Não existem ingredientes prontos para a criação de lendas. Podemos considerar talento, carisma e outros elementos, mas ainda assim teríamos exemplos mal sucedidos, e outros que não reúnem tantos atributos mas que, ainda assim, se consagraram. Elton John foge da regra mas ainda assim se destaca — e em seu show no Rock in Rio, deixa claro o motivo de tamanha consagração.
Aos 79 anos de idade e em uma pausa inesperada na aposentadoria, o artista decidiu que o palco do Rock in Rio — e outro no México — mereciam um vislumbre de seu talento antes de, possivelmente, voltar para o descanso. Isso porque, desde 2023, Elton não se apresentava. Sua turnê de despedida, a Farewell Tour, começou em 2018 e pretendia rodar o mundo com seus talentos e excentricidades até a despedida. No entanto, a pandemia mudou os rumos do planejamento — e tirou o Brasil da jogada. Por isso, não era surpresa a frustração do público brasileiro em não poder se despedir num show celebratório de um ídolo tão amado pelo país.
Surpresa mesmo foi o anúncio da apresentação do festival, um ponto totalmente fora da curva, das previsões e até da esperança dos fãs mais fervorosos.
Com sua banda de músicos absurdamente talentosos, comprometidos e empolgados — mesmo com a idade, que precisamos destacar, deixava suas performances ainda mais impressionantes —, Sir Elton subiu pontualmente no Palco Mundo com um terno amarelo e óculos azuis, em homenagem ao nosso país.
A destreza no piano e os vocais praticamente impecáveis, emocionaram. O repertório extenso deixou a apresentação com surpreendentes 2 horas e 15 minutos — novamente, surpreendendo até a previsão do festival, que programava 1h45. A impressão é de que Elton e a banda estavam se divertindo, lançando solos e outros muitas vezes maiores que as próprias faixas, se deliciando nos acordes e nos rumos que as melodias podiam tomar.
Cobrindo praticamente todos os hits da gloriosa carreira, “Rocketman”, “Bennie and the Jets”, “Candle in The Wind”, “Tiny Dancer” “I Guess That’s Why They Call It the Blues”, “Sorry Seems to Be the Hardest Word”, “Someone Saved My Life Tonight”, Goodbye Yellow Brick Road”, “Don’t Let the Sun Go Down on Me”, “Crocodile Rock”, “Saturday Night’s Alright for Fighting”, “I’m Still Standing” e até uma reprise de “Cold Heart”, com Dua Lipa nos telões, foram apresentadas. “Your Song” não poderia ficar de fora, e fechou o repertório com uma queima de fogos e uma despedida emocionada do cantor, que aclamado pelo público, agradeceu pelo carinho: “Eu não poderia deixar de vir aqui e me despedir do Brasil, que sempre me deu tanto carinho, acompanhou minha carreira e me deu uma energia tão bonita”.
Pela terceira vez no festival, Elton John fez história novamente e não apenas reparou a ausência provocada pela pandemia, mas esbanjou talento, vitalidade e exibiu, mais uma vez, a reunião quase perfeita de tudo o que exige o posto de uma lenda, em uma celebração necessária, emocionante e inesquecível.









