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Taylor Swift e maturidade: como os fãs adultos acompanham sua evolução e se identificam

Foi-se o tempo em que dizer “Taylor Swift não é uma artista madura” faria qualquer mínimo sentido.

Uma discussão antiga a respeito de Taylor Swift é sobre o que ela canta, e como ela canta sobre as histórias presentes nas suas composições. A cantora que nasceu em dezembro de 1989 nunca foi utilizada como grande exemplo de uma artista madura, justamente pela fantasias que escrevia em letras que majoritariamente falavam sobre romances adolescentes quase impossíveis.

Agora, após um lançamento (surpresa) do novo álbum ‘folklore’, algumas pessoas estão finalmente percebendo que a sua abordagem tem ficado um pouco diferente. No lugar de metáforas com Romeu e Julieta e fantasias de um par perfeito que existiam apenas em sua cabeça, agora temos confissões de erros constantes, narradores não confiáveis, alguns palavrões e um pouco mais de álcool.

Uma boa surpresa com o novo disco foi perceber que ela funciona muito bem como contadora de histórias, como falamos na nossa review aqui. Mas alguns questionamentos são; quando ela conta sobre sua própria vida seus fãs se identificam? O que é ser fã da cantora enquanto uma pessoa adulta?

O ESCUTAI pediu a ajuda de três admiradores para que cada um falasse um pouco sobre o tema, o plano inicial seria encontrar pessoas com a mesma idade de Taylor, mas isso não foi fácil… então seguimos com idades próximas, para falar sobre o tema ‘Taylor Swift e maturidade‘.

Taylor Swift tem 30 anos, se no passado poderia ser difícil encontrar fãs brasileiros com sua média de idade, agora não é mais. A cantora cresceu com grande parte do seu público, e cada um tem seu motivo (e sua época) em que percebeu que as músicas da loira faziam parte de sua vida.

(Divulgação/escutai/Taylor Swift)

“A minha história com Taylor Swift começa com a Taylor de raiz, da ‘fazendinha’. Ela tinha acabado de lançar seu primeiro single, Tim McGraw, em 2006 e na época eu tinha 13 anos, mas só fui fisgada mesmo uns meses depois, quando o álbum saiu, com músicas como Teardrops On My Guitar, Our Song, Should’ve Said No e Mary’s Song.” diz Jéss Souza (28 anos), que inclusive passou a estudar produção musical em razão dessa influência e inspiração antiga na cantora.

Encontrar aqueles que tiveram o primeiro contato com o violão graças aos acordes de Tim McGraw, Teardrops On My Guitar ou qualquer música do álbum Fearless é algo comum entre os ouvintes. Mas nem todos partem dessa premissa mais raiz. Ouvir música pop hoje em dia tem uma ligação muito grande com estar antenado com o estilo, como acompanhar novos artistas, as músicas que estão bombando e premiações.

“…passei quase dois anos ouvindo a Taylor, sem saber que ela era uma artista premiada e consagrada na mídia, nunca fui ligado no mundo pop e em charts. Depois que entendi a grandeza que ela é na música.” um ponto fora da curva que aconteceu com Michael Pratini (27 anos).

Imaturidade e maturidade visto pelos olhos de quem a conhece

Um ponto de discussão sobre a maturidade comportamental e musical da cantora teve muitas opiniões após o lançamento do primeiro single do álbum ‘Lover’. ‘ME!’ foi recebida com controvérsia, e houve quem achasse que toda a evolução havia simplesmente sido deixada para trás. Nós perguntamos sobre como é a identificação com letras e seu ponto sobre um tópico polêmico: a discussão sobre o público da cantora ser ou não formado majoritariamente por adolescentes. Essa discussão também fez com que a cantora Charli XCX (ato de abertura da ‘Reputation Tour’) tivesse que se explicar nas redes sociais após um comentário sobre a idade do público nos shows.

(Divulgação/escutai/Taylor Swift)

“Eu senti imaturidade nas letras da Taylor em poucas ocasiões… nós temos exatamente a mesma idade, crescemos juntos e passamos por situações muito parecidas (como retratadas nas músicas ‘Blank Space’, ‘All to Well’, ‘Mean’ etc). Taylor sempre me surpreendeu como letrista, eu via mais imaturidade na estética das eras, como por exemplo a era ‘Lover’.” diz Brunno Dias (30 anos).

Sobre esse assunto, o ESCUTAI decidiu tocar um pouco mais na ferida e fazer o papel de advogado do diabo. Perguntamos o que os entrevistados acham sobre o (provável) motivo de não existirem tantos fãs de Taylor Swift que tenham quase a idade da cantora ou mais, assim como eles. Inclusive, as razões de discordância se provam como ótimos argumentos.

[Brunno Dias / 30] “Eu não acho que seja isso, eu acho que esse público não é tão ativo em fóruns, discussões ou redes sociais, quando você olha os vídeos de shows é possível notar fãs de todas as idades, acredito que eles não sejam maioria, mas que esse álbum venha angariar mais dele, já que é um álbum muito abrangente, sonoramente falando”.

(Divulgação/escutai/Taylor Swift)

[Jéss Souza / 28] “Há uma generalização de que fãs de Taylor Swift são pré-adolescentes, e de fato há uma grande maioria jovem, mas pelo que acompanho no fandom, a média de idade de fãs da Taylor varia entre os 12-75 anos (!), e isso é um leque muito grande. Só mostra o quanto a música dela é universal. Inclusive, tão universal que eu espero que um dia as pessoas descubram que existem fãs racializados e que definirem os fãs de Taylor Swift apenas como gente branca apenas contribui para um apagamento deles numa sociedade que já é mega racista. Creio também que esse público majoritariamente jovem e feminino muito se dá por ela ser uma mulher na indústria, então sempre rola muito preconceito. E o público geral ainda não é livre de qualquer julgamento e tem uma visão sobre algo/alguém muito ligada a como a mídia retrata essas pessoas, o que cria uma certa barreira, já que a mídia sempre retratou a Taylor como uma “devoradora de homens” e “alguém que se faz de vítima”, pra citar alguns termos.”

[Michael Pratini / 27] “Acredito que a resposta para essa pergunta está em engajamento. Muitos adultos acompanham Taylor Swift, mas o engajamento em votações, campanhas no twitter, instagram, fã-clubes é um padrão mais comum em adolescentes. O que quero dizer com isso é que mais adultos podem acompanhar o trabalho dela e mais adolescentes são fãs de carteirinha, estes são mais dedicados a um artista pop, talvez seja isto. Uma exceção interessante é que sigo vários páginas no twitter de swifties que são adultos. Aqui no Brasil, eu ainda não vejo, por exemplo, a cultura de música pop internacional sendo consumida pela grande massa, exceto hits mundiais, como os adolescente são mais antenados no que vem de fora, isso pode auxiliar no consumo de música pop no geral, ser mais fortes entre adolescentes.”

A generalização existe desde muito tempo, partindo de simples ataques ou até com observações que validariam esses pontos. Mas é fato que basta enxergar de uma forma mais profunda para entender que todas essas respostas poderiam facilmente se convergir, para provar que o fandom de Taylor Swift está cada vez mais abrangente no que diz respeito à faixa etária. Talvez este reflexo não seja tão grande no Brasil (vide o foco em entrevistar pessoas adultas, dando a visibilidade), o que acaba causando a impressão de um público completamente nichado em adolescentes.

(Divulgação/escutai/Taylor Swift)

O ativismo social nos tempos atuais

Uma grande cobrança sobre a cantora era o fato dela nunca falar sobre causas ativistas. E no passado nem sequer citava sobre suas preferências políticas, o que causava muitas críticas… tanto de quem não gostava da personalidade quanto de quem a acompanhava. Agora as coisas mudaram (e muito), Taylor é uma voz ativa no que diz respeito a vários ativismos sociais, desde ligados a LGBTQI+ e o famoso movimento ‘Black Lives Matter‘.

Este questionamento foi um dos pontos principais no documentário da Netflix sobre a sua vida; ‘Miss Americana’. Lá ela fala muito sobre o quanto pensava no que pensariam sobre ela, o quanto ser uma modelo perfeita de neutralidade fazia bem para sua carreira e para ela mesma (também por não se ver tão evoluída para sequer entrar em discussões sobre os assuntos). O crescimento de interesse sobre temas importantes e o reflexo nos fãs foi uma das coisas que tivemos interesse em saber, sobre a opinião do engajamento, e se isso é importante para a carreira de alguém;

[Michael Pratini / 27] “Eu gosto muito quando ela se posiciona nessas causas importantes, sobretudo pela voz na mídia que ela tem, pelo público grande que a acompanha e pelo fato de que ela pode induzir a uma reflexão nestes e desse modo gerar uma sensibilização. Não acredito que isso seja um fator importante para a carreira, mas um fator diferencial, talvez seja pesado julgar um artista pelas causas que ele se posiciona publicamente, porque ele pode está trabalhando por um causa nobre sem que ele faça isso publicamente, mas sim, mostrar-se interessado nessas causas, ter voz ativa é um ponto bastante diferencial.”

[Jéss Souza / 28] “Acho crucial que famosos e influencers usem seu espaço público pra falar sobre política. Claro que você tem total direito de não se pronunciar, mas escolher ficar calado (ainda mais sobre questões tão relevantes como as atuais) é simplesmente não se importar. Se você tem uma plataforma que permite que a mensagem chegue mais longe, use-a. E uma artista como Taylor, que possui uma das maiores plataformas online, tendo inclusive praticamente 2 milhões de seguidores a mais que Donald Trump, usando a influência que tem pra ajudar a dar voz e aumentar a conscientização sobre questões político-sociais e se posicionando sobre a luta antirracista e antifascista é algo extremamente significativo e que pode ajudar a causar um grande impacto na sociedade, principalmente quando muitos de seus fãs são jovens e estarão votando pela primeira vez, por exemplo.”

[Brunno Dias / 30] “Sim, acho de extrema importância, tudo que possa de alguma maneira ajudar em um movimento tão sério, precisa ser abordado, Taylor já conquistou tudo em relação a charts e prêmios, lidar com esses temas fortalece seu nome não somente no aspecto musical, mas tbm social e histórico, desde de que seja abordado com respeito e cuidado.”

(Divulgação/escutai/Taylor Swift)

A TRANSIÇÃO PARA A NOVA SONORIDADE

Com a surpresa do novo álbum também veio uma nova sonoridade. Trabalhando pela primeira vez com o produtor Aaron Dessner, o pop do antigo disco deu lugar a uma pegada mais folk, e esse se tornou aquele tipo de trabalho que muitos sempre esperavam. Sem perder a pegada de como escreve suas canções, o projeto conseguiu trazer maturidade nas composições e surpreender até os mais céticos. O aproveitamento foi ótimo e ‘folklore’ vem sendo um sucesso de vendas (encabeçado inclusive pelo #1 do single ‘cardigan’). Sobre isso, a opinião dos fãs foram muito favoráveis;

[Brunno Dias / 30] “Eu fiquei muito feliz com a transição, eu acompanho música pop desde que Britney estava em seu auge, eu sempre disse que, infelizmente, artistas pop, principalmente mulheres, tem validade para o mercado que consome música pop, são muito raros os casos que passam dos 30 anos e que se a Taylor quisesse longevidade ainda maior em sua carreira, ela deveria migrar o estilo, ter uma estética e uma abordagem mais madura, focar em seu nome e legado, tudo que ela precisava em matéria de charts, já foi alcançado, agora e ela, sua arte e o que ela quiser fazer. Eu não acredito que ela permanece somente nesse estilo, deve voltar suas origens mesclando a experiência do pop e folk que ela adquiriu.”

[Jéss Souza / 28] “Achei incrível! Sou totalmente a favor de artistas transitarem entre gêneros, descobrirem novas referências e experimentarem estilos de música -e de como fazer música- diferentes. Isso é algo que contribui muito no crescimento e evolução como artista. Eu gosto muito das outras eras, mas particularmente eu ficaria feliz se ela fizesse mais álbuns na mesma linha de Folklore. Além de ser um projeto mais focado nas composições dela e na característica do storytelling, o Folklore tem uma produção que apesar de ser mais simplista em comparação ao Reputation ou 1989, que são bem mais pop/electropop por exemplo, é uma produção que ressalta não só essas composições, mas a voz dela também. Folklore me fez lembrar o quanto estou ansiosa pra ouvir as regravações dos seus álbuns antigos, agora que a voz dela está mais madura do que na época quando as músicas foram originalmente gravadas. E um bom exemplo disso é a apresentação acústica de Holy Ground que ela fez pra BBC Radio 1 ano passado. Acho que com o Folklore ela esteja testando as águas pra ver qual a recepção que ela teria com um álbum mais alternativo, e bom, pela recepção positiva que teve, tanto dos fãs quanto da crítica, seria muito interessante se tivesse outros projetos no mesmo estilo vindo aí. Mas ainda é muito cedo pra dizer, só sabemos que de acordo com o contrato dela com a Universal, ela tem pelo menos mais três álbuns pra serem lançados, e alternativo ou não, tenho certeza que ela vai se superar mais uma vez.”

[Michael Pratini / 27] “No Folklore a gente consegue enxergar um ápice na composição e na sonoridade. A Taylor que já tinha falado de Política, machismo e doenças em Lover, volta a compor sobre isso com letras mais reflexivas, intimistas e produções mais adultas e maduras. Além do que, o storyteeling, o contar histórias, que eu já tinha visto em algumas músicas nos álbuns anteriores, percorre agora praticamente todas as músicas desse disco, com histórias que se misturam e conversam umas com as outras, histórias que conversam com o mundo real e histórias que são imaginárias, com todas fazendo a gente imaginar um universo de possibilidades. Isto foi um ponto chave, é como ouvir um livro de contros. Folklore é um álbum diferente, inesperado e inacreditável. Sabia que ela iria fazer um álbum assim, mas não conseguia visualizar que ela faria agora. Cada vez mais a admiro como artista, não no sentido de pessoa pública, mas no sentindo de quem faz arte.”

O que resta é dar uma chance para enxergar a cantora da mesma forma que aqueles que a acompanham recomendam. Foi-se o tempo em que dizer “Taylor Swift não é uma artista madura” faria qualquer mínimo sentido, ela é adulta, só algumas pessoas que não perceberam. 30 anos é uma idade significativa no que diz respeito a maturidade, e a artista finalmente parou de buscar a validação que sempre tentava abraçar. Seu patamar hoje em dia é de super estrela, de modo que seu nome ainda vai ecoar durante muito tempo na indústria.

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Esta matéria só foi possível devido ao engajamento dos Swifties Michael Pratini, Brunno Dias e Jéss Souza! O ESCUTAI agradece pelo tempo investido em responder a entrevista e pela participação. ❤

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