Opinião | “Anastasia — O Musical” brilha com temporada inédita em São Paulo

Daniel Teixeira / Estadão

Sempre soou estranho falar de um musical de princesa que não seja da Disney. E esse sentimento fica em evidência quando discute-se sobre a princesa perdida Anastasia com qualquer outra pessoa, que comumente imagina que a animação é da Disney, e não da — já falecida — Fox Animation Studio, responsável pelo desenvolvimento da mesma. Essa animação impressiona pela qualidade dos gráficos e traz em seus 94 minutos de duração uma história com referências reais contada com a ajuda de canções clássicas que já fazem parte do imaginário das pessoas. Anos mais tarde, em 2017, a animação foi adaptada para um musical da Broadway. A animação original está disponível no Disney+.

Para quem não é familiarizado com a história, aqui acompanhamos a trajetória de Anya, princesa russa que perdeu sua memória após a perseguição e assasinato da sua família, causando a queda da monarquia. Seu único vínculo familiar vivo é sua avó, a Imperatriz Viúva, que se exilou em Paris. Com a versão de teatro musical vemos uma nova interpretação desse conto, e com ela, pequenas mudanças de história, música e personagens, como a substituição do vilão Rasputin para o novo personagem Gleb. O musical já conta com um grande sucesso nos principais teatros ao redor do mundo e agora ganhou uma brilhante versão nacional.

Após um longo período assistindo reestreias de musicais em novas temporadas ou novas montagens de musicais que já passaram pelo país, com alterações no elenco e, às vezes, no próprio texto, chegou a vez de recebermos, pela primeira vez no Brasil, “Anastasia – O Musical”. Sua estreia acontece no dia 10 de novembro de 2022, no Teatro Renault, em São Paulo, e é a primeira grande produção inédita a estrear desde a pandemia. Por conta dessa responsabilidade e pela ansiedade do público, o anúncio tem gerado especulações e expectativas acerca de tudo que o envolve: como o elenco principal do espetáculo, cenários, figurinos, etc.

E falando em elenco, não poderiam ter escolhido atores mais compatíveis com os personagens. Nele temos Giovanna Rangel como Anya, Rodrigo Filgueiras como Dmitry e Tiago Abravanel, retornando aos palcos dos musicais, como Vlad. A química e entrosamento entre eles é nítida e convincente desde o primeiro momento em que aparecem juntos. Tive a oportunidade de assistir a um dos ensaios abertos e ali, sem figurinos e acessórios, já dava pra sentir o quão a vontade estavam uns com os outros e com seus respectivos personagens.

Para Giovanna Rangel a estreia não poderia ter sido melhor. Com essa personagem ela conseguiu mostrar todo o talento que, às vezes, por conta de papéis menores em outras produções, ficava escondido. Ao dar vida à Anya, conseguiu surpreender positivamente os olhares atentos e críticos das pessoas presentes nos ensaios, prévias e coletiva de imprensa, que se surpreenderam e se deslumbraram, rendendo ovações e aplausos mais longos que os usuais, principalmente ao cantar uma das canções mais clássicas do musical “Uma vez em Dezembro”. A construção e evolução da personagem é primorosa e vale a pena ser mencionada, pois, de forma orgânica e gradual, conseguimos acompanhá-la se transformar — em todos os sentidos — de trabalhadora bruta e esforçada em princesa da mais famosa realeza. Notamos que a imposição da sua voz, os trejeitos ao se movimentar e o próprio jeito de andar da moça evoluem para que, ao final do espetáculo, a figura de trabalhadora desapareça por completo para que a princesa possa surgir. O controle da própria voz também é algo surpreendente. A protagonista consegue encantar a todos, do começo ao fim, trazendo toda a energia que a personagem precisa, transitando confortavelmente entre o drama e a comédia.

Rodrigo Filgueiras já é um antigo conhecido nosso. Conferimos seu talento e versatilidade nos musicais Chicago e A Pequena Sereia. Dessa vez, diferentemente dos personagens anteriores, observamos seu brilhantismo ao protagonizar esse espetáculo ao lado de Giovanna. As expectativas do público estavam altíssimas em relação ao ator que interpretaria o carismático golpista Dmitry e podemos imaginar o sentimento de nervosismo e responsabilidade impostos a ele, que de uma maneira extraordinária conseguiu superar. Agora, em uma produção com mais destaque, Rodrigo se mostra completamente preparado para estar nessa merecida posição de protagonista e o solo de “Minha Petersburgo” veio para reafirmar isso. Em Anastasia temos um Dmitry único e completamente diferente de qualquer outro personagem que Filgueiras já tenha interpretado. O ar de canastrão que o personagem exige é alcançado pelo ator e é perfeitamente equilibrado com a doçura inocente de um jovem apaixonado. Essa dualidade é nítida para os espectadores e só mostra como Rodrigo está preparado para dar vida a Dmitry.

Sendo um dos nomes mais populares no teatro musical brasileiro, Tiago Abravanel embarcou nessa produção como Vlad, um dos grandes responsáveis pelos momentos cômicos do espetáculo. Tiago desempenha o papel primorosamente e está muito à vontade emprestando seu talento ao personagem. É muito divertido acompanhá-lo pela história e impossível não torcer junto com ele para que o desfecho da protagonista seja o melhor possível. Vlad tem um papel fundamental no enredo, já que Anya só pode encontrar sua avó, a Imperatriz Viúva, se sua dama de companhia Lily (interpretada por Carol Costa), antigo amor de Vlad, aprovar a moça. E quando temos a junção de Tiago e Carol em cena, a certeza de que vamos ficar maravilhados com a química, o dinamismo entre os dois é um dos pontos altos do musical. O entrosamento e intimidade que ambos compartilham na vida fora dos palcos só serviram para trazer mais gargalhadas e encantamento aos espectadores.

Uma das mudanças mais significativas da história de 1997 para adaptação para teatro é a mudança do vilão, como já citamos anteriormente. Antes, onde tínhamos o impetuoso Rasputin, agora temos o autoritário Gleb, maravilhosamente interpretado por Luciano Andrey, que junto com Bianca Tadini, dupla certeira e premiada em outras produções, assina a versão musical do espetáculo. Diferente do vilão original, Gleb mostra que apesar da posição de antagonista da história, possui sentimentos bons pela protagonista criando ali na história um conflito de interesse entre fazer o que lhe é imposto ou seguir o que seus desejos falam. Luciano traz todo seu talento dramático para o personagem, esse mesmo talento que já foi visto em outros musicais como A Golondrina, humanizando agora o vilão dentro de um contexto político difícil.  

Outro ponto que me fascina em um musical é a integração do ensemble à história e em como eles são integrados ao todo. Em Anastasia, o coro de atores/cantores/bailarinos são um deleite para a plateia. Nos primeiros minutos já conseguimos ter noção da riqueza da família de Anya não só pelos figurinos ostentosos e brilhantes, mas principalmente pela postura impecável de cada membro da realeza. Carla Vazquez, que interpreta a Tzarina, por exemplo, está deslumbrante e parece flutuar pelo palco. Na sequência, temos o contraste de São Petersburgo dominado pela pobreza que a chacina ocasionou. O mesmo ensemble, que há poucos instantes estava cheio de pompa, agora se encontra devastado e na miséria. Essa ruptura abrupta nos mostra como o trabalho deles é bem feito e coerente, pois nessa parte, conseguimos acreditar que são pessoas completamente diferentes, com posturas e gestos totalmente opostos aos de antes.

É surreal. A cena em que o ensemble retorna ao palco como realeza e se mistura às projeções das memórias de Anya também é linda e emocionante. Aqui, Vania Canto brilha. Sua voz se sobressai e por um momento ela impede que a protagonista interaja com a memória de seu falecido pai, mostrando como cada passo é milimetricamente pensado. Já Keila Bueno chama a atenção pela limpeza de seus movimentos, que ficam em evidência na abertura do segundo ato. Nada sobra, nada é a toa e nenhum talento é desperdiçado. Na cena do ballet também nos impressionamos com a técnica e perfeição dos movimentos executados pelos bailarinos, que até se submetem a um alongamento/aquecimento específico para a cena.

“Anastasia – O Musical” brilhou em sua estreia e promete emocionar e divertir a todos que se propuserem a viver essa experiência única. Não só o elenco está incrível, mas o cenário, que por mais simples que possa parecer à primeira vista, surpreende a cada mudança, seja pelas projeções que se alinham aos acontecimentos da história ou a versatilidade do musical. Essa superprodução fecha com chave de ouro o ano no Teatro Renault.

Fazem parte do elenco: Ariel Venâncio, Ariadne Okuyama, Darua Goes, Caru Truzzi, Diego Luri, Alvinho de Pádua, Cadu Batanero, Victor Vargas, Gabriel Conrad, Cezar Rocafi e Paulo Ocanha, como Ensemble. E Gigi Debei, Fernanda Muniz, Bruno Sigrist e Andre Luiz Odin, como Swing.

Anastasia é um musical com letra e música de Lynn Ahrens e Stephen Flaherty e libreto de Terrence McNally. O roteiro é inspirado na lenda da Grã-Duquesa Anastásia Nikolaevna da Rússia e na sua suposta sobrevivência à execução de sua família, durante a Revolução Russa. O musical estreou na Broadwayem abril de 2017. No Brasil, o musical será produzido pela Caradiboi, nome por trás dos espetáculos “Priscilla, Rainha do Deserto”, de 2012, e “We Will Rock You” e “Gabriela, Um Musical”, ambos de 2016.

Anastasia estreou dia 10 de novembro, no Teatro Renault em São Paulo e os ingressos podem ser garantidos no site da T4F. Para mais informações acesso o perfil oficial do espetaculo no Instagram.

Por Leo Pereira

Designer, Comunicador e principalmente, apaixonado por teatro musical


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