irônica, dançante, mas por vezes repetitiva

Uma protagonista carismática, irônica, mas ao mesmo tempo meio ingênua, pronta para rir — e chorar — dos seus próprios tropeços amorosos. A trilha de abertura é “Manchild”, quase como um meet-cute desastroso: ela encontra homens que se comportam como garotos, e a câmera corta entre olhares de deboche e suspiros de exasperação por meio de um pop vintage que faz resgates ao country americano e à disco oitentista. Sabrina Carpenter tem sua comédia romântica musicada em Man’s Best Friend, o sétimo álbum da carreira da artista, lançado nesta sexta, 29 de agosto, junto ao videoclipe do segundo single “Tears”, e em tempo do anúncio de sua vinda ao Brasil no próximo ano para uma apresentação no Lollapalooza Brasil. 

Que a cantora, compositora e também atriz faz referências ao cinema em suas canções é fato, mas em seu novo trabalho isso ficou ainda mais explícito.  O risco, porém, é o mesmo das comédias românticas tradicionais: cair no rótulo de “água com açúcar”, aquelas produções leves e previsíveis. Carpenter chega perto dessa fronteira. O olhar crítico sobre o comportamento masculino é legítimo — afinal, não é difícil concluir que a masculinidade está em crise —, mas a insistência em repetir o tema em quase todas as letras torna o disco um tanto quanto repetitivo, soando como uma extensão de Short n’ Sweet (2024), trabalho que a levou ao estrelato com músicas como “Espresso”, “Please Please Please” e “Taste”, além de render dois Grammys.

Em seu novo momento, Carpenter renova a parceria com Jack Antonoff na produção musical, colaborador em Short n’ Sweet (2024) e e-mails i can’t send (2022), além de grandes  nomes do showbizz como Taylor Swift, Lorde e, entre outras, Lana Del Rey. Além disso, a produção tem ainda o olhar de John Ryan, que já atuou com Harry Styles, One Direction e John Legend, por exemplo. As composições são assinadas principalmente por Sabrina e Amy Allen, que está por trás de algumas letras de Selena Gomez e Halsey, mas também tem um toque de Antonoff. O resultado é um pop retrô, com reedições modernas da disco music dos anos 80 e do country americano. Para o trabalho, a artista teve como inspirações cantoras como Dolly Parton e Donna Summer.

Com 12 faixas, pouco mais de 36 minutos de duração e uma capa provocativa, em que Sabrina está ajoelhada diante de um homem uma posição quase sexual, Man’s Best Friend traz a proposta de falar do desejo sexual feminino sem meias palavras e com humor, ainda que isso possa ser interpretado de forma negativa, como em tom de submissão. No entanto, ela deixa claro, por meio de recursos como a ironia e metáforas de duplo sentido, que não está ali apenas para servir, mas também para ser servida.

O primeiro single, “Manchild”, já conhecido do público há meses, diverte e salva pela caricatura, mas em uma audição atual não é difícil pulá-lo. O álbum começa a esquentar em “Tears”, onde Sabrina chora (mas não diz por onde!?), em uma de suas composições mais divertidas. Dali em diante, sucedem-se relatos de relações turbulentas em um pop chiclete: a falta de desejo após certo tempo de namoro (“My Man on Willpower”), brigas seguidas de reconciliações regadas a sexo (“We Almost Broke Up Again”), conversas vazias (“Sugar Talking”) e até um diálogo imaginário com a sogra sobre o “bebê dela” (“Nobody’s Son”).

O disco ganha fôlego quando o country pop aparece mais nitidamente e a comédia romântica entra em sua fase de virada. Entre maldições cômicas — como desejar que o ex nunca mais faça sexo em “Never Getting Laid” — e reencontros surpreendentes, como em “When Did You Get Hot?”, em que um ex-colega de escola, antes invisível, reaparece irresistível, Carpenter conduz sua narrativa com leveza.

Ainda na fossa, em “Go Go Juice”, busca consolo no álcool antes de ganhar coragem de ligar para alguém. O processo de superação se estende em “Don’t Worry I’ll Make You Worry”, em que roga outra praga ao ex. O ápice vem com a disco “House Tour”, uma das melhores faixas, em que a artista usa a metáfora da casa para falar do próprio corpo, convidando o amante a explorar cada aposento — ou desejo. Como uma mulher do século XXI, Carpenter recusa finais fáceis. Sem casamento nem reconciliação como em uma comédia romântica moderna, ela encerra o álbum como heroína solitária, consciente de que não vale a pena insistir em relações frágeis. “Goodbye” é o sopro de lucidez que encerra Man’s Best Friend: um adeus a amores incompletos e um abraço em direção à autonomia. Ou, quem sabe, o início de um novo ciclo de relações viciadas?

68/100

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