Charli xcx quer sair da pista de dança — e ir direto para o cinema

Enquanto o impacto de Brat ainda domina a cultura pop, a artista expande sua trajetória no cinema

Charli xcx sempre foi uma artista difícil de definir. Mesmo antes de se tornar um dos nomes mais influentes do pop contemporâneo, sua carreira já transitava entre o experimental, o mainstream e o underground sem nunca parecer totalmente confortável em nenhum desses lugares. Mas quando o Brat explodiu, parecia que ela finalmente tinha encontrado sua fórmula definitiva: um disco que funcionava musicalmente, criticamente e culturalmente. Mais do que um conjunto de faixas bem-sucedidas, “Brat” se tornava uma estética, comportamento e linguagem.

O caminho mais óbvio depois disso provavelmente seria insistir nessa fórmula até ela esgotar. Repetir a estética, ampliar esse conceito e repetir sem parar, mas na verdade, enquanto vários artistas ainda tentam produzir suas próprias versões do universo “brat”, Charli parece interessada justamente em um movimento contrário.

Por isso, quando ela provoca a ideia de que a pista de dança morreu em “Rock Music”, a sensação não é de uma nostalgia aleatória ou provocação vazia. Parece ser, na verdade, um reconhecimento de que a cultura que ajudou a construir já mudou — e que talvez ela também precise mudar junto. Por isso, enquanto muita gente ainda debate se Charli xcx salvou ou matou a cultura clubber contemporânea, talvez o mais interessante seja perceber que ela já está olhando para outro lugar — que parece ser o cinema.

Enquanto questiona os próprios limites dentro da música pop, Charli tem feito movimentos quase silenciosos que expandem sua presença nas telas. Só neste ano, a artista assinou a trilha sonora da nova adaptação de Wuthering Heights e aparece envolvida em uma sequência de projetos cinematográficos completamente diferentes entre si.

Em The Moment, lançado no começo do ano, ela participa de um mockumentary que provoca justamente as ideias de fama, imagem e identidade, temas que sempre acompanharam sua trajetória como artista pop, principalmente na era Brat. O projeto funciona quase como uma extensão natural das discussões que ela já fazia na música, mas agora deslocadas para outra linguagem mais visceral, irônica e debochada.

Depois vem Erupcja, que chega hoje (21) aos cinemas e entrega como um projeto mais intimista, caótico e experimental. É o tipo de filme que comprova um lado mais arriscado da artista e mostra uma disposição real em ocupar espaços diversos no mundo da atuação.

No meio disso tudo, ela ainda aparece em 100 Nights of Hero, uma fantasia romântica e medieval em que interpreta uma bruxa — um imaginário completamente distante da estética hyperpop que normalmente associamos a ela.

E talvez o projeto mais inesperado dessa nova fase seja Faces of Death, com Charli atuando nesse revival de horror extremo setentista que trás um gore violento e desconfortável para Hollywood.

Esses projetos não parecem escolhas aleatórias feitas por uma popstar tentando diversificar a carreira. Pelo contrário: existe uma coerência na forma como Charli vem expandindo sua identidade artística. Cada filme aponta para uma direção diferente, mas todos ajudam a construir uma imagem de artista que não quer permanecer presa ao mesmo lugar — nem musicalmente, nem visualmente, nem culturalmente.

Talvez seja cedo para dizer exatamente onde essa nova fase vai chegar, mas uma coisa já parece clara: Charli cxc não está tentando ser a maior dentro da pista de dança. Ela parece mais interessada em descobrir quem pode ser fora dela.

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