A animação “Papaya” (2025), primeiro longa-metragem da cineasta Priscilla Kellen — que já havia se destacado como assistente de animação e coordenadora artística do multi premiado e indicado ao Oscar de melhor animação “O Menino e o Mundo (2013)” — é daquelas obras que impressiona pelo rigor estético sem deixar de lado os assuntos que quer tratar.
Ao longo de 74 min em tela o que vemos é uma sementinha de mamão que se joga na jornada de descobrir um mundo que vai para muito além de seu território, em que ao se descolar de um certo narcisismo primário e à proteção da mãe se mostra como um espelho de cada um de nós que ao longo da vida vamos buscando formas de superar o medo, a angústia, as interdições do social e principalmente bancar nosso desejo.
Quando se abrimos para a possibilidade de encarar o vasto mundo que existe para além de nós, o que fica é um completo estado de falta permanente, a experiência de que o Outro e o mundo não podem ser inteiramente capturados pelo nosso próprio saber, pelas nossas fantasias ou pelo nosso imaginário e assim o que nos resta é encarar o vazio e buscar formas de sobreviver e lutar por aquilo que se deseja, mesmo que o objeto seja inalcançável.
Em “Papaya” nosso protagonista ao descobrir a imensidão do mundo quer ter asas, mas a sua jornada reserva grandes desafios. Em uma narrativa que explora amadurecimento, pertencimento, diversidade e transformação, temos um filme que é necessário e urgente para todos os públicos.
Depois de uma rica e premiada presença em festivais nacionais de cinema, o filme esteve neste ano no programa Generation do festival de Berlim, onde foi bem recebido e comentado. O filme ultra colorido mistura formas bidimensionais, colagens e uma paleta visual inspirada em grafismos latino-americanos, mandalas e nas obras “paper-cutout” que é uma técnica artística que simula o recorte e a sobreposição de papel, criando uma sensação de profundidade e volume.
Essa técnica é utilizada principalmente em design gráfico para criar imagens detalhadas e tridimensionais que buscam recuperar a nostalgia dos trabalhos manuais. Além disso a obra, que tem trilha sonora assinada por Talita Del Collado, integrante do Trio Manaflor, e participação da cantora Tulipa Ruiz, passou por uma longa etapa de desenvolvimento de animatic, com construção de cenas, ambientações sonoras e movimentos visuais que evitam o didatismo para o público infantil.
Público esse que certamente se conectará com a ideia desenvolvida no longa. Aqui a semente de mamão quer voar para evitar criar raízes, mas que em sua jornada e na saída do idílico se depara com o caos de um mundo do grande centro urbano e da devastação do meio ambiente causada pelo agronegócio e seus verdadeiros maquinários de guerra usadas para manufatura do solo.
Ao longo de sua jornada de amadurecimento, descobertas, angústias e medos, ela descobre um rico ecossistema interligado, que sente e responde às nossas ações e que está pronto para se rebelar contra aqueles que o destrói de forma indiscriminada. O filme é uma mensagem forte e necessária sobre o Brasil de hoje, mas também sobre o mundo que nos espera.
A mensagem que fica é que cada um ao seu modo pode ser parte de uma revolução em que é necessário encontrar formas que sejam capazes de despertar o seio da vida. O filme chega aos cinemas brasileiros dia 24 de Setembro, com a distribuição da Cajuína Audiovisual e da Sessão Vitrine Petrobras, projeto de difusão e democratização do cinema brasileiro idealizado pela Vitrine Filmes em parceria com a Petrobras.
Mas, além disso, o filme está com diversas sessões especiais rolando pelo Brasil, que podem ser consultadas aqui.









