Allana Letm, Vinicius Honório e VERUAH consolidam nova edição do coletivo [M]EIO

[M]EIO tem conseguido construir uma identidade própria que aposta na imersão da música como ponto de partida para se estabelecer no calendário de eventos de uma cena eletrônica já bastante disputada

Na última sexta-feira, dia 28, rolou no Teatro Mars, no centro de São Paulo, a 6ª Edição da festa [M]EIO. O evento que tem chamado atenção da cena techno Brasileira vem conseguindo entregar eventos consistentes em curadoria, locais de locação e jogo cênico que combina iluminação, ritmo de música e performances de artistas. 

Investindo na política phone policy, que tem se tornado uma forte tendência na cena cultural underground, o evento chegou perto do sold out durante a madrugada, o que mostra o interesse da comunidade pelo evento, já que São Paulo está lotada de festas por todas as regiões em cada final de semana. 

Set de uma hora disponibilizado pela Dj e produtora Allana Letm para o volume 380 da Troally

Disputar espaço e público na agenda cultural da cidade tem sido um desafio constante de novos coletivos e produtores independentes, como é o caso de Castrø. DJ, produtor cultural e fundador da [M]EIO, ele aposta na construção de um projeto que busca aproximar novos públicos da cultura de pista sem abrir mão de sua identidade. Atuando na cena eletrônica há 14 anos, ele defende o techno como uma representação de uma forma de expressão cultural construída sobre comunidade, liberdade e pertencimento.

Na avaliação do produtor, um dos principais desafios enfrentados atualmente pela música eletrônica independente, para além destas festas menores que precisam ficar se degladiando por público e que nem muitas vezes consegue se estabelecer de forma fixa no calendário, está relacionado ao modelo de consumo cultural. O aumento dos custos de produção e dos valores dos ingressos, aliado à concentração de um determinado tipo de público em poucos grandes eventos, dificulta a manutenção de projetos independentes e enfraquece a formação de comunidades.

“Hoje é comum vermos ingressos custando metade de um salário mínimo. A cultura underground precisa de constância. Precisa de lugares onde as pessoas possam se encontrar regularmente. Quando isso deixa de existir, os coletivos independentes ficam cada vez mais frágeis“, avalia.

É neste sentido que o produtor vem apostando em nomes emergentes da cena underground, mas que já são reconhecidos como grandes apostas de um estilo de música que está em ampla ascensão. Buscando fugir da aceleração de um modelo de vida cada vez mais digitalizado, fragmentado e midiático, uma grande parcela de jovens têm buscado formas de se conectar com um certo modelo analógico de viver a vida, com menos telas, com conteúdos mais profundos, músicas com maior tempo de duração e eventos que convida para uma ideia mais minimalista e imersiva e indo justamente nessa direção que a música eletrônica também tem passado por um rebranding, mas que não é tão novo assim. 

O Minimal Techno, o Synth-pop e o Hypnotic Techno que parecem ser os principais subgêneros de influência da nova geração da música eletrônica mundial remetem diretamente a grandes nomes da indústria musical. New Order e Kraftwerk que redefiniram a música e a cultura no século XX, influenciando nomes como Madonna e toda a indústria do videogame com suas trilhas sonoras hipnóticas, já convidavam o público, lá na década de 50, 60 e 70, a desacelerar e a se entregar para o som. Em um mundo que passava por grande turbulência, esses movimentos de subcultura foram fundamentais para toda uma geração se expressar e se encontrar por meio da arte.

Allana Letm

Allana Letm tem sido uma das Djs brasileiras mais comentadas quando se fala nesse rebranding da cena eletrônica. Mais uma artista de Goiás, ela tem como base de influência musical artistas do rock justamente desse período de ebulição cultural estadunidense, Nirvana, Metallica, Eric Clapton e Pink Floyd, como sonoridades bastante fluída entre uma música forte, mas que sabe desacelerar e entrar em loops em certos momentos, esses artistas influenciam a forma como Allana explora vocais, texturas e sintetizadores, para criar uma atmosfera hipnótica e envolvente.

Na 6ª Edição da [M]EIO ela fez o set de abertura e em entrevista para a Escutai falou sobre como é o desafio de ser a entrada de uma festa. “Quando se recebe o público é necessário investigar e se adaptar a energia de quem chega. O som é mais minimalista, mas também é interessante para investigar novas sonoridades, a possibilidade de explorar quem vai chegando no evento, faz o som seguir um certo ritmo que acompanha o fluxo de quem vai se apropriando da pista, até o som ficar mais acelerado e forte”.

Allana afirma ainda que a cena brasileira tem uma identidade própria e que isto ainda é muito pouco explorado pela cena. Vencedora de prêmios e eventos importantes da música eletrônica e com lançamentos dentro de grandes selos da cena como Hotstage Records, Northern Parallels, Noise Music e Liberta Records, vale a pena ficar de olho em seu trabalho e estar nos próximos eventos que ela está no line-up.

Vinícius Honório

Vinicius Honório é outro Dj brasileiro que circula em eventos internacionais, radicado em Londres, ele está nas pistas desde de 1988, mas conta com uma exímia capacidade de explorar ritmos e sonoridades, com uma profunda pesquisa musical, uma consistência em entregar set memoráveis e um grande reconhecimento global, ele reforça a proposta do coletivo de valorizar a cultura techno por meio de uma curadoria dedicada a artistas com trajetórias autorais e relevância na cena underground.

Nascido no Rio de Janeiro, Vinicius Honório iniciou sua carreira tocando discos de vinil. Ele já passou por espaços como Tresor, em Berlim, onde realizou sua aguardada estreia recentemente, Khidi, na Geórgia, CODE Summer Festival, realizado pelo Fabrik, na Espanha, e FREEDOM Festival, na Colômbia. Atualmente, é presença constante no lendário FOLD, na Inglaterra, um dos clubes mais respeitados do techno mundial.

Para Castrø, a escolha do artista representa a conexão da festa com artistas que carregam uma trajetória sólida e uma identidade própria dentro da cultura techno: “O Vinicius é um nome que representa muito do que buscamos na [M]EIO, sendo um artista brasileiro com uma história construída de forma consistente, reconhecimento internacional e uma pesquisa sonora muito particular. Trazer ele para essa edição é valorizar um talento que ajudou a levar o techno brasileiro para o mundo.”

Sua pesquisa sonora, marcada por camadas hipnóticas, grooves precisos e uma construção de pista em constante evolução, encontra afinidade com a proposta da [M]EIO de promover experiências imersivas, acessíveis e profundamente conectadas à cultura techno.

Como parte dessa construção de pista e ápice da noite, o evento contou com a participação da performer Sol Costa em que toda prateada e com uma bola que emula uma lua cheia acesa ela acompanha o ritmo da pista, ao mesmo tempo que consegue se entregar ao som às suas costas, fluindo entre uma performance dramática e bastante encenada ela acompanhou durante a noite a transição entre os sets de VERUAH e Vinicius.

VERUAH

VERUAH que possui uma uma trajetória construída há décadas dentro da música eletrônica, faz uma pesquisa musical que passa por diferentes faces do techno, sempre guiada por uma sonoridade de vanguarda e por uma identidade própria. As batidas distorcidas, repetições hipnóticas e mudanças de dinâmica entre BPMs fazem parte de uma apresentação que transforma técnica em atmosfera.

Com músicas já tocadas por nomes como Ben Sims, TRUNCATE, Rene Wise e Juana, seu trabalho também atravessou pistas internacionais, chegando a clubes como Berghain e Tresor, além de integrar a pesquisa de selos e projetos brasileiros.

Assim, esses artistas são uma amostra que a curadoria precisa de Castrø garanta que esse espaço seja um respiro de um som de alta qualidade, em uma cidade altamente industrial e que tem tudo haver com a música eletrônica, mas que grande parte do público já está cansada de mais do mesmo, ou de pagar caro em festas gringas que pouco tem haver com a nossa identidade e nossa forma de consumir música.

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Se você quer conhecer esse projeto, assim como o Gabriel que veio de avião de Vitória para participar como público da [M]EIO, vale a pena ficar de olho nas redes sociais da festa e no aplicativo de vendas da Shotgun, a próxima festa acontecerá dia 10 de Outubro.

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