Para uma considerável parcela do ocidente, provavelmente, o tênis de mesa não seja a primeira opção de esporte para assistir e torcer, mas e Marty Supreme, filme que chegou às telas brasileiras oficialmente no dia 22 de janeiro, o público irá descobrir que um mesatenista pode ter uma vida tão agitada quanto um jogador de futebol.
Dirigido por Josh Safdie (Jóias Brutas — Uncut Gems, 2019), estrelado por Timothée Chalamet, produzido pela A24 e distribuído pela Diamond Films, Marty Supreme inspira-se no excêntrico atleta Marty Reisman para criar Marty Mauser, um jovem ambicioso que sonha em vencer o mundial de tênis de mesa. A partir deste mote, vemos o grande papel de Chalamet.
Para o plano de fundo desta história, o filme acontece em 1952, no pós-Segunda Guerra Mundial: um período de reconstrução da identidade dos países, início da Guerra Fria, recuperação econômica e a imigração de famílias e sobreviventes judeus para os EUA, tal qual a do protagonista. Ou seja, para além do esporte, este filme é sobre a busca incessante pelo sucesso difundido na cultura estadunidense, que aposta num esforço sobre-humano para atingir o ideal de vida americano, algo difundido ao longo de muitas décadas.
Marty Mauser, certamente, é um personagem inesquecível, mas este sentimento nasce no público justamente por ele ser o oposto do mocinho tradicional. O personagem em momento nenhum tenta nos conquistar, seus objetivos são outros e sua personalidade corresponde a isso: ele é um completo babaca, mimado, egoísta, inconsequente, desequilibrado, ansioso, mas principalmente: cativante. Justamente por isso, sua determinação e presunção, que são os combustíveis que conduzem a narrativa toda do filme.
Esta irreverência do personagem nasce graças ao roteiro de Josh Safdie e Ronald Bronstein, que exploram diversas camadas do personagem e criam os desafios mais imprevisíveis num ritmo frenético e um humor afiado. Unido a isso, há a potente interpretação de Timothée Chalamet, que consegue criar uma atmosfera de tensão e ansiedade que caminham com o personagem e dá ao público ao longo de 149 minutos uma constante sensação de atraso, como se Marty fosse tanto Alice quanto o Coelho, correndo contra o tempo.
Essa constante experiência de inquietação dele ainda possui um forte apoio em outros elementos, como a trilha musical original de Daniel Lopatin que aposta em sintetizadores firmes, colocando uma camada de tensão e agito no ar, mas também um toque moderno em relação ao ano retratado.

Marty Mauser contra o mundo
Da forma mais ambígua e quase absurda, Marty é o herói desta história. Apesar de toda as suas atitudes questionáveis, o longa é construído para que o público queira que ele alcance seu objetivo, enquanto que a grande maioria dos personagens o impedem com veemência.
Seja a sua família dedicada a tentar prendê-lo a uma vida pacata como vendedor de sapatos em Nova Iorque, até o magnata das canetas que, assim como Mauser, possui uma arrogância imprescritível, mas com o aporte do dinheiro para justificar seu comportamento, também torna-se uma pedra no sapato do mesatenista.
Ele ainda lida com a imprevisibilidade constante, como o incidente do cachorro – uma subtrama muito interessante, que o leva a lidar com as tudo o que ele deixa para trás, dentre elas, Rachel, sua amiga e amante interpretada por Odessa A’zion que ganha um breve protagonismo neste enredo e traz uma atuação notável. Destaque também para Tyler Okonma (Tyler, The Creator) e Abel Ferrara: o primeiro por Wally, amigo e colega de tênis de mesa de Marty e que, assim como A’zion, criar uma parceria excelente com Timotheé Chalamet. Já o segundo pela atuação como o gângster em busca de por seu amado cachorro após um acidente em um hotel.
Ênfase para o retorno Gwyneth Paltrow ao cinema, entregando Kay Stone, uma atriz que se prepara para voltar aos palcos, casada com Rockwell, o milionário do ramo de canetas, e amante de Marty. Seu trabalho não chega a ganhar algum espaço próprio, mas ela funciona bem em cena com o protagonista.
Mas voltando um pouco para os obstáculos que Mauser enfrenta, o mais massivo e fascinante é seu rival na mesa: Koto Endo, um herói de guerra do Japão e deficiente auditivo. Ele representa tudo aquilo que nosso herói (ou melhor, anti-herói) não é: centrado, calmo, mais maduro, amado e apoiado por uma nação, ele vive o sonho americano no Japão. Não importa quantos gritos e ofensas Marty professe, ele não as ouve, e mesmo que ouvisse, não seriam tão importantes quanto toda a sua história e fama.
É inegável que todas as cenas, apesar de poucas, que contam com Endo e Mauser são de tirar o fôlego. Obviamente, há um papel fortíssimo na fotografia do filme, que muitas vezes encurrala o espectador. Só que é impossível não notar como a diferença entre os dois causa um sensação que te leva a tirar o apoio das costas e se aproximar da tela. Obra diretor de fotografia do longa, Darius Khondji. E isso se deve também a atuação silenciosa, mas marcante do mesatenista japonês Koto Kawaguchi, que assim como seu personagem, também é deficiente auditivo.

Uma trilha musical anacrônica
Como dito anteriormente, para a trilha original feita por Lopatin aposta em sintetizadores, o que provoca uma sensação oitentista, quase como se o filme se passasse dentro de um jogo arcade. Mas além das músicas originais, há um seleção de diversos sucessos que marcaram os anos 1980.
Este anacronismo traz mais uma nova camada de sentido para o filme, pois apesar de haver músicas da época do filme, o anos 1950, todas as músicas são tocadas no ambiente, ou seja, elas participam do contexto. Contudo, as dos ano 1980, são tocadas para o público, o que dá a sensação de que elas estão na mente de Marty.
O que isso pode simbolizar? Bom, pode-se imaginar que sua ansiedade leva a viver sempre no futuro. Sua pressa pelo sucesso, a ganância que o move e a esperteza assemelha-se até aos famosos yuppies: jovens, inteligentes, ambiciosos, trajados de belos ternos que surgiram em meados de 1980.
Quanto às músicas: houve uma seleção muito acertada de hits marcantes e que são capazes de auxiliar em toda a atmosfera das cenas. Alguns exemplos são em cenas como sua fase no circo, em que “Everybody’s Gotta Learn Sometime”, do The Korgis é tocada ou até mesmo na cena de tensão protagonizada por Rachel paralela ao treino de Marty, onde “Perfect Kiss”, do New Order, cria o clima de inquietude. Destaca-se também o momento em que os versos “Welcome to your life/ There’s no turning back” (“Bem-vindo à sua vida/ Não há volta”) da canção “Everybody Wants To Rule The World”, do Tears For Fears ganha um novo significado, na cena final.
Marty Supreme é um filme tipicamente americano, com os meandros das histórias de superação e meritocracia que já se vê em muitas histórias, além das personalidades questionáveis já vistas em outros filmes neste estilo (vide “Touro Indomável”). Mas mesmo com uma fórmula já conhecida e repetida diversas vezes, e alguns momentos em que a história se perde em meio aos vários conflitos, o longa tem uma excelência notável, muito por sua direção, na trilha musical, mas principalmente por Timothée Chalamet, que certamente será um grande, se não o maior concorrente para Wagner Moura no próximo Oscar.









