A mentira realmente tem pernas curtas? Para Belle Gibson, não foi bem assim. Vinagre de Maçã (Apple Cider Vinegar, no título original), nova série inglesa da Netflix, narra a história real de uma influenciadora australiana que construiu um império em cima de uma farsa. Em seis episódios intensos, a série expõe um dos maiores escândalos do mundo wellness (bem-estar), revelando os perigos da desinformação sobre saúde e seus efeitos devastadores.
Belle surgiu no Instagram, em 2009, dizendo ter um tumor cerebral inoperável. Rejeitou a quimioterapia e afirmou ter se curado com alimentação saudável e terapias naturais. Sua narrativa comoveu milhares de pessoas. Com carisma e poder de persuasão, lançou um app e um livro de receitas, The Whole Pantry, que virou best-seller e chegou a ser incluído no lançamento do Apple Watch.
O problema? Nada disso era verdade. Belle nunca teve câncer. Sua história foi meticulosamente inventada. Sua influência levou muitas pessoas a abandonarem tratamentos médicos reais em nome de soluções sem base científica. Uma mentira nunca lucrou tanto. Mas, Vinagre de Maçã vai além da fraude de Belle Gibson (interpretada por Kaitlyn Dever na série).
A série mostra como a impessoalidade da medicina tradicional pode empurrar pacientes para caminhos alternativos e perigosos. Em uma das cenas mais marcantes, Mila Blake (Alycia Debnam-Carey), jovem diagnosticada com um raro tipo de câncer, é informada da necessidade de amputar o braço em uma sala de reunião longa e fria, cercada de médicos. A decisão, para eles, é técnica, mais um dia de trabalho; para ela, é um trauma.
Essa desumanização é real. Muitos, diante disso, buscam alternativas mais acolhedoras — ainda que baseadas em pseudociência. E Belle Gibson soube explorar e vender isso como ninguém. Seu trunfo não foi só a mentira, mas o que ela simbolizava: uma cura “natural”, sem sofrimento, em contraste com os tratamentos agressivos da medicina tradicional. O escritor Alexander J. Porter, sobrevivente de leucemia, relata que teria considerado esse caminho se houvesse alguma alternativa real à quimioterapia. Mas não havia. E é essa ilusão que Belle vendeu.
A história de Mila, inspirada na influenciadora Jessica Ainscough, reflete essa armadilha. Jessica também abandonou a quimio e, quando decidiu voltar ao tratamento, já era tarde. Na série, o câncer de Mila avança, e a medicina tradicional não consegue mais salvá-la.
O que assusta em Vinagre de Maçã não é só Belle, mas a quantidade de pessoas que acreditaram nela. O que leva alguém a trocar tratamentos comprovados por sucos detox e enemas de café? A resposta é simples: esperança.
Porter descreve o desespero que sentiu ao receber seu diagnóstico. Se houvesse um caminho mais fácil, ele teria tentado. Belle ofereceu exatamente isso: uma tábua de salvação falsa — como fez com Lucy (Tilda Cobham-Hervey), personagem da série que, em estágio avançado de câncer, vê em Belle uma última esperança.
Hoje, a desinformação sobre saúde circula com força nas redes. Qualquer influenciador pode virar especialista e vender “curas milagrosas” sem comprovação. Belle Gibson não foi a primeira — e não será a última. A esperança não pode ser uma armadilha. E, por mais difícil que pareça, a verdade ainda é a única chance real de sobrevivência