Há algumas semanas, Emerald Fennell deu uma entrevista pra a Fandango e falou sobre um detalhe importante na divulgação de O Morro dos Ventos Uivantes — ou Wuthering Heights, em seu título original. No cartaz, é possível ver o título do filme entre aspas, o que ajuda a entender melhor a ideia geral. Na entrevista, a diretora explicou que “não é possível adaptar um livro denso como esse”. “Não posso dizer que estou adaptando o livro, mas posso dizer que estou fazendo uma versão dele — do livro que eu me lembro de ler e que não é tão real; é uma versão que tem coisas que eu queria que acontecessem e não aconteceram; então é o livro, mas não necessariamente.” Isso acrescenta uma camada de sentido enorme pra diversas escolhas. Além de negar a fidelidade ao romance de Emily Brontë, o filme assume a instabilidade dessa memória como narrativa. É aí que ele encontra sua própria identidade.
Deixando questões emblemáticas sobre a adaptação, as escalações e outros caminhos seguidos por Emerald de lado, o longa não promete de fato ser uma adaptação do clássico, e isso remove ele dessa prateleira, mesmo que não o retire por completo da categoria. Aos olhos da diretora, O Morro dos Ventos Uivantes é um cinema sem correlações, que anda sozinho e com autonomia, reconhecendo a obra da qual foi retirado e, com cuidado, criando novas interseções na tela. Essa autonomia se manifesta sobretudo na recusa de explicar emoções por meio do diálogo, deslocando o peso dramático pra toques, silêncios e enquadramentos de rosto. E isso fica visível logo nos primeiros momentos.

Jacob Elordi e Margot Robbie estão em completa sintonia em todas as cenas em que aparecem. É inebriante como os dois constroem a relação tóxica extremamente dependente entre Cathy e Heathcliff. O elenco secundário atua como contenção emocional, orbitando o casal e reforçando o isolamento quase claustrofóbico dos protagonistas. Mas a superficialidade desses personagens incomoda. Seria interessante saber mais o que Isabella acrescentaria aqui, ainda mais depois de seu ponto de virada. E até Nelly, que, apesar da atuação parruda de Hong Chau, deixa um gosto de curiosidade sobre suas próprias determinações.
O Morro dos Ventos Uivantes não esconde a ambição de ser um filme completamente sensorial — e a trilha sonora é uma das camadas mais evidentes disso. Charli xcx assina doze músicas originais no filme, encaixadas milimetricamente a cada momento em que são ouvidas, impulsionando o contraste de cada cena em tela. No time de criativos ainda estão Finn Keane, Sky Ferreira (lembra dela?), Joe Keery (Djo), Justin Raisen e o incrível John Cale — que aparece em “House”, faixa de abertura do disco e também do filme. Ainda que a trilha funcione como camada emocional escrachada, há momentos em que sua presença constante parece guiar demais a reação do espectador.
A direção de fotografia de Linus Sandgren (La La Land) é parte protagonista da história ditando que o sensorial não é apenas no som, mas também no visual. Ao lado de Tom Cross, que assume a edição/montagem, narram de forma quase primordial detalhes não ditos. Janelas aprisionam e libertam; cômodos guardam grandes segredos, mas também enclausuram o telespectador, como o quarto de Cathy, com paredes literalmente semelhantes à sua pele. O drama de um céu cor de fogo na despedida de Heathcliff e um campo inebriante de inverno onde Cathy devaneia com esperança tornam as cenas quase palpáveis e, honestamente, difíceis de passar despercebidas. Já figurino, comandado por Jacqueline Durran, dita o tom exageradamente temporal de tudo, sendo parte viva da história.

Independentemente das contradições do filme, O Morro dos Ventos Uivantes não é modesto em sua pretensão de ser inesquecível, se posicionando numa linha tênue entre a época retratada e o que hoje chamamos de moderno. Essa tensão aparece tanto na trilha pop quanto na forma como os personagens se comportam emocionalmente, mais próximos da linguagem contemporânea do que do romantismo trágico do século XIX. A assinatura de Emerald Fennell é notável e se torna ainda mais evidente ao considerar o que a trouxe pra conversa, como foi com Barbie. Isso dá o tom de como ela gosta de contar histórias, sejam elas absurdas ou completamente históricas.
Sair da sala de cinema sem saber o que dizer não é exagero, ainda mais para quem não sabia o que esperar. Mas isso é realmente bom ou apenas uma adrenalina temporária? Ainda que dialogue diretamente com o romance de Emily Brontë, o filme abandona a estrutura narrativa fragmentada do livro pra investir em uma experiência mais corporal e sensual. Em alguns momentos, essa aposta sensorial ameaça diluir conflitos que, na obra original, são sustentados por aquele texto e pela repetição do trauma. Mas ao deixar isso de lado, é possível entender que não se trata de uma versão quase-fiel de O Morro dos Ventos Uivantes, e sim de uma lembrança exuberante e apaixonada dele.









